A diferença entre o que o produtor de cacau recebe no Brasil e o preço da commodity na bolsa de Nova York está começando a diminuir com os sinais de uma recuperação da demanda pela amêndoa. Atualmente essa diferença, chamada de “basis” no jargão do mercado, está negativa, mas já esteve em patamares piores entre o fim de 2025 e início de 2026.
Para analistas, a “normalização” dos preços do cacau pode incentivar o processamento da amêndoa, e não está descartada uma inversão no mercado nacional. Isto é, os preços locais deixarem de ter desconto, voltando a registrar prêmio sobre as cotações internacionais.
Hoje, o valor recebido pelo produtor brasileiro tem um deságio de US$ 1.000 em relação aos preços na bolsa de Nova York, segundo a StoneX. Para Lucas Bezzon, analista de cacau da consultoria, esse desconto deve se reduzir à medida que a moagem ganhe força novamente. Mas isso depende de a manteiga de cacau voltar a patamares competitivos em relação a seus substitutos, como gordura vegetal e derivados de palma.
“Como o preço [em Nova York] caiu para cerca de US$ 4.000, existe incentivo para a volta do processamento. Voltamos ao patamar de normalidade”, afirma Bezzon. Ou seja, quanto mais tempo a manteiga se mantiver com preços atrativos para a indústria de chocolates, mais a indústria moageira voltará a processar amêndoas. Se esse cenário se confirmar, as compras de cacau no país devem ganhar fôlego, e até reverterem o “basis” de negativo para positivo, disse.
Historicamente, o cacau brasileiro é negociado com ágio de US$ 134 por tonelada sobre o preço da bolsa de Nova York. Isso ocorre porque o Brasil é deficitário no cacau. “Com escassez de amêndoas, há necessidade de importação e o produtor consegue cobrar mais pelo seu produto”, resume Leonardo Rossetti, analista da StoneX. O contrário acontece com soja e café — culturas em que o Brasil é superavitário — , cujo “basis” é predominantemente negativo.
O ambiente de inversão recente do “basis”, de positivo para negativo, teve origem na disparada da commodity na bolsa de Nova York há dois anos. O pico foi em dezembro de 2024, quando ficou acima de US$ 12 mil por tonelada.
Isso teve como consequência uma redução na demanda por derivados de cacau nos meses seguintes. E esse recuo derrubou os preços da commodity, segundo estudo da StoneX sobre o comportamento do “basis” nos últimos anos, feito sob encomenda da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
De 2023 até hoje, os diferenciais oscilaram entre recorde positivos e negativos. Em 2024, havia quebra de safra na África e na Bahia por conta do El Niño. Com isso, o ágio sobre o preço em Nova York atingiu o pico de US$ 4.300 por tonelada em agosto de 2024. Ou seja, o produtor brasileiro vendeu cacau com 61% de valorização em relação à bolsa. “Foi a melhor época para o produtor capitalizar”, diz Bezzon.
No ano seguinte, o pêndulo do mercado foi para o lado oposto. Com os preços altos, chocolateiras e indústrias de confeitaria mudaram suas fórmulas, reduzindo o uso de cacau e substituindo por gorduras vegetais. A procura caiu — e ainda não se recuperou. Em setembro de 2025, a retomada da produção global num contexto de fraca demanda gerou um deságio de US$ 2.392 por tonelada, 34% abaixo da bolsa.
Segundo Bezzon, as fortes variações de ágio e deságio do cacau no Brasil refletem o baixo poder aquisitivo tanto da indústria para comprar cacau quanto do consumidor para comprar chocolate.
O deságio recorde afetou os produtores, que pressionaram por uma barreira às importações de cacau. Em fevereiro, o governo suspendeu as compras da Costa do Marfim, principal fornecedor do Brasil, alegando questões sanitárias. A medida agradou produtores e descontentou a indústria.
Segundo o estudo encomendado pela AIPC, os efeitos da medida são limitados, porque não há excesso de oferta de amêndoas no Brasil, e a restrição não deve produzir ajuste nos preços pagos ao produtor. A StoneX diz que há um risco de efeito contrário no longo prazo: a redução da atividade das processadoras na entressafra pode enfraquecer a demanda por amêndoas nacionais.
Para os próximos meses, o ponto de atenção é o El Niño. Bezzon vê dois cenários possíveis: a eventual falta de cacau nos mercados daria vantagem ao produtor brasileiro diante de uma indústria com pouca oferta. Ou o fenômeno faria o preço disparar em Nova York justamente quando a colheita brasileira — que ocorre em abril — já tiver sido entregue, limitando ganhos do produtor.







