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Redução de mortes por meningite não atingirá meta estimada pela OMS

Conforme aponta estudo, foram registradas 259 mil mortes pela doença e a meta de reduzir 70% dos óbitos não será cumprida até 2030

por Metrópoles
30/06/2026
em Saúde
Tempo de leitura: 5 minutos
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Kateryna Kon/Science Photo Library/Getty Images

Kateryna Kon/Science Photo Library/Getty Images

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O número de mortes por meningite no mundo está diminuindo, mas essa queda mascara uma má notícia: o ritmo é menor do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) projetava, e não há indícios de melhora nos próximos anos. Essa é a conclusão de um estudo publicado na edição de maio da revista The Lancet Neurology que analisou a carga global de meningite com dados de 2023, coletados por colaboradores do levantamento Global Burden of Disease Study (GBD).

A pesquisa avaliou 17 patógenos causadores da meningite, tornando-se a análise internacional mais abrangente já realizada sobre o tema. Os resultados mostram que as iniciativas de combate trouxeram resultados, mas que o ritmo de queda é insuficiente para que o mundo alcance as metas estabelecidas pela OMS para 2030. O objetivo é reduzir em 70% as mortes registradas em 2015, quando a doença causou cerca de 300 mil óbitos. O novo estudo revela, porém, que em 2023 foram computadas 259 mil mortes, ainda muito distante do número almejado.

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“A desaceleração que vemos hoje reflete uma estabilização no combate à doença após os ganhos iniciais da vacinação”, analisa o neurologista João Victor Luisi de Moura, do Einstein Hospital Israelita. “Hoje, o progresso é travado por uma série de fatores. Entre eles, está o avanço de sorotipos causadores da doença que não são cobertos pelos imunizantes, o aumento relativo de causas virais da meningite e desigualdades no acesso à vacinação globalmente, o que impede quedas mais rápidas.”

O que é a meningite?

A meningite ocorre quando as meninges, membranas que envolvem o cérebro, ficam inflamadas por consequência de infecções bacterianas ou virais. Ela é a principal causa infecciosa de deficiências neurológicas no planeta. O estudo do GBD revela que foram mais de 2,5 milhões de novos casos da doença no mundo em 2023, afetando com maior gravidade especialmente crianças menores de 5 anos. Essa faixa etária representou mais de um terço das mortes, somando 86,6 mil óbitos.

De modo geral, os pequenos são mais suscetíveis a casos graves e podem morrer muito rapidamente sem o tratamento adequado. Daí por que a vacinação precisa acontecer nos prazos recomendados pelas autoridades de saúde, com doses aos 3, 5 e 12 meses de vida. “A letalidade dessa doença depende de como o sistema imunológico do paciente responde à infecção e, às vezes, a resposta excessiva do próprio sistema imune das crianças também acaba comprometendo a saúde. Para o controle da mortalidade, é fundamental que o diagnóstico e o início do tratamento sejam feitos prontamente”, explica Moura.

A doença tem uma série de sintomas associados, como dor de cabeça e febre, mas o sinal mais característico é a rigidez no pescoço, uma dificuldade em encostar o queixo no peito, embora nem sempre presente. Os principais agentes causadores em 2023 foram as bactérias Streptococcus pneumoniae (conhecida como pneumococo) e Neisseria meningitidis (meningococo), além dos enterovírus não poliomielíticos (EVNP), como alguns dos causadores da doença mão-pé-boca.

O estudo identificou como principais fatores de risco para mortalidade por meningite o baixo peso ao nascer, a prematuridade e a poluição do ar domiciliar. As condições socioeconômicas também podem ser determinantes. “É na população de mais baixa renda que há menores coberturas vacinais e maior dificuldade no acesso a serviços de saúde que realizem o diagnóstico precoce e tratamento adequado. Ela acaba ampliando tanto a incidência quanto a mortalidade por meningite”, ressalta o neurologista.

A vacinação como papel-chave

A imunização é o principal instrumento de controle da meningite bacteriana. No entanto, a cobertura permanece desigual entre países. Nações da África Subsaariana, por exemplo, têm um histórico de pouca adesão nas campanhas, o que tornou a região conhecida como “cinturão da meningite”.

No Brasil, o calendário de imunização do Sistema Único de Saúde (SUS) contempla proteção contra as principais bactérias causadoras (pneumococo, meningococo e as do grupo Haemophilus). “É importante tomar todas as vacinas nas idades indicadas para adequada proteção. Um esquema vacinal completo, além de gerar imunidade para a pessoa, reduz a circulação dos patógenos em toda a população”, frisa o médico do Einstein.

Apesar da oferta em todo o território nacional, muitas vacinas que protegem contra a meningite seguem com a cobertura abaixo da meta. A vacina contra o menigococo, por exemplo, alcançou 90,7% do público-alvo em 2025, segundo o Ministério da Saúde. É o melhor número desde 2020, mas o objetivo era vacinar 95% da população na idade correta. Desde a pandemia de Covid-19, as vacinas que previnem a meningite não alcançam os índices ideais. “No Brasil, a incidência e mortalidade em 2025 foram semelhantes às de 2014, ou seja, não houve nem a redução moderada global”, observa João Victor de Moura.

No último dia 3 de junho, o Ministério da Saúde anunciou o início da vacinação no SUS com a pneumo 20. O imunizante protege contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, que além de meningite causa pneumonia. Entre os grupos prioritários para receber a nova vacina estão crianças menores de 5 anos, povos indígenas maiores de 5 anos de idade (sem histórico vacinal com pneumo conjugada), idosos com 60 anos ou mais acamados e/ou institucionalizados; e pessoas com condições clínicas específicas, atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).

E mesmo para quem faz a prevenção correta, é importante continuar de olho: há agentes causadores de meningite para os quais não existem vacinas disponíveis. O estreptococo do grupo B é um exemplo, e crianças com menos de 5 anos são especialmente vulneráveis a ele. O acompanhamento de saúde da gestante permite identificá-lo e fazer o tratamento com antibióticos para impedir a passagem de mãe para filho, principal via de contágio.

O uso de antibióticos, porém, só deve ser feito quando recomendado, já que representa uma ameaça adicional ao controle da meningite. “O uso indiscriminado de antibióticos, como para tratar infecções respiratórias e urinárias, favoreceu o surgimento de cepas resistentes de meningite. Isso reduz a eficácia dos tratamentos e aumenta o risco de complicações e morte”, pontua o neurologista. Daí o risco da automedicação. Diante de qualquer sinal de meningite, procure atendimento médico.

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