A busca por padrões mais altos de bem-estar animal começa a ganhar escala na suinocultura brasileira, ainda que em ritmo inicial. Um exemplo vem de Patos de Minas (MG), onde uma granja da Auma Agronegócios se tornou a primeira do país a conquistar a certificação da Produtor do Bem, baseada em critérios mais rigorosos do que os normalmente adotados no setor.
O modelo adotado pela empresa envolve mudanças estruturais no sistema produtivo. “O bem-estar animal é um conjunto de práticas que garante condições físicas, nutricionais e comportamentais adequadas, sem estresse ou sofrimento”, afirma a diretora-executiva da Auma, Lucimar Silva. Segundo ela, a estratégia faz parte de uma mudança mais ampla na forma de produzir e atender às demandas do mercado.
Entre as principais alterações está a adoção do sistema conhecido como “cobre-solta”, no qual as matrizes são inseminadas e rapidamente transferidas para alojamento coletivo, diferente do padrão predominante, que mantém os animais por até 28 dias em gaiolas.
Na prática, a mudança exige ajustes finos no manejo, nutrição e infraestrutura, mas traz benefícios. Segundo o gerente de produção Baltazar Vieira, a granja conseguiu reduzir perdas e melhorar indicadores zootécnicos. “Só com práticas de bem-estar, diminuímos mortalidade de leitões, doenças e perdas ao longo do processo. Isso se traduz diretamente em resultado econômico”, diz.
Outro exemplo foi a retirada da ractopamina, aditivo usado para melhorar ganho de peso nos suínos. Apesar da perda inicial de eficiência, a empresa afirma que o equilíbrio veio com menor mortalidade e menos problemas sanitários. “Quando você coloca na conta o que deixa de perder, o resultado é positivo”, afirma Vieira.
Além dos ganhos produtivos, a estratégia também abre espaço para diferenciação comercial. A empresa já recebe cerca de 3,5% a mais por quilo de carne em função do modelo de produção, segundo a companhia.
A expectativa é avançar ainda mais com a certificação, mirando mercados mais exigentes e nichos específicos. “Existe uma mudança no comportamento do consumidor, que quer saber como o alimento foi produzido. Isso vale também para a carne”, diz Lucimar.
Certificação mais rigorosa
A certificação da Produtor do Bem se diferencia por estabelecer níveis de exigência e buscar elevar o padrão do setor, afirma o diretor-executivo da entidade, José Rodolfo Ciocca. “Muitas certificações apenas chancelam o que já é feito. A nossa proposta é elevar o nível de bem-estar com critérios mais robustos e auditáveis”, diz.
O protocolo limita, por exemplo, o tempo de permanência de matrizes em gaiolas e exige práticas como enriquecimento ambiental e menor densidade de animais. Hoje, a certificação tem três níveis, e a Auma foi enquadrada no primeiro que, segundo Ciocca, já está acima da média do mercado. “Mesmo o nível inicial já é mais exigente do que muitas certificações no Brasil e no exterior”, afirma.
Apesar dos avanços, a adoção desse tipo de modelo ainda enfrenta barreiras. Entre elas estão o custo de adaptação, mudanças no manejo e a necessidade de capacitação das equipes. “Os principais desafios hoje são densidade de animais, manejo de matrizes e adaptação do ambiente para permitir comportamento natural”, diz Ciocca.
Mesmo assim, a tendência é de avanço, puxada principalmente pelo mercado internacional. Segundo o executivo, empresas e compradores já começam a exigir padrões mais elevados, especialmente em negociações entre empresas. Segundo ele, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode acelerar esse movimento. “O Brasil tem uma oportunidade de se posicionar como fornecedor com alto padrão de bem-estar animal, algo que ganha cada vez mais relevância”, afirma.
Para a Auma, o objetivo agora é ampliar esse modelo e capturar valor ao longo da cadeia, da produção ao consumidor final. “Quando você melhora o ambiente e o manejo, o resultado aparece: menos perda, mais eficiência e um produto mais valorizado”, diz Baltazar Vieira.






