No primeiro dia do 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM 2026), que começou nessa quarta-feira (26/8) no Rio de Janeiro, o endocrinologista Marcello Bertoluci afirmou que as famosas canetas emagrecedoras, aliadas a medicamentos que diminuem o trabalho do coração, podem ajudar na prevenção da insuficiência cardíaca.
O coordenador da diretriz nacional voltada ao tratamento da obesidade e à prevenção de doenças do coração explica que, de acordo com novas evidências clínicas, a visão tradicional de que a insuficiência cardíaca surge apenas após um infarto tem mudado.
Pacientes com obesidade podem desenvolver a condição sem necessariamente passar por um evento isquêmico prévio, como um ataque isquêmico transitório (AIT) ou um acidente vascular cerebral (AVC).
Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apontam que 41% das pessoas com obesidade morrem de doenças cardiovasculares — proporção que se mantém estável há cerca de 20 anos. Embora o infarto responda por mais de 50% desses óbitos, a insuficiência cardíaca já representa cerca de 10% das mortes e vem ganhando destaque com o avanço da obesidade.Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência
Bertoluci reforça que o foco atual das diretrizes é a prevenção. Segundo ele, já foi comprovado que o uso de medicamentos agonistas de GLP-1 (semaglutida e tirzepatida) e os inibidores do SGLT2 (como dapagliflozina e empagliflozina) é capaz de reduzir o risco de morte cardiovascular.
“A perda de peso, embora fundamental, não é suficiente isoladamente para deter a progressão da doença. O manejo atual combina a redução ponderal com a introdução de novas classes terapêuticas: de um lado, os agonistas de GLP-1; de outro, os inibidores de SGLT2, indicados para conter a evolução do dano cardíaco”, explica.
Para pacientes com obesidade, a introdução de agonistas do receptor de GLP-1 proporciona uma redução média de 14% na incidência de eventos cardiovasculares maiores e na mortalidade.
Estudos observacionais e ensaios clínicos demonstraram também que o tratamento com medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida apresenta benefício contra as condições.
Rastreamento de perfil de risco
De acordo com Bertoluci, o diagnóstico da insuficiência cardíaca é baseado nos sintomas e em exames como o ecocardiograma e o NT-proBNP, que mede a presença de um fragmento proteico liberado pelo coração quando o órgão está sob forte estresse ou sobrecarga.
No entanto, em quadros de obesidade, os sinais costumam ser pouco específicos, manifestando-se apenas como fadiga ou cansaço leve, o que atrasa o reconhecimento da condição.
Para antecipar o diagnóstico, a recomendação é realizar o rastreamento direcionado em grupos considerados de alto e moderado risco. O protocolo de monitoramento inclui pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) maior que 40, mesmo sem histórico ou diagnóstico de outras doenças; pacientes com IMC acima de 35 associado a diabetes ou hipertensão em pessoas com mais de 60 anos; e indivíduos com diagnóstico de condições como apneia do sono grave associada à obesidade, fibrilação atrial ou histórico prévio de infarto.
“O acúmulo disfuncional de gordura e o estresse oxidativo geram danos residuais em órgãos como coração, rins, fígado e pâncreas, consolidando o conceito da síndrome cardiorrenal metabólica. O avanço desse processo inflamatório leva ao aparecimento de biomarcadores e lesões que podem evoluir para etapas terminais, como infarto, diálise ou insuficiência cardíaca grave. Diante disso, as novas diretrizes recomendam que todo paciente adulto com sobrepeso ou obesidade passe por uma avaliação de risco cardiovascular”, acrescenta.
Dados de acompanhamento de pacientes evidenciam que terapias combinadas podem reduzir consideravelmente as taxas de hospitalização por insuficiência cardíaca e a mortalidade cardiovascular em pacientes com diabetes e doença coronariana.
Por fim, o endocrinologista esclarece que o manejo clínico recomendado inclui mudanças no estilo de vida visando uma perda ponderal de ao menos 10% do peso, combinadas ao uso precoce de agonistas de GLP-1/GIP e inibidores de SGLT2 em pacientes com IMC a partir de 27.
O uso dessas terapias farmacológicas integradas pode ser orientado de acordo com o risco individual, a presença de diabetes e a aplicação de ferramentas clínicas para prevenir o avanço do dano cardiovascular e renal.
O repórter viajou para acompanhar o evento à convite da Eli Lilly.







