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Canetas emagrecedoras: entenda a diferença entre agonorexia e anorexia

Especialistas explicam por que perda extrema de apetite com o uso das canetas emagrecedoras não é considerado um transtorno psiquiátrico

por Metrópoles
16/02/2026
em Saúde
Tempo de leitura: 5 minutos
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Getty images

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O uso das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos à base de GLP-1 destinadas à perda de peso e tratamento da diabetes, tem sido relacionado a um fenômeno que ganhou nome nas redes sociais de agonorexia.

O termo é usado de forma informal para descrever a perda exagerada de apetite provocada por esses remédios. Mas afinal, qual é a diferença entre agonorexia e anorexia nervosa? Embora possam ter em comum a redução drástica da ingestão alimentar, tratam-se de situações distintas.

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A anorexia nervosa é um transtorno psiquiátrico, marcado por medo intenso de engordar e distorção da imagem corporal. Já a chamada agonorexia não é um diagnóstico médico oficial e está ligada principalmente ao efeito farmacológico das medicações, não a uma alteração psicológica na percepção do corpo.

O que é a agonorexia?

Os análogos de GLP-1 foram desenvolvidos para tratar obesidade e diabetes tipo 2, atuando na regulação da fome e da saciedade. Eles reduzem o apetite, aumentam a sensação de estômago cheio e ajudam a controlar episódios de compulsão alimentar.

O endocrinologista Renato Zilli, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que o efeito esperado é justamente equilibrar os sinais biológicos da fome.

“Os análogos de GLP-1 foram desenvolvidos para corrigir um desequilíbrio biológico da fome e da saciedade. Eles reduzem o apetite, aumentam a sensação de saciedade e ajudam o paciente a sair daquele ciclo de compulsão e fome constante. Isso é o efeito terapêutico esperado”, afirma o médico.

O problema começa quando essa redução do apetite deixa de ser reguladora e passa a ser excessiva. “A linha começa a ficar preocupante neste ponto, levando a uma ingestão muito baixa de calorias, perda de peso rápida demais, perda muscular, de energia e até um medo de voltar a comer. O tratamento precisa melhorar a relação com a comida, não criar aversão a ela”, completa o especialista.

Segundo ele, essas medicações atuam em diferentes pontos do organismo: no hipotálamo, regulando a saciedade; no sistema de recompensa cerebral, reduzindo o desejo por comida; e no estômago, retardando o esvaziamento gástrico.

Quando o paciente praticamente perde o interesse por se alimentar, o principal mecanismo envolvido é a ação central no cérebro, ligada à modulação da saciedade e da recompensa.

Por que não é anorexia?

A diferença central está na origem do problema. Na anorexia nervosa, há um componente psicológico estruturado. A pessoa apresenta medo intenso de engordar, distorção da imagem corporal e comportamentos persistentes de restrição alimentar com o objetivo de emagrecer, mesmo quando já está abaixo do peso adequado.

A psicóloga Laís Rodrigues, do Grupo Reinserir Psicologia, em São Paulo, explica que a distorção corporal é um dos principais sinais do transtorno. “Existe também a distorção corporal, que é se ver muito acima do peso real, chegando ao ponto de comprar roupas que não são suas medidas como motivação tóxica para emagrecer. Além disso, essas pessoas evitam momentos de descontração com família e amigos porque consideram os ambientes hostis de alguma maneira”, afirma.

Na chamada agonorexia, por outro lado, a redução do apetite ocorre como efeito biológico da medicação. Não há, necessariamente, distorção da imagem corporal nem um medo patológico de engordar. Ainda assim, se o quadro não for acompanhado, pode trazer consequências importantes.

Quais são os riscos ligados a agorexia?

Quando a ingestão calórica cai de forma acentuada por semanas, o corpo começa a dar sinais de alerta. Entre eles estão perda de massa muscular, fraqueza, queda de cabelo, alterações menstruais, hipotensão e irritabilidade relacionada à comida.

Renato Zilli destaca que um dos erros mais comuns é iniciar o tratamento com dose elevada. “Essas medicações foram estudadas com aumento gradual justamente para permitir adaptação do organismo”, explica.

A regra, segundo o especialista, é simples: começar com dose baixa e subir devagar, geralmente a cada quatro semanas, sempre avaliando tolerância e resposta clínica. “Quem tenta acelerar o processo costuma pagar o preço com efeitos colaterais mais intensos, perda muscular e maior risco de efeito rebote depois”, conclui.

Outro ponto de atenção é a composição corporal. Segundo o endocrinologista, perder peso não significa automaticamente melhorar a saúde. Se o paciente perde músculo junto com gordura, pode evoluir para sarcopenia, redução do metabolismo basal e maior chance de recuperar o peso no futuro.

Por isso, além do número na balança, o acompanhamento deve incluir avaliação de massa magra, ingestão adequada de proteína, prática de musculação e qualidade do sono.

Laboratorialmente, também podem surgir alterações como queda de ferro, vitamina B12, albumina e sinais de desidratação. Nesses casos, a conduta pode envolver ajuste ou redução temporária da dose, reorganização da alimentação e foco na preservação muscular.

Quando procurar ajuda?

Embora as medicações à base de GLP-1 não causem anorexia nervosa clássica, o uso sem acompanhamento pode levar a um estado de restrição exagerada.

O objetivo do tratamento, não é fazer o paciente “comer o mínimo possível”, mas restaurar a regulação fisiológica da fome. Quando bem indicados e monitorados, os medicamentos são ferramentas eficazes e seguras. Quando utilizados sem critério, podem provocar desequilíbrios nutricionais e prejuízos à saúde.

A principal diferença, portanto, está na causa. Enquanto a anorexia nervosa é um transtorno psiquiátrico complