A morte da maquiadora Roseli Fernandes, de 48 anos, após um procedimento estético realizado em uma sala comercial na região do Brooklin, zona sul de São Paulo, reacendeu o debate sobre os riscos do uso do polimetilmetacrilato (PMMA) em preenchimentos corporais.
Segundo o boletim de ocorrência, a mulher passou mal depois da aplicação da substância nos glúteos e na parte posterior das coxas, na segunda-feira (25/5). O caso é investigado pela Polícia Civil como morte suspeita.
De acordo com informações divulgadas pelas autoridades, a vítima sofreu uma parada cardiorrespiratória durante o atendimento. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu. A clínica onde o procedimento foi realizado também passou a ser alvo de apuração.
A repercussão do caso trouxe novamente à tona uma substância conhecida no universo dos procedimentos estéticos, mas que ainda gera dúvidas e preocupações entre pacientes e especialistas.
O que é o PMMA
O PMMA, sigla para polimetilmetacrilato, é um material sintético utilizado como preenchedor definitivo. Diferentemente do ácido hialurônico, por exemplo, ele não é absorvido pelo organismo com o passar do tempo.
A substância pode ser usada em algumas situações médicas específicas, como correção de deformidades, lipoatrofias, assimetrias corporais e reconstruções. Também vem sendo aplicada para aumento de determinadas regiões do corpo, como glúteos, peitoral e ombros.
O dermatologista Flégon David, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que o produto possui alta capacidade de volumização e efeito permanente.
“A grande vantagem do PMMA é ser um preenchedor permanente, com alta capacidade de volumização, especialmente na concentração de 30% usada para bioplastia corporal”, afirma o especialista.
Apesar de autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o uso do PMMA exige critérios rigorosos. Em nota técnica publicada em 2025, a agência manteve a autorização da substância para procedimentos médicos, mas reforçou que a aplicação deve ser feita por profissionais habilitados, em ambiente adequado e após avaliação clínica detalhada.
O que pode acontecer no organismo
Embora possa trazer resultados estéticos permanentes, o PMMA também está associado a complicações potencialmente graves. Flégon reforça que quando utilizado de forma inadequada, o produto pode provocar infecções, rejeições, inflamações, formação de nódulos e até necrose dos tecidos.
O cirurgião plástico Fernando Amato, de São Paulo, explica que por ser uma substância definitiva e estranha ao organismo, o PMMA pode desencadear reações inflamatórias persistentes.
“Os preenchedores definitivos, como é o caso do PMMA, por serem substâncias estranhas ao corpo, podem causar formação de biofilme e inflamação local crônica, além de aumentar a possibilidade de infecção”, afirma o médico.
Segundo o cirurgião plástico, alguns pacientes também podem desenvolver um processo inflamatório granulomatoso — reação em que o organismo tenta isolar o produto aplicado. Em determinados casos, o quadro pode afetar o metabolismo do cálcio no corpo.
“Esse aumento do cálcio pode interferir no funcionamento adequado dos rins, com formação de cálculos, podendo evoluir até para a insuficiência renal”, alerta.
Ele destaca também que pessoas submetidas ao preenchimento precisam informar ao médico todas as substâncias utilizadas, incluindo suplementos vitamínicos.
Produto exige avaliação individual
Os médicos ressaltam que nem todas as pessoas podem realizar procedimentos com PMMA. Pacientes com doenças reumatológicas em atividade, como lúpus eritematoso sistêmico, por exemplo, devem evitar a aplicação.
Outro ponto considerado essencial é o pós-operatório. Em aplicações nos glúteos, por exemplo, pode ser necessário evitar pressão direta sobre a região durante o período de recuperação, além do uso correto de medicamentos prescritos para prevenir infecções e inflamações.
Segurança depende de ambiente adequado
Especialistas reforçam que o principal cuidado é garantir que o procedimento seja realizado em clínicas regularizadas, com estrutura adequada e profissionais habilitados para lidar tanto com a aplicação quanto com possíveis emergências. Além disso, o produto não deve ser tratado como um procedimento simples ou isento de riscos.
A orientação é que pacientes busquem informações sobre a clínica, confirmem a qualificação do profissional responsável e realizem avaliação médica completa antes de qualquer intervenção estética definitiva.







