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Vítima de violência sexual, jogadora do Atlético-MG revela como denúncia levou pai adotivo à prisão

Debinha cresceu convivendo com agressões sexuais, mas foi no futebol que descobriu que era vítima de um crime: "O esporte não me deixava desistir"

ge por ge
02/04/2025
em Esportes
Tempo de leitura: 6 minutos
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Debinha, jogadora do Atlético-MG — Foto: Daniela Veiga / Atlético

Debinha, jogadora do Atlético-MG — Foto: Daniela Veiga / Atlético

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“Durante toda a minha infância, de 8 a 12 anos de idade, eu fui estuprada pelo meu pai adotivo.”

Esse é o relato de Debora Vieira Costa, jogadora do Atlético-MG, conhecida como Debinha. A atleta, de 22 anos, viveu uma infância dura na cidade de São Sebastião do Tocantins, município na divisa com o Maranhão. Adotada quando completou um ano de idade, teve a vida marcada por um crime que só iria entender na adolescência.

– A minha infância foi bem conturbada. Eu fui estuprada pelo meu pai adotivo, que, no caso, seria da família que me criou. E foi muito difícil pra mim. Depois, eu saí de casa com 14 para 15 anos para um projeto em Goiânia. Como eu saí da cidade pequena e fui para uma cidade grande, eu passei a perceber que tudo aquilo que eu passei na infância não era culpa minha.

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Debinha era uma criança em meio aos cerca de 4.500 habitantes de São Sebastião do Tocantins. De família muito humilde, como a maioria dos seus conterrâneos, a jogadora foi adotada por uma família que criou outras crianças, como a própria mãe biológica da atleta.

Era para ser um lugar de segurança, para que a garota pudesse crescer feliz e saudável, mas Debinha passou por momentos terríveis e teve que suportar a situação por medo do desamparo.

– Eu cresci com uma família adotiva, que foi a mesma família que adotou a minha mãe de sangue. Quando eu tinha um aninho, que eu parei de mamar, eu fui adotada pela mesma família. Mas a minha mãe não morava com a gente. Ela foi criada pela família. E quando eu e o meu irmão éramos crianças, a gente ficou com essa família, de bebezinho até uma certa idade.

“Na época eu era muito criança e eu não tinha meu pai, que me abandonou, e a minha mãe, que deixou eu e meu irmão com a mesma família que a adotou. E eu também não tinha para onde ir mesmo se eu falasse (sobre os abusos). Então, correria o risco deles não acreditarem em mim e ainda assim eu ficaria sem um lugar para morar. E, daí ,eu guardei isso por muito tempo, até que eu comecei a entender que tudo aquilo era muito errado.”

O futebol sempre foi o refúgio da garota. Desde pequena, apesar de todos os olhares controversos, jogava bola com os amigos da cidade. Era uma forma de se sentir mais livre e segura, apesar de estar rodeada de garotos, que não amoleciam para ela. Foi essa paixão que a tirou do pesadelo vivido em casa e deu uma perspectiva de virada na própria história.

– (Jogo bola) desde muito novinha, desde que eu me entendo por gente. Eu não sei mais ou menos a idade que eu tinha, mas eu era muito nova, tipo 6, 7, 8 anos. Era muito difícil, tinha muitos comentários machistas. As pessoas me chamavam de Maria João, Maria Macho e muitos comentários que mulher não podia estar jogando no meio dos meninos, mas isso nunca me afetou. O futebol é minha paixão.

Tempos depois, aos 14 anos, quando chegou em Goiânia, foi no futebol que encontrou apoio para dizer como tinha sido a sua infância e os abusos sofridos. Ao contar para a família adotiva, encontrou resistência e falta de apoio, mas não queria desistir, por ela e pelas próximas meninas que cresciam na família.

– Comentei com a minha mãe de sangue sobre o que eu havia passado na infância. E ela falou para mim que o mesmo cara também a estuprou na infância. E aí eu fiquei muito brava. Ele tem duas filhas mulheres. Ele tem um filho homem e duas filhas mulheres. E aí eu e minha mãe resolvemos contar para as duas filhas dele. E quando a gente contou, a filha mais velha relatou que havia passado pelo mesmo com o pai dela. E que a mais nova não passou por isso, porque a mais velha protegia ela.

