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Home Economia

IBGE: Fome atinge 6,48 milhões de pessoas no Brasil, menor nível em 20 anos

por G1
11/10/2025
em Economia
Tempo de leitura: 7 minutos
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Fome no Brasil — Foto: Reprodução / TV Globo

Fome no Brasil — Foto: Reprodução / TV Globo

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O número de pessoas que vivem em lares com insegurança alimentar grave — ou seja, que enfrentam a fome diariamente — caiu 23,5% em 2024. Em termos absolutos, dois milhões de brasileiros deixaram a fome em apenas um ano, passando de 8,47 milhões em 2023 para 6,48 milhões em 2024.

Os dados fazem parte do levantamento sobre Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgado nesta sexta-feira (10) pelo IBGE, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

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Segundo Maria Lúcia Vieira, pesquisadora do IBGE, a insegurança alimentar moderada ou grave chegou ao menor nível desde 2004, quando teve início o levantamento. (leia mais abaixo)

  • 🔎 O IBGE define insegurança alimentar grave como a situação em que há falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos, incluindo crianças e adolescentes, transformando a fome em uma experiência vivida no domicílio.

O cenário atingiu cerca de 2,5 milhões de famílias, segundo o IBGE. Essa foi a primeira pesquisa oficial sobre insegurança alimentar desde a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017/2018 — ou seja, desde antes da pandemia de Covid-19.

Quando considerada a insegurança alimentar moderada — caracterizada pela falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos entre adultos — o número de pessoas afetadas caiu para 9,795 milhões em 2024, ante 11,662 milhões em 2023.

Embora a fome tenha diminuído, 18,9 milhões de famílias ainda enfrentam algum grau de insegurança alimentar — número que representa uma redução de 2,2 milhões de lares em relação a 2023.

Proporcionalmente, a parcela de domicílios nessa condição caiu de 27,6% para 24,2%, mostrando que quase um em cada quatro lares ainda vive com insegurança alimentar. Em contrapartida, a proporção de domicílios em segurança alimentar aumentou de 72,4% para 75,8%.

Proporção é maior no Norte e Nordeste

As regiões com mais domicílios em insegurança alimentar são o Norte (37,7%) e o Nordeste (34,8%), sendo que o nível mais grave chegou a 6,3% e 4,8%, respectivamente. Nas outras regiões, os índices foram menores: 20,5% no Centro-Oeste, 19,6% no Sudeste e 13,5% no Sul.

No Norte, a proporção de domicílios em situação grave foi quase quatro vezes maior que no Sul, que tem a menor taxa (1,7%).

Em números absolutos, o Nordeste tem mais domicílios afetados (7,2 milhões), seguido pelo Sudeste (6,6 milhões), Norte (2,2 milhões), Sul (1,6 milhão) e Centro-Oeste (1,3 milhão).

Entre 2023 e 2024, a maioria dos estados apresentou melhora na insegurança alimentar, com exceção de Roraima, Distrito Federal, Amapá e Tocantins, que registraram aumento. Nove estados tiveram menos de 20% dos domicílios nessa situação, incluindo Santa Catarina e Espírito Santo.

Os estados com mais domicílios em insegurança alimentar são Pará (44,6%), Roraima (43,6%), Amazonas (38,9%), Bahia (37,8%) e Pernambuco (35,3%). No nível grave, os mais afetados foram Amapá (9,3%), Amazonas (7,2%) e Pará (7,0%).

A insegurança alimentar é mais comum em áreas rurais (31,3%) do que urbanas (23,2%), e o nível grave atinge 4,6% dos domicílios rurais contra 3,0% dos urbanos.

Mulheres, negros e pardos lideram domicílios com insegurança alimentar

Em lares com insegurança alimentar, as mulheres respondiam por 59,9%, enquanto os homens eram 40,1%, sendo a diferença mais marcada no nível moderado (61,9% feminino ante 38,1% masculino).

