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Brasil 70: série da Netflix sobre Copa retrata situação política tensa

A série “Brasil 70: A Saga do Tri” retomou o debate sobre a influência do regime militar na Seleção Brasileira durante a campanha de 1970

por Metrópoles
06/06/2026
em Brasil
Tempo de leitura: 5 minutos
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Alessandro Sabattini/Getty Images

Alessandro Sabattini/Getty Images

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Uma das séries mais assistidas do país nessa última semana, a obra “Brasil 70: A Saga do Tri”, da Netflix, conta a trajetória da Seleção Brasileira até o tricampeonato mundial no México em 1970. Para além do campo e bola, a minissérie retrata a situação política vivida à época com a ditadura militar e sua influência na Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Técnico na campanha que classificou o Brasil para o mundial de 1970, o jornalista João Saldanha foi um dos grandes personagens do país durante o período, tanto no âmbito futebolístico quanto político. Conhecido como “João sem medo”, Saldanha era abertamente comunista e “peitou” em diversas oportunidades o presidente da CBD, João Havelange, e o presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici.

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Em entrevista ao Roda Viva, em 1987, João Saldanha esclareceu que a CBD tinha um objetivo durante o regime militar, “atender o homem”. O homem a que Saldanha se refere é o general Emílio Médici, que constantemente dava seus pitacos na escalação da amarelinha.

Durante a campanha das eliminatórias de 1969, Saldanha foi questionado sobre o pedido de Médici para a convocação do atacante Dadá Maravilha.

“Eu e o presidente temos muitas coisas em comum. Somos gaúchos, somos gremistas, gostamos de futebol. Nem eu escalo ministério e nem o presidente escala time. Você está vendo que nós nos entendemos muito bem”, disse o técnico da Seleção em resposta ao presidente do Brasil na época.


Saldanha 100%

O técnico João Saldanha foi demitido após fazer uma campanha invicta nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970. Confira resutados:

  • Colômbia 0 x 2 Brasil – 06/08/1969 (Bogotá);
  • Venezuela 0 x 5 Brasil – 10/08/1969 (Caracas);
  • Paraguai 0 x 3 Brasil – 17/08/1969 (Assunção);
  • Brasil 6 x 2 Colômbia – 21/08/1969 (Rio de Janeiro);
  • Brasil 6 x 0 Venezuela – 24/08/1969 (Rio de Janeiro);
  • Brasil 1 x 0 Paraguai – 31/08/1969 (Rio de Janeiro).

Com tantos conflitos políticos e a questão Dadá Maravilha pendente, Saldanha foi demitido do cargo de técnico da canarinho há pouco menos de três meses para a Copa do Mundo no México. Quem assumiu o lugar foi Mário Jorge Lobo Zagallo, o Zagallo.

“João Sem Medo”

Para o professor de história, Rafael Nascimento, a recusa na convocação de Dadá Maravilha não foi o estopim para a demissão de Saldanha, mas sim todo o contexto envolvido na época. O historiador detalha que o estilo combativo do “João Sem Medo” causou atritos durante o tempo.

“Antes de ser técnico da seleção, ele era jornalista, ele era militante comunista, inclusive ex-integrante do Partidão, que é o Partido Comunista do Brasil. É, e o fato de ter uma projeção nacional, lhe conferia uma grande visibilidade, rara em um período de regime autoritário. De certa forma, podemos dizer que ele pode sim ter exercido essa influência, sobretudo nesse poder simbólico que ele representou”, explica Nascimento.

Sobre a demissão de Saldanha, o professor de história da Universidade de Brasília (UnB), Mateus Gamba Torres tem a mesma visão, argumentando o episódio envolvendo a recusa na convocação de Dadá Maravilha serviu apenas como pretexto, já que o verdadeiro incômodo da ditadura eram as denúncias de tortura feitas por Saldanha à imprensa internacional.

“O fato de ele ser filiado ao Partido Comunista não é o problema, eu acho que o problema principal foi o fato de ele realmente denunciar os crimes da ditadura do lado de fora”, pontua.

“Eu levei pro México uma pilha de documentos de 3.000 e poucos presos, 300 e tantos mortos e não sei quantos torturados”, disse Saldanha no Roda Viva ao explicar as denúncias feitas durante o período como técnico do Brasil.

A série coloca na tela o clima que o Brasil vivia à época, ainda que grande parte da população vivesse alheia a isso.

Pelé

Considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, o Pelé evitava se posicionar politicamente. No entanto, como é retratado na série, o camisa 10 do Brasil foi usado durante a Copa de 1970 como um “garoto-propaganda” pelo regime militar. Para Torres, o regime capitalizou em cima da campanha histórica da canarinho no mundial.

“Existia essa máquina de propaganda, um projeto estruturado, tudo isso existia, uma capitalização oportunista desse talento dessa geração. Então, existia um projeto estruturado, mas esse projeto estruturado não era da ditadura não. É como o Saldanha fala na saga, ‘a seleção ganhou apesar da ditadura, não por causa dela’”, frisou Torres.

Regime

Na série, é relatada uma enorme presença dos militares na concentração da Seleção Brasileira no México. O historiador Rafael Nascimento detalha que o governo infiltrou oficiais em funções administrativas, logísticas e médicas da delegação para controlar a imagem pública e blindar o grupo de informações externas.

Ainda assim, o elenco, formado por atletas de diferentes origens sociais e visões políticas, percebia o cerco.

“Vários depoimentos posteriores indicam que os atletas tinham, sim, uma certa consciência de que estavam sendo observados e de que suas declarações estavam sendo manipuladas”, destaca Nascimento.

Nesse cenário de pressão, a figura de Pelé tornou-se o principal ativo para a máquina de propaganda militar. Nascimento avalia que o camisa 10 buscava adotar uma postura de neutralidade política pública, o que acabou sendo capitalizado pelo governo para transmitir ao exterior a imagem de um país vencedor e harmonioso.

“O governo vai se utilizar das imagens, das entrevistas, das reportagens justamente para reforçar as suas narrativas”, explica o professor.

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