“Nós éramos ali quatro vítimas do mesmo cara, e ninguém havia falado nada. E o filho homem dele havia casado e tinha duas filhas, que eram crianças ainda. Eu percebi que todas as três se calaram, e eu fui a última vítima. Se eu me calasse, as duas netas dele seriam as próximas (vítimas) também.”

Ao postar um vídeo nas redes sociais, Debinha teve um apoio inesperado e necessário. Foi o pai biológico que a ajudou a levar o caso até a Justiça.

– Eu resolvi postar um vídeo no Instagram pedindo ajuda, socorro. Porque eu contei tudo para o pessoal da família e, como era no interior, abafou. Ficou só entre a gente e eu ia ter que dar um jeito de lidar com tudo aquilo. A minha mãe adotiva não sabia o que fazer, porque as filhas dela não queriam ver o pai atrás da grades. Eu denunciei, eu já estava com 17, 18 anos. E eu postei um vídeo na internet, pedindo ajuda e aí viralizou, muito rápido, chegou até o meu pai de sangue. Ele foi o único que se propôs a denunciar, a fazer o que era certo, porque ele era o único que não tinha sentimento nenhum pelo agressor, pelo cara que fez toda a maldade comigo na infância. Todo o processo acontecia enquanto eu ainda estava jogando. Então, foi uma fase bem conturbada, mas graças a Deus, eu tinha Deus e o esporte.

“O esporte não me deixava desistir.”

Após o julgamento, o agressor foi condenado a oito anos de prisão. A decisão judicial foi motivo de alívio para quem sofria agressões sexuais, mas também de rompimento com a família adotiva, que não entendia os motivos que fizeram a atleta denunciar e colocar o pai adotivo na prisão.

– Mesmo depois de tudo, eu não quis ter muito contato com o meu pai de sangue. Nem da minha parte, e acho que também nem da dele. Mas, com a minha família adotiva, eu tenho contato com a minha mãe adotiva e com a minha tia também, que é uma das filhas dela, que é a mais nova, que eu também amo muito.

“Eu fiquei três anos sem ter contato com eles, porque no tempo que eu denunciei, foi muito difícil para que eles pudessem me entender. Eles ficaram chateados e eu também fiquei, porque eu estava fazendo o que era certo. Então eu não achava justo, porque eu estava fazendo o que era certo e, ainda assim, me senti tão desamparada. Eu precisei de três anos para voltar a ter contato com eles. E para perdoar, assim, hoje em dia eu realmente perdoei e foi muita oração também, foi muito Deus na minha vida.”

Com a condenação, Debinha sentiu que o ciclo de agressões se encerrou e pôde, finalmente, se dedicar ao grande sonho da vida que é jogar futebol e viver apenas da sua profissão. Recém-chegada ao Atlético, a meia espera realizar sonhos materiais, como ter um lar, algo que nunca sentiu que tinha.

– Eu almejo muito isso, eu tenho muita vontade de conseguir tudo através do dom que Deus me deu, que é o esporte, que é jogar futebol. E todos os dias eu sabia o que eu tinha algo para fazer, todos os dias eu tinha treino, então era meio que uma motivação para eu continuar, para eu acordar todos os dias e ir lá e conquistar. E eu sempre quis muito para mim, eu sempre quis chegar em um lugar onde algum dia eu pudesse ter condições de poder comprar uma casa, de ter uma vida melhor. E eu tenho um dom e a paixão pelo esporte, e isso me motiva todos os dias. Quando eu estou no campo, parece que o mundo para, é só eu e uma bola. Eu esqueço tudo, todos os problemas.

O time mineiro tem ajudado a atleta a superar essa fase. Com o auxílio dos psicólogos do clube, Debinha tem tido suporte para poder desenvolver pessoal e profissionalmente.

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