A desigualdade também se manifesta por cor e raça: entre os domicílios inseguros do ponto de vista alimentar, 28,5% tinham responsáveis brancos, 54,7% pardos e 15,7% pretos. No caso da insegurança alimentar grave, os pardos representavam 56,9%, mais que o dobro dos brancos (24,4%).

Entre os domicílios em segurança alimentar, a maior parte tinha responsáveis brancos (45,7%), seguida de pardos (42,0%) e pretos (11,1%).

O nível de instrução do responsável impactou a insegurança alimentar em 2024: 51,5% dos domicílios inseguros tinham responsáveis com ensino fundamental completo ou menos, chegando a 65,7% nos casos graves, enquanto nos domicílios em segurança alimentar esse percentual era de 35,1%.

Quanto às ocupações, em domicílios com insegurança alimentar, 17% trabalhavam por conta própria, 8,6% eram empregados sem carteira e 6,5% trabalhadores domésticos.

Entre os seguros, 23,4% tinham empregados com carteira, o maior grupo, enquanto sem carteira e trabalhadores domésticos representavam 6,6% e 3,4%, respectivamente.

Menor renda e mais jovens

A insegurança alimentar grave atingiu mais crianças e adolescentes: 3,3% da população de 0 a 4 anos e 3,8% dos 5 a 17 anos, contra 2,3% entre pessoas com 65 anos ou mais.

Quanto ao tamanho dos domicílios, a maioria dos lares com insegurança alimentar tinha até 3 moradores (69,8%), enquanto domicílios graves concentravam 76,1% nessa faixa. Nos domicílios com segurança alimentar, 75,7% tinham até 3 moradores.

A renda per capita (soma de toda a renda de uma família ou população dividida pelo número de integrantes) também influenciou a vulnerabilidade: dois em cada três domicílios com até um salário mínimo estavam em insegurança alimentar.

As classes de menor rendimento — até um quarto de salário mínimo, até meio salário e 1 salário mínimo — concentraram 66,1% dos lares inseguros, apesar de representarem apenas 1% do total de domicílios, respondendo por 71,9% dos casos moderados ou graves.

Em contraste, domicílios com mais de 2 salários mínimos representaram 7,4% dos casos, apesar de serem 24,4% do total de lares.

A concentração de insegurança alimentar também é maior em áreas rurais, onde 82,2% dos lares com insegurança moderada ou grave pertencem às três menores classes de rendimento, evidenciando a forte relação entre baixa renda e vulnerabilidade alimentar.

Insegurança alimentar grave, moderada ou leve?

A pesquisa do IBGE utiliza a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), que classifica os domicílios em quatro categorias, de acordo com a falta ou acesso pleno e regular de seus moradores a alimentos de qualidade nutricional. São elas: segurança alimentar, insegurança alimentar leve, insegurança alimentar moderada e insegurança alimentar grave.

A pesquisa classifica a insegurança alimentar em três níveis:

  • Insegurança alimentar leve: preocupação ou incerteza quanto ao acesso a alimentos e redução da qualidade para não afetar a quantidade;
  • Insegurança alimentar moderada: falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos entre adultos;
  • Insegurança alimentar grave: falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos também entre menores de 18 anos. Nessa situação, a fome passa a ser uma experiência vivida no domicílio.

A segurança alimentar é classificada como o direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais.

ONU retira Brasil do Mapa da Fome

A pesquisa do IBGE confirma as tendências apontadas pela FAO, agência da Organização das Nações Uunidas (ONU) especializada em alimentação e agricultura, que em agosto deste ano retirou o Brasil do Mapa da Fome. O cálculo é feito por triênios – e a melhora reflete a média de 2022 – último ano do governo de Jair Bolsonaro – e 2023 e 2024 – durante o governo Lula.

O dado consta no relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025”, divulgado durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU, em Adis Abeba, na Etiópia.

O documento revelou que menos de 2,5% da população brasileira está em risco de subnutrição, o que faz com que o país deixe a lista de nações com insegurança alimentar grave — posição que havia voltado a ocupar em 2022.

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