A fumaça das queimadas pode representar um risco para a saúde, principalmente durante os períodos de estiagem, quando a ocorrência de focos de calor aumenta e a população pode ficar exposta por períodos prolongados à poluição atmosférica.
Entre os principais componentes presentes na fumaça está o material particulado fino, conhecido como PM2,5, formado por partículas tão pequenas que conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório.
É justamente esse cenário que está sendo analisado em uma pesquisa desenvolvida por Ma. Taynara Fernandes, professora assistente da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Porto Nacional.
O estudo avalia a ocorrência de queimadas, indicadores relacionados à qualidade do ar e internações por doenças respiratórias no Tocantins entre 2023 e 2025. A pesquisa ainda está em fase de coleta e análise dos dados, mas parte de evidências científicas que já apontam os riscos associados à exposição ao PM2,5.
A motivação para o estudo está relacionada à elevada ocorrência de queimadas no Tocantins durante o período seco. Por estar localizado em uma região de transição entre os biomas Cerrado e Amazônia, o Estado apresenta um padrão sazonal de queimadas, com maior ocorrência entre junho e outubro.
Taynara Fernandes explica que a pesquisa busca compreender como esse cenário se manifesta no Estado e quais períodos, regiões e grupos populacionais podem estar mais vulneráveis aos efeitos da poluição provocada pelas queimadas.
“A exposição à poluição atmosférica, especialmente ao material particulado fino, está associada ao agravamento de doenças respiratórias e ao aumento do risco de internações. O objetivo da pesquisa é justamente analisar como esse fenômeno se comporta no Tocantins e identificar períodos, regiões e grupos populacionais potencialmente mais vulneráveis”, explica.
Efeitos
Um dos principais componentes da fumaça das queimadas é o PM2,5. Por causa do tamanho reduzido, essas partículas conseguem ultrapassar as barreiras das vias respiratórias e alcançar regiões mais profundas dos pulmões, como os bronquíolos e os alvéolos.
A exposição pode desencadear processos inflamatórios e estresse oxidativo, contribuindo para o agravamento de doenças respiratórias.
Os efeitos podem ser percebidos mesmo em pessoas que não possuem uma doença respiratória diagnosticada. Irritação das vias aéreas, tosse, falta de ar, chiado e desconforto respiratório estão entre os sintomas que podem surgir ou se intensificar durante períodos de maior concentração de fumaça.
Para Frederico Póvoa, médico pneumologista e professor assistente da Afya Palmas, a exposição merece atenção especialmente entre pessoas que já apresentam doenças respiratórias.
“As partículas finas presentes na fumaça das queimadas podem inflamar as vias respiratórias, causando sintomas como falta de ar, tosse, dor no peito e chiado. Pacientes que já têm doenças respiratórias crônicas, como asma, enfisema e fibrose, são especialmente afetados.”
Além das pessoas com doenças respiratórias crônicas, crianças e idosos também estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da exposição. “As crianças, pela imaturidade do sistema respiratório, e os idosos, pela senilidade do mesmo, são mais vulneráveis, apresentando sintomas mais intensos em exposições menores”, explica o pneumologista.
Cuidados
Durante períodos de fumaça intensa, reduzir o tempo de exposição é uma das principais formas de prevenção. Sempre que possível, a recomendação é evitar locais próximos às queimadas, manter os ambientes protegidos da entrada excessiva de fumaça, utilizar máscaras quando necessário e manter uma boa hidratação.
Pessoas que fazem tratamento para doenças respiratórias crônicas também devem seguir as orientações médicas e manter o uso regular dos medicamentos prescritos.
A atenção aos sintomas também é fundamental. Tosse, irritação das vias respiratórias e desconforto podem ocorrer após a exposição, mas sinais como falta de ar importante ou dor no peito exigem avaliação de um profissional de saúde. “Dor no peito e falta de ar muito grandes merecem procurar atendimento de urgência, pois provavelmente a inflamação está mais forte e deverá usar medicamentos para melhorar”, alerta Frederico Póvoa.
Pesquisa
No Tocantins, a ocorrência de queimadas apresenta característica sazonal, com maior concentração durante o período seco, especialmente entre junho e outubro. A combinação entre a presença de focos de calor e a exposição da população à fumaça torna o período um cenário relevante para estudos sobre os impactos da poluição atmosférica na saúde.
É nesse contexto que a pesquisa da Afya busca reunir informações ambientais e de saúde para compreender o comportamento do fenômeno no Estado. A análise considera dados sobre a ocorrência de queimadas, indicadores de qualidade do ar e internações por doenças respiratórias entre 2023 e 2025.
De acordo com Taynara Fernandes, os resultados podem contribuir para o planejamento de ações de vigilância e assistência à saúde, especialmente nos períodos de maior risco. “Ao identificar períodos e municípios mais afetados pelas queimadas, bem como os grupos populacionais com maior ocorrência de internações respiratórias, será possível subsidiar o direcionamento das ações de vigilância em saúde e assistência à população mais afetada, além de fortalecer a articulação entre os setores de saúde, meio ambiente e gestão pública”, destaca.
Enquanto os dados da pesquisa continuam sendo analisados, o estudo reforça a importância de observar as queimadas não apenas como um problema ambiental, mas também como uma questão de saúde pública. Compreender os efeitos da fumaça e reconhecer os sinais de agravamento pode contribuir para ampliar a prevenção e reduzir os riscos associados à exposição à poluição atmosférica.
A pesquisa desenvolvida pela professora Taynara Fernandes integra o programa Afycionados por Ciência, iniciativa da Afya voltada ao incentivo, fomento e à valorização da pesquisa e da extensão nas Instituições de Ensino Superior da instituição. A iniciativa permite que docentes e discentes desenvolvam projetos de pesquisa, fortalecendo a produção de conhecimento e a conexão entre a formação acadêmica e demandas relevantes da sociedade.






