Segmentos do agronegócio que exportam para os Estados Unidos mantêm a expectativa de que o governo brasileiro consiga negociar a prorrogação por 90 dias da entrada em vigor da sobretaxa de 50% e evitar impactos de até US$ 5,8 bilhões por ano nas vendas aos americanos a partir da próxima sexta-feira (1/8), data em que o presidente Donald Trump prometeu implementar o tarifaço ao Brasil.
Lideranças do setor produtivo retornam a Brasília na próxima semana para reuniões pontuais com o governo federal em busca de saídas para o tarifaço. Alguns segmentos vão apresentar pleitos para serem incluídos no plano de contingência que a equipe econômica deve validar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos próximos dias.
Os frigoríficos de carne bovina devem sugerir uma flexibilização normativa para acesso a financiamentos diretos no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para capital de giro e estocagem dos produtos congelados. A regra atual impede a concessão de crédito para os abatedouros que não fazem a rastreabilidade completa dos animais abatidos, inclusive dos fornecedores indiretos.
A alegação do segmento é que agora existe um programa federal de rastreabilidade bovina individual, com prazos definidos, e que a exigência só poderia valer após a implementação total do plano. A trava do BNDES existe desde 2009 e é considerada de difícil cumprimento, mesmo por grandes frigoríficos, por conta da movimentação dos animais entre várias fazendas ao longo da vida.
Uma fonte que transita em Brasília avaliou que para as indústrias de suco de laranja, por exemplo, o financiamento para compra ou estocagem de produtos não elimina as dificuldades do momento, pois ter matéria-prima sem o mercado americano para comprá-lo não resolve o problema. Para algumas empresas, o mais interessante seria a rolagem de impostos, ponderou. Empresas têm tentado avançar nesse tema com o governo de São Paulo.
A indústria da carne bovina também tem tentado, no âmbito dos governos estaduais, a liberação de créditos presumidos já acumulados de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
Uma liderança disse que os frigoríficos não deverão ser prioridade no plano de contingência, diante do aperto fiscal da União e dos impactos mais fortes que as tarifas vão causar em outros setores, que não conseguirão redirecionar cargas. Para essa fonte, pesa a favor o olhar do Executivo para uma eventual redução de preços da carne bovina no mercado interno, o que, em tese, poderia reduzir a pressão inflacionária e melhorar a popularidade do governo.
A indústria de pescados foi procurada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para informar a relação das empresas afetadas pelo tarifaço e o pleito financeiro para ajuda do governo federal. A entidade avalia a necessidade de R$ 900 milhões em crédito para capital de giro, mas não ainda não teve martelo batido.
Produtores e exportadores de frutas ainda aguardam a confirmação do tarifaço para enviar ao governo um documento com propostas do setor e a indicação de ações que possam minimizar os impactos da medida dos EUA. A prorrogação de linhas de crédito estará entre os pedidos.
Procurado, o MIDIC disse que desde o anúncio da possível imposição de tarifas ao Brasil, o Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais tem se reunido com representes de todos os setores produtivos potencialmente afetados pela medida. “Foram 21 reuniões envolvendo 111 empresas/entidades, com 177 representantes empresariais, do Brasil e dos EUA. O Comitê está recolhendo diagnósticos e propostas, no intuito de encaminhar as melhores soluções, caso haja necessidade”, informou.
Os empresários do agronegócio brasileiro também aguardam notícias das contrapartes americanas. Importadores de café nos EUA tentam tirar o produto do alvo das tarifas. “Se a tarifa permanecer sobre o Brasil, não sei se sobreviveremos”, disse Alyza Bohbot, CEO da Alakef Coffee Roasters, em Duluth, Minnesota, em material publicado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos (US Chamber of Commerce).
A Câmara de Comércio dos EUA deve promover um seminário nos dias 6 e 7 de agosto para discutir a situação com a participação de executivos e autoridades de “médio escalão” dos dois países, disse uma fonte. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, disse na sexta-feira (25/7) que está organizando uma missão empresarial aos EUA.