A combinação entre drones e inteligência artificial (IA) pode solucionar o desafio de indicar o momento ideal para o abate de bovinos e elevar a eficiência da pecuária, além de reduzir custos e estresse dos animais. O sistema foi testado na Fazenda Campanário, no município de Laguna Carapã (MS), ao acompanhar um lote de 110 animais da raça Nelore em confinamento durante um intervalo de 112 dias.
Por meio de visão computacional, a tecnologia permitiu identificar que os bovinos estavam prontos para o abate até uma semana antes do previsto pelos métodos tradicionais. Deste modo, a economia estimada com ração chegaria a R$ 15 mil apenas neste lote.
Como a Fazenda Campanário possui cerca de 14,6 mil bovinos confinados, o ganho de eficiência poderia chegar aos R$ 2 milhões se o sistema fosse aplicado a todo o rebanho.
O estudo foi desenvolvido pelo projeto Semear Digital, que tem parceria com a Embrapa Agricultura Digital, e publicado recentemente na revista científica Computers and Electronics in Agriculture (Computação e Eletrônica na Agricultura, em tradução livre).
“O animal ganha pouco peso no início, em sua fase de adaptação, depois entra em uma fase de ganho de peso acelerado e, no final, ocorre uma desaceleração, que deixa de ser vantajosa economicamente”, explica Everton Tetila, pesquisador do Semear Digital e professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).
Segundo Tetila, identificar esse ponto com precisão pode gerar ganhos expressivos para o produtor, especialmente em rebanhos de grande escala. “Em um lote numeroso, a diferença de apenas um dia pode ter impacto significativo na rentabilidade do sistema”, afirma.
Interesse na lida
Apesar de experimental, a tecnologia despertou interesse na fazenda. Jefferson de Andrade Parra, gerente de pecuária na Fazenda Campanário, afirmou que a ideia pode gerar uma solução “fantástica”.
“Saber o momento certo para o abate sem estressar os animais seria uma ótima solução, que poderia gerar economia de ração e outros insumos. Já havia visto drones serem usados para identificar animais, mas não para pesar”, comenta.
Os métodos tradicionais chegam a passar uma semana ou mais sem medir o ritmo de ganho de peso do gado, além de exigirem manejo intensivo e causarem estresse aos animais.
De acordo com Eduardo da Silva Alves, analista de rastreabilidade, os drones foram testados com voos em diferentes alturas para garantir o bem-estar dos animais. Os testes foram realizados com drones a 5, 10 e 15 metros de altura – esta última foi considerada a distância ideal para evitar o estresse dos bovinos.
“Os animais nem percebiam que estavam sendo pesados. Atualmente, a pesagem ocorre apenas na entrada e na saída do confinamento, com base em uma estimativa prévia da duração do ritmo de engorda”, diz.
O modelo de pesagem tradicional também exige mais trabalho e expõe os animais a riscos de contusões. “A pesagem com balanças pode ter avarias frequentes”, complementa Jayme Barbedo, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital.
Desafio tecnológico
A pesagem de gado com uso de drones é um desafio tecnológico devido à movimentação constante em criação a pasto e à semelhança entre os animais. Por isso, o projeto desenvolveu novos modelos de visão computacional e focou em modelo de confinamento.
O novo algoritmo de IA permitiu identificar os bois, além de recortar e segmentar automaticamente seus corpos para extrair medidas corporais como comprimento e largura com precisão.
“A partir das imagens, o código desconsiderava animais deitados ou em ângulo desfavorável para fazer uma média mais precisa do ganho de peso de todo o lote”, esclarece Barbedo.
Com base nesses dados, os pesquisadores acompanharam o crescimento do lote ao longo do tempo. “Fizemos voos periódicos desde a entrada do gado no confinamento até a fase final. A ideia foi modelar a relação entre medidas corporais e o ganho de peso, considerando variações não lineares ao longo do ciclo produtivo”, detalha Tetila.
A mesma base de dados servirá para desenvolver modelos capazes de identificar o comportamento alimentar dos animais e detectar anomalias, como monta excessiva. Tais comportamentos ocorrem quando o nível de estresse, muitas vezes por disputa por alimento, fica maior entre os bovinos. “Em alguns casos, pode haver lesões, o que prejudica o desempenho. Identificar esses padrões é relevante para evitá-los”, completa.
Escala comercial
O projeto prevê expandir o sistema para outras raças e validar sua aplicação em escala comercial. “Nós pretendemos adaptar o modelo para outras raças além do Nelore, como Angus e Brahman, e avançar na validação para uso direto no confinamento”, prevê o pesquisador.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam que a tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento. “Estamos próximos de um protótipo funcional, mas ainda é necessário um parceiro para transformar isso em um produto comercial”, finaliza Barbedo.







