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Home Saúde

Cólica menstrual intensa na adolescência eleva risco de dor crônica

por Metrópoles
04/12/2025
em Saúde
Tempo de leitura: 5 minutos
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Foto: Martin-dm/ Getty Images

Foto: Martin-dm/ Getty Images

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Para muitas adolescentes, a cólica menstrual é um incômodo aceito como “normal”. Mas um novo estudo, realizado por pesquisadores britânicos e brasileiros, mostra que jovens que sofrem com essa dor de forma intensa e repetida têm maior risco de desenvolver dor crônica na vida adulta, mesmo fora do período menstrual e em qualquer parte do corpo.

O trabalho, publicado em novembro na revista The Lancet Child & Adolescent Health, acompanhou por cerca de 12 anos 1.157 meninas, analisadas desde o nascimento pelo estudo Avon Longitudinal Study of Parents and Children (ALSPAC), conduzido no Reino Unido.

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Aos 15 anos, as participantes relataram a intensidade da dor menstrual (classificada em leve, moderada ou severa) e, aos 26 anos, informaram se sentiam dores persistentes por mais de três meses, critério usado pelos pesquisadores para definir dor crônica. A investigação excluiu aquelas que já tinham dores crônicas antes da menarca.

Os resultados mostram que 84% das mulheres relataram algum tipo de dor menstrual na adolescência. Dessas, mais da metade (59%) sentia cólicas moderadas ou fortes aos 15 anos. Onze anos depois, 26,5% das participantes afirmaram ter algum tipo de dor crônica persistente. Entre as que nunca haviam sentido dor menstrual, 17% apresentaram esse incômodo frequente aos 26 anos; o índice foi de 30% entre as que relataram dor moderada e chegou a 33,5% nas que tinham cólicas intensas.

As adolescentes que sentiram dor moderada a intensa tinham 76% mais risco de ter dor crônica em fases posteriores da vida. As dores mais frequentes foram nas costas, na cabeça e no abdômen, mas também houve associação com incômodos nas articulações e pernas.

“Durante muito tempo se achou que a dor menstrual era um fenômeno hormonal e limitado ao útero. Hoje sabemos que, em muitas mulheres, ela representa uma alteração mais ampla nos mecanismos de percepção e controle da dor, envolvendo o sistema nervoso central”, observa o ginecologista e obstetra Omero Benedicto Poli Netto, coordenador do Centro de Dor Pélvica Crônica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto e um dos autores do estudo.

A cólica menstrual, tecnicamente chamada de dismenorreia, ocorre por conta das contrações uterinas que ajudam a eliminar o sangue menstrual. “Essas contrações são mediadas pela liberação de prostaglandinas, substâncias inflamatórias que causam dor. Quando são muito intensas, reduzem o fluxo de oxigênio nas fibras musculares do útero e isso aumenta a sensação dolorosa”, explica a ginecologista Renata Bonaccorso Lamego, do Einstein Hospital Israelita.

Imagem colorida de mulher com cólic abraçando travesseiro
Alimentos anti-inflamatórios podem ajudar contra cólicas

Segundo Poli Netto, uma das hipóteses para explicar essa associação entre cólica intensa e dor crônica é que, em algumas mulheres, o sistema nervoso passa por alterações na forma como processa a dor, desenvolvendo uma espécie de “memória dolorosa”. Esse fenômeno, conhecido como sensibilização central, faz com que o cérebro se torne hipersensível e reaja de maneira exagerada a outros estímulos dolorosos.

“É como se o sistema nervoso fosse treinado a responder de forma amplificada à dor. Com o tempo, isso pode favorecer o surgimento de outras condições, como dor nas costas, cefaleia ou dor pélvica crônica”, diz.

O estudo também constatou que ansiedade e depressão podem estar presentes. “A dor crônica pode estar associada ao desenvolvimento de sintomas depressivos e ansiosos, mas pessoas com histórico de ansiedade e depressão também são mais vulneráveis a desenvolver dor. É um círculo vicioso”, pontua o pesquisador da USP.

Fatores genéticos e individuais também podem explicar por que algumas adolescentes sentem cólicas intensas, enquanto outras quase não têm sintomas. “Há uma predisposição biológica, mas ainda não é possível afirmar com precisão por que algumas meninas sentem mais dor que outras”, analisa a médica do Einstein.

Como lidar com a cólica

Nenhuma dor deve ser considerada normal. “O que é aceitável é um desconforto leve que melhora com analgésicos simples, como dipirona ou ibuprofeno. Se a dor interrompe a rotina, causa faltas na escola ou no trabalho, ou não melhora com remédios comuns, já merece investigação”, alerta Lamego. “Hoje conseguimos diagnosticar condições como endometriose cada vez mais cedo, graças aos avanços dos exames de imagem”.

Entre as estratégias de manejo da cólica menstrual, Poli Netto destaca que o uso correto de anticoncepcionais hormonais também pode ajudar a reduzir a dor e evitar que ela se torne crônica. Além das terapias farmacológicas, há medidas não medicamentosas também eficazes: atividade física regular, sono adequado e alimentação equilibrada melhoram a qualidade de vida e ajudam no controle da dor.

Outra opção para aliviar as cólicas é utilizar bolsa de água quente, que ajuda a promover vasodilatação e relaxamento muscular. Mais recentemente, o uso do ácido tranexâmico, que reduz o fluxo menstrual, também tem sido uma alternativa utilizada.

Para Poli Netto, os resultados da pesquisa reforçam a importância de políticas públicas voltadas à educação menstrual e à saúde reprodutiva na adolescência. Ele defende uma abordagem mais ampla, que envolva não só medicamentos, mas o cuidado com o corpo e o bem-estar emocional.

“A atividade física tem múltiplos efeitos que ajudam a modular a resposta à dor. Já o engajamento social e emocional reduz a percepção negativa do sintoma e melhora o bem-estar geral”, conclui.

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