Os preços do boi gordo, principal componente do custo dos frigoríficos e da produção de carne, devem voltar a subir a partir do segundo semestre. Nas últimas semanas, os preços dos animais passaram por uma desaceleração, na sequência de uma valorização aguda.
Tanto a menor disponibilidade de animais para abate quanto a demanda por carne bovina no mercado externo e doméstico — impulsionada por eleições e Copa do Mundo —, devem contribuir para a retomada das cotações do boi gordo, potencialmente remunerando melhor pecuaristas, disse à reportagem a coordenadora de mercado pecuário da consultoria Agrifatto, Isabella Cavalcante.
Pecuaristas brasileiros vinham reduzindo o abate de fêmeas desde a segunda metade do ano passado, a fim de recompor o rebanho, estimulados por preços mais remuneradores de animais de reposição, como bezerros. Em março, a parcela de fêmeas no total de animais abatidos foi de 43,9%, considerando dados plantas com SIF, o registro do Ministério da Agricultura para inspeções, compilados pela Agrifatto. Em março do ano passado, esse percentual era de 51%, de acordo com informações do IBGE levantadas pela consultoria.
Alta no início do ano
A menor disponibilidade de fêmeas para abate, combinada com uma corrida de importadores chineses para garantir suprimento de carne brasileira no início do ano chegou a levar a arroba do boi a valores recordes. Compradores da China aumentaram as compras da carne brasileira antes do preenchimento da cota anual de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina sem tarifa adicional estabelecida pelo país asiático para o Brasil.
Em 15 de abril, o indicador do boi gordo Cepea/Esalq atingiu R$ 367,3 por arroba.
Desaceleração em maio
Contudo, desde então, o indicador vem caindo progressivamente, e até quinta-feira (07/05), havia se desvalorizado 3,8%, chegando a R$ 353,75. A queda das últimas semanas, segundo Cavalcante, já era esperada e reflete um movimento sazonal para esta época do ano, de aumento do abate de fêmeas que não emprenharam e também de machos, já que o clima mais seco reduz o volume de pasto disponível para o rebanho e leva pecuaristas a descartarem mais animais.
“Em maio a gente vê uma pressão [para baixo sobre os preços] histórica, e aliado a isso corrobora o receio quanto ao preenchimento das cotas chinesas. A indústria tem receio, e os importadores vêm desacelerando negociações”, disse Cavalcante. Segundo a especialista, historicamente a cotação da arroba do boi gordo em maio é 2% mais baixa do que em abril, mas neste mês a queda poderia chegar a 5%.
Efeito Copa e eleições no segundo semestre
Esse quadro, no entanto, deve persistir somente até meados do ano. A partir de julho volta a prevalecer a lógica da retenção das fêmeas, estimulada por uma demanda reforçada por Copa e eleições e por preços do bezerro em alta. A retenção, possivelmente, pode contribuir para uma recuperação dos preços do boi gordo, de acordo com a coordenadora da Agrifatto.
Do lado da demanda, espera-se que a Copa do Mundo impulsione o consumo doméstico de carne bovina. Além disso, em anos eleitorais, a cotação do boi gordo historicamente sobe 6% em média em outubro em comparação a janeiro, de acordo com levantamentos feitos pela Agrifatto, mais do que os 2% de incremento entre os dois meses observado em anos sem eleições.
Ela lembra ainda que, em outubro, exportadores e importadores chineses devem voltar a negociar carne bovina dentro da cota sem tarifa extra estabelecida pelos chineses, tendo em vista que as cargas precisam deixar o Brasil nos últimos meses do ano para chegar à China a partir de janeiro. As exportações também costumam ganhar força no último trimestre do ano, com importadores reforçando compras para as festividades do fim do ano, pontuou ela.
Frigoríficos brasileiros também já contam com a perspectiva de preços de boi mais altos neste ano. Nesta semana, em teleconferência com analistas, o diretor de finanças e relacionamento com investidores da Minerva Foods, Edison Ticle, disse que a alta do boi deve levar a companhia a ter margens de lucro menores em 2026 em relação a 2025. Conforme o executivo, a companhia vem pagando pela arroba do boi gordo em média 13% a mais na comparação anual e há perspectiva de que, no ano, a variação se mantenha neste patamar.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, trabalha com a perspectiva de queda pouco significativa ou estabilidade do abate de gado bovino em 2026. A entidade projeta queda de até 10% das exportações em virtude de uma esperada redução da demanda chinesa por causa da cota.
“Muito da alta [observada no início do ano] foi por causa da cota da China, de o mercado ter corrido e ter abatido mais”, disse Perosa à reportagem. “Mas o mercado interno está aquecido, é indiscutível.”







