Após recuar dois meses seguidos, o preço do boi gordo tende a cair ainda mais em julho, podendo atingir os menores níveis do ano, segundo analistas ouvidos pelo Valor. Com isso, as cotações de cortes bovinos no atacado também devem perder força, movimento que já se inicia de forma sutil. Desde o começo do mês, a arroba do boi gordo teve queda de quase 3%, segundo o indicador Cepea, e ficou em R$ 326,65 na sexta-feira. O quilo dos cortes de traseiro caiu 1% no período e os de dianteiro, 1,2%.
A retração dos preços da arroba e dos cortes vista até agora é resultado da boa oferta de animais para abate e também da demanda menos aquecida, de frigoríficos e consumidores. A perspectiva de saída da China, maior importador da carne bovina brasileira, do mercado, ao menos até outubro, também contribuiu para a queda
Isso porque a cota anual de exportação estabelecida para o Brasil, de 1,106 milhão de toneladas, já foi virtualmente preenchida. Dentro da cota, o tributo é de 12%, mas exportações acima do volume pagam adicional de 55%.
Em relatório publicado no sábado (4/7), a consultoria Safras & Mercados informou que as exportações brasileiras de carne bovina à China em junho, de 158,3 mil toneladas, representam o “esgotamento oficial” da cota brasileira. Até maio, conforme os dados oficiais da China, o Brasil havia preenchido 65,4% da cota. Para contabilizá-la, os chineses consideram a data de chegada dos produtos aos portos do país, e incluem cargas que saíram do Brasil nos últimos meses de 2025 e demoraram cerca de 40 dias para chegar à China.
Com o preenchimento da cota chinesa e a migração para o mercado doméstico de parte da carne que seria exportada, a tendência é de as quedas se acentuarem, tanto da arroba quanto dos cortes.
Levantamento da Safras & Mercados também identificou queda dos preços da carne no atacado paulista, maior mercado consumidor do país. Só na sexta-feira (10), o corte dianteiro caiu R$ 1 por quilo, para R$ 19.
“A China vai fazer falta, são cerca de 130 mil toneladas mensais, e não conseguimos colocar todo esse volume em outros compradores de uma só vez. Mas, como os demais mercados continuam comprando bem, especialmente os Estados Unidos, veremos quedas cadenciadas”, observa a CEO da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel.
Diante da menor demanda chinesa, vários frigoríficos brasileiros, incluindo JBS, Frigol, Better Beef, Plena Alimentos e Iguatemi Beef, começaram a dar férias coletivas a funcionários de algumas de suas plantas, para administrar a oferta de carne no mercado.
Esse movimento das empresas tende a pressionar o valor da arroba, alterando uma dinâmica de mercado, já que tradicionalmente os abates de bois aumentariam em junho e julho. Sem China, porém, o quadro é outro.
A coordenadora de mercado pecuário da Agrifatto, Isabella Cavalcante, avalia que os preços do boi gordo podem atingir em julho os níveis mais baixos do ano. “Dada essa combinação de uma maior oferta sazonal com a questão da China, possivelmente em julho veremos os níveis de preços mais baixos do ano para boi gordo”, prevê.
Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, diz que entre o fim de julho e começo de agosto, a partir de quando a exportação “levará um tombo”, começará a surgir no mercado interno um volume adicional, de cargas que deixarão de ser exportadas para a China.
Segundo ele, isso deve se somar ao aumento da oferta de boi gordo proveniente de confinamentos, que tradicionalmente cresce no segundo semestre.
No varejo, com a continuidade das quedas do boi gordo e da carne no atacado, alguns analistas acreditam na possibilidade de redução também dos preços ao consumidor no período em que a China estiver fora das compras.
“Quando o boi cai, a carne no atacado também cai e vice-versa. No varejo é outra história. Acho que não vai ser pequena a queda [dos preços do boi], mas no varejo deve cair menos porque eles vão preservar margens. Se baixar de preço, ajuda o consumo a avançar, já que o frango está muito barato e a carne bovina está perdendo espaço”, afirma Alves, do Itaú BBA.
“Historicamente, quedas agressivas da arroba [do boi] e [da carne] no atacado muitas vezes não chegam ao varejo”, concorda Fernando Iglesias, da Safras & Mercados. Para ele, a demanda fraca também decorre do atual nível de preços da carne e do endividamento das famílias.
Há ainda a concorrência com outras carnes, como de frango e suína. Segundo Isabella Cavalcante, a competitividade do frango em relação à carne bovina “está em um patamar historicamente muito alto”. Isso fragiliza o consumo do produto, acrescenta.
Na avaliação de Iglesias, o cenário no mercado de carne bovina deve mudar no último trimestre em relação ao que se vê atualmente. Isso porque deve haver menor incentivo ao confinamento de gado nos últimos três meses do ano, o que deve levar ao aumento dos preços da arroba do boi gordo.
Além disso, haverá uma retomada da demanda chinesa, pois os importadores já começarão a fazer compras que serão contabilizadas na cota de 2027, diz. O último trimestre também costuma ser o auge do consumo doméstico. “De qualquer forma, acredito que teremos um mercado muito demandado, com quadro de oferta bastante restrito”, resume Iglesias.







