O consumo de álcool e outras drogas pelos pais pode influenciar diretamente o comportamento dos filhos adolescentes. É o que aponta um estudo brasileiro com 4.280 jovens e seus responsáveis, publicado em novembro de 2025 na revista científica Addictive Behaviors.
Os resultados mostram que a forma como os pais lidam com essas substâncias e como educam os filhos tem impacto importante na prevenção ou no aumento do risco de consumo.
Estilos de educação
Os pesquisadores analisaram diferentes formas de educação familiar e identificaram quatro estilos parentais. O chamado autoritativo, caracterizado por equilíbrio entre acolhimento, diálogo e monitoramento, apresentou o maior efeito protetor.
Já o estilo autoritário, mais rígido e focado em disciplina, também mostrou alguma proteção, mas com impacto menor sobre o consumo de álcool.
Os perfis permissivo e negligente não apresentaram efeito protetor. No primeiro caso, há afeto, mas poucas regras. No segundo, predominam distanciamento emocional e pouca supervisão.
A professora Zila Sanchez, do departamento de medicina preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e principal autora do estudo, destaca que o comportamento dos adultos ainda é determinante.
“O padrão de uso de álcool e outras drogas pelos pais influencia o dos filhos. Mas, quando há regras claras, limites e afeto, esses fatores ajudam a reduzir muito o risco, mesmo quando os responsáveis consomem essas substâncias”, disse, em comunicado.
Segundo a pesquisadora, o maior fator associado à abstinência dos adolescentes foi o não consumo pelos próprios responsáveis. “Quando os pais são abstêmios, cerca de 89% dos jovens também não usam álcool nem outras drogas. Foi a associação mais forte que encontramos”, afirma.
Influência familiar
Os resultados indicam que o consumo de álcool pelos pais esteve associado a uma probabilidade de 24% de os filhos também beberem e de 6% de utilizarem duas ou mais substâncias. Quando os responsáveis consumiam várias drogas, o risco entre os adolescentes subia para 17% no caso do álcool e 28% para múltiplas substâncias.
Os dados foram coletados entre 2023 e 2024 em quatro municípios paulistas de pequeno porte, Cordeirópolis, Iracemápolis, Salesópolis e Biritiba-Mirim. A idade média dos adolescentes foi de 14,7 anos, com distribuição equilibrada entre meninos e meninas.
Entre os jovens, cerca de 20% relataram consumo de álcool no último mês e pouco mais de 11% disseram ter episódios de consumo excessivo. Entre os pais, mais da metade relatou uso recente de álcool.
Prevenção ainda é desafio de saúde pública
O estudo integra um projeto financiado pela Fapesp voltado à prevenção do consumo de álcool entre adolescentes por meio de estratégias comunitárias, envolvendo escolas, famílias e ações locais. O objetivo é gerar evidências que orientem políticas públicas mais eficazes.
Os pesquisadores ressaltam que retardar o início do consumo é uma das medidas mais eficazes para reduzir problemas futuros relacionados ao álcool e a outras drogas. Apesar da proibição da venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, dados nacionais indicam que muitos jovens têm contato precoce com essas substâncias.
Além dos riscos imediatos, o consumo frequente de álcool está associado ao aumento de doenças crônicas, transtornos mentais, dificuldades de aprendizagem e maior vulnerabilidade social.
Para os especialistas, a combinação entre presença familiar, comunicação aberta e limites consistentes continua sendo uma das estratégias mais eficazes para proteger adolescentes do uso precoce de álcool e outras drogas.







