Quem aqui nunca assistiu a um filme no cinema?” Em resposta a essa pergunta, diversas mãos na plateia formada por cerca de 40 mulheres e mais alguns homens se ergueram na manhã de quarta-feira, dia 18 de março, na sala de cinema do Centro de Atividades Sesc, em Palmas. Foi pela curiosidade de ver imagens em uma tela gigante pela primeira vez que muitas daquelas mulheres acordaram cedinho para estar ali, em mais uma ação da Incubadora Social, projeto de extensão da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
Em cartaz, numa parceria com o CineSesc, o documentário Palmas, Substantivo Feminino. A obra, que tem roteiro assinado por Ariadne Feitosa, coordenadora pedagógica da Incubadora, e direção de Rayssa Carneiro, também servidora da UFT, retrata a contribuição de cinco mulheres pioneiras na construção da capital do Tocantins. Não por acaso, foi produzida por uma equipe majoritariamente feminina, provando o valor e a capacidade das mulheres na frente e atrás das câmeras.
“Vendo esse filme a gente vê que todo mundo é capaz de dar a sua contribuição para o mundo”, disse uma das senhoras ao final da exibição, que teve debate mediado pela equipe de psicólogos e assistentes sociais da Incubadora com a participação da diretora e da roteirista do filme. “A gente lembra do nosso tempo… porque a gente também passou por isso, por todas essas dificuldades”, costurou outra senhora na plateia.
“Eu até lacrimejei aqui, porque eu conhecia essa história, eu vi isso de perto. [Como uma das mulheres retratadas na obra] eu também recebi um lote no início da construção de Palmas. Era um lote muito bom, na avenida do Aureny, mas eu era submissa ao homem: como ele não quis, nós não viemos, acabaram invadindo o lote e eu perdi. Eu chorei muito por isso, mas tempos depois comprei outro lote parcelado. Meu marido disse que não ia ajudar com nenhum centavo, mas mesmo assim eu trabalhei, consegui construir minha casa e criar meus filhos lá”, rememora Maria Ramos.
“Eu me identifiquei muito com a história da ‘Rose do Caixão’, quando ela conta que trabalhava vendendo planos funerários, mas quando abriu a própria funerária precisou aprender a preparar os corpos. Porque eu, trabalhando no hospital, também já passei por essa situação. E foi muito difícil, eu tive muito medo. Ninguém pensa muito nisso. Estava todo mundo preocupado com outras coisas e ninguém lembrou que as pessoas iam morrer, porque uma hora isso sempre acontece. E ela foi importante porque teve essa visão de abrir a primeira funerária aqui na cidade”, destacou Rita.
“Essa obra é sempre enriquecida em momentos como esse, a cada vez que a gente apresenta esse documentário e ouve os comentários das pessoas que assistem, porque há muitas Iáras, Elaines, Roses e tantas outras mulheres como as que nós retratamos por aí, com suas histórias para serem contadas. A gente percebe que são sempre as mulheres que garantem, mesmo sem aparecer, que a história continue. Mulheres que fizeram com que a casa não fosse tomada, que o cemitério fosse construído… Elas vão à luta, mesmo quando os homens não querem. Nós fizemos esse filme, um livro e também uma exposição de bordados para mostrar um pouco desse protagonismo feminino em Palmas, mas essas são apenas algumas das possibilidades. E esperamos que as mulheres que nos assistiram aqui hoje valorizem e contem suas histórias, para os seus filhos, para os seus netos, e saibam que são importantes”, disse a diretora, Rayssa Carneiro.
“É uma questão de reparação histórica. A gente precisa dar às mulheres esse protagonismo, porque elas, de fato, foram à luta, estiveram na linha de frente e abriram caminhos, mesmo quando não foram vistas nem valorizadas”, acrescentou a roteirista, Ariadne Feitosa.
Foram realizadas duas sessões de exibição do curta-metragem de 24 minutos. No intervalo entre elas, um lanche de confraternização reuniu os grupos atendidos pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) de Taquari, Santa Bárbara, Aureny 3, Kanela e Krahô, que já participam das atividades rotineiras da Incubadora Social. Ao final, os participantes, além da experiência cinematográfica e cultural, receberam cestas básicas para reforçar a alimentação da família.







