A produção de trigo no Brasil na safra deste ano foi estimada em 6,616 milhões de toneladas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em levantamento divulgado nesta terça-feira (14/4), uma queda de 16% em relação ao ciclo anterior que reflete a redução de 4,2% da projeção de área plantada em comparação ao estimado em março pela estatal.
Entre os fatores que explicam esse movimento, segundo o economista da FGV Agro Felippe Serigati, estão as incertezas climáticas e o aumento dos custos de produção, especialmente com fertilizantes. A safra de inverno, que inclui o trigo, é mais exposta a esse tipo de pressão.
“A safra de inverno é mais sensível a esse choque de custos, especialmente de fertilizantes. Dependendo da disponibilidade ou da qualidade dos insumos utilizados, isso pode levar tanto a uma redução de área quanto a uma nova revisão para baixo da produtividade”, diz.
Apesar da expectativa de menor produção, o impacto sobre o abastecimento interno, de acordo com o presidente da Abitrigo, Rubens Barbosa, deve ser limitado, já que o Brasil pode recorrer ao mercado externo para suprir a demanda.
“O Brasil não tem problema de abastecimento. Se houver redução da produção, a gente importa. Há oferta de trigo no mercado internacional, então isso não é uma preocupação”, afirma Barbosa.
Segundo ele, o principal ponto de atenção para a indústria está no custo de importação, que vem sendo pressionado por uma série de fatores. “O que preocupa é o custo. Houve taxação sobre o trigo importado, além da alta do petróleo, do frete e do seguro. Tudo isso pressiona o custo para os moinhos e, consequentemente, para a produção da farinha”.
Barbosa refere-se à Lei Complementar nº 224/2025, que alterou a tributação sobre a cadeia e resultou na retomada da cobrança de PIS e Cofins sobre o trigo importado, elevando o custo da matéria-prima para a indústria.
Além disso, a qualidade do trigo argentino, principal fornecedor do Brasil, também tem afetado a dinâmica de importação. “A qualidade do trigo argentino caiu, e isso obriga o Brasil a buscar produto em outros mercados, como Estados Unidos, Canadá e Rússia, que têm um trigo de melhor qualidade”, afirma.
Nesse cenário, a indústria já se prepara para lidar com o aumento de custos, ainda que tente mitigar repasses ao consumidor final. “Os moinhos estão fazendo uma racionalização de custos para reduzir impactos, mas, à medida que novas compras forem feitas a preços mais altos, isso tende a aparecer no custo da farinha”, diz o presidente da Abritrigo.
A redução da oferta pode impulsionar os preços de derivados como pão e massas, mas, também segundo Serigati, o efeito não depende apenas da safra brasileira. “Não dá para colocar tudo na conta da safra brasileira. Há outros canais de transmissão importantes, como o custo dos combustíveis, que afeta a distribuição, e o mercado internacional, já que o trigo é uma commodity com preço formado lá fora. Esses fatores acabam pressionando os preços antes mesmo da colheita no Brasil”, explica.







