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Home Economia

Por que a decisão dos EUA sobre PCC e CV pode afetar PIX, bancos e empresas no Brasil

Especialistas avaliam que medida deve reforçar monitoramento de transações e elevar exigências de rastreamento de recursos por instituições financeiras.

por G1
29/05/2026
em Economia
Tempo de leitura: 6 minutos
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Foto: Freepik

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As facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) passam a ser consideradas organizações terroristas pelos Estados Unidos, em medida anunciada na quinta-feira (28) pelo governo de Donald Trump.

As duas já foram incluídas na lista de “Terroristas Globais Especialmente Designados” e, a partir de 5 de junho, também entrarão na de “Organizações Terroristas Estrangeiras”.

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Segundo especialistas ouvidos pelo g1, a medida não deve provocar impactos imediatos no comércio entre Brasil e EUA nem gerar barreiras comerciais diretas.

No entanto, a decisão mexe com o sistema financeiro, aumentando pressão sobre os bancos e empresas brasileiras para rastrear a origem do dinheiro e evitar a lavagem de recursos do crime organizado.

Abaixo, entenda os principais impactos da medida no Brasil.

PIX e bancos devem passar por fiscalização mais rígida

Segundo especialistas, o principal impacto da decisão dos EUA no Brasil deve ocorrer no sistema financeiro.

Na prática, instituições que tenham qualquer ligação — mesmo indireta — com recursos associados a esses grupos podem entrar no radar das autoridades dos EUA.

Diante desse cenário, bancos, fintechs, instituições de pagamento e cooperativas de crédito que operam em dólar ou mantêm relação com o mercado americano tendem a reforçar regras de identificação de clientes e rastreamento de transações, para reduzir o risco de sanções.

Como exemplo desse tipo de atuação, no ano passado o Tesouro dos EUA bloqueou transações envolvendo instituições financeiras do México suspeitas de ligação com lavagem de dinheiro para cartéis, em uma ação voltada ao combate ao narcotráfico e ao tráfico de fentanil.

Nesse cenário, o PIX também deve entrar ainda mais no radar das autoridades. Como o sistema movimenta bilhões de reais diariamente e permite transferências instantâneas, bancos e órgãos de fiscalização podem ampliar o monitoramento sobre operações consideradas suspeitas.

No Brasil, investigações da Polícia Federal já vêm mostrando como organizações criminosas usam contas digitais, empresas de fachada e transferências eletrônicas para ocultar a origem do dinheiro.

Nesta semana, por exemplo, a Operação Fluxo Oculto — desdobramento da Operação Carbono Oculto — apurou a atuação da chamada “máfia da nafta”, que utilizava “contas-bolsão”, onde recursos de diferentes clientes são misturados em uma única conta, dificultando o rastreamento das transações.

Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing, afirma que o rastreamento do dinheiro costuma ser uma das primeiras medidas adotadas em situações de combate ao crime organizado.

“O rastro do dinheiro é sempre a primeira linha de atuação em medidas desse tipo. O PIX naturalmente entra nesse monitoramento porque movimenta um volume enorme de transações diariamente”, afirma.

“Tivemos recentemente operações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro via PIX. Tudo isso agora pode entrar no escopo dessa nova classificação das facções.”

Sant’Anna lembra que o crescimento do PIX também já vinha sendo acompanhado de perto pelo mercado americano, principalmente porque o sistema brasileiro reduziu o espaço de empresas tradicionais de cartões e meios de pagamento dos EUA no Brasil.

O nó jurídico que preocupa investidores

Um dos principais pontos de atenção do mercado financeiro é a diferença entre as leis do Brasil e dos EUA. Enquanto os americanos passaram a classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, o Brasil ainda mantém o enquadramento como facções criminosas.

Esse descompasso entre os dois sistemas cria insegurança jurídica e aumenta a preocupação de investidores estrangeiros. Para Milene Dellatore, especialista em investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, o efeito mais sensível é reputacional.

“Investidor estrangeiro não gosta de ruído institucional. Quando o Brasil aparece associado a terrorismo, mesmo que o problema real seja crime organizado, isso cria um red flag [sinal de alerta]. Ele começa a olhar o país com mais cuidado, principalmente em setores financeiros, infraestrutura, logística, portos, combustíveis e empresas com operação internacional”, afirma.

Segundo especialistas, ao migrar para o campo do contraterrorismo e das sanções internacionais, o tema também aumenta o custo e a complexidade de fazer negócios.

Há ainda a preocupação de que empresas brasileiras com atuação global ou listadas no exterior fiquem mais sujeitas a investigações e a uma fiscalização mais rigorosa por parte dos órgãos reguladores. Setores com grande circulação de dinheiro, como combustíveis, logística e mercado imobiliário, tendem a enfrentar auditorias mais rigorosas.

Para Beny Fard, sócio da B8 Partners, o principal impacto é operacional e regulatório:

“A decisão muda menos o comércio entre os dois países e mais o custo de operar sob a lei americana”, afirma Fard. “A lei antiterrorismo dos EUA pode alcançar instituições que processem recursos ligados às facções mesmo sem conhecer a origem do dinheiro.”

Matheus Balbino, professor de relações internacionais do Centro Universitário Braz Cubas, afirma que a medida não gera automaticamente sanções ao Brasil, mas aumenta a pressão internacional sobre o país.

Segundo ele, o efeito mais provável no curto e médio prazo é o fortalecimento da cooperação entre países em áreas como inteligência financeira, combate à lavagem de dinheiro e rastreamento de recursos ilícitos.

Essa maior pressão, acrescenta, pode exigir mais integração entre bancos, fintechs, órgãos de fiscalização e autoridades financeiras.

“A tendência é de fortalecimento dos mecanismos de rastreamento de recursos, especialmente em operações internacionais, criptomoedas, empresas de fachada e movimentações financeiras consideradas atípicas”, afirma.

Nesse cenário, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), responsável por identificar movimentações financeiras atípicas, produzir relatórios de inteligência e cooperar com autoridades nacionais e internacionais, deve ganhar ainda mais relevância no monitoramento de operações suspeitas.

Balbino também cita o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI/FATF), organismo criado pelo G7 e responsável por definir padrões globais de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Impactos na bolsa e no dólar

A mudança na percepção de risco do investidor estrangeiro ainda não indica impacto relevante na economia brasileira como um todo. No curto prazo, porém, o efeito mais provável é uma pressão de alta no dólar em relação ao real.

Isso acontece porque, em momentos de incerteza, investidores passam a enxergar o país como um ambiente mais arriscado para aplicações financeiras.

Na prática, esse cenário tende a aumentar a volatilidade do dólar e da bolsa. E o mercado já reage com cautela e segue avaliando os desdobramentos da decisão.

Segundo Felipe Sant’Anna, nesse cenário de cautela, investidores estão reduzindo posições principalmente em ações de bancos e varejo, setores mais sensíveis ao aumento da incerteza.

A queda da bolsa brasileira não começou agora. O mercado já vinha em baixa há semanas e pode fechar a sétima semana consecutiva de recuo, segundo analistas.

Nesta semana, o Ibovespa acumula queda de 0,64% até quinta-feira e recuo de 6,53% no mês. Além da decisão dos EUA, o cenário também reflete incertezas globais, como as tensões no Oriente Médio.

Em momentos como esse, investidores costumam vender primeiro ações que já tinham subido mais ou que são mais sensíveis à economia. Por isso, a queda acaba sendo mais forte em empresas menores e em setores mais ligados ao ciclo econômico, o que mostra aumento da aversão ao risco na bolsa brasileira.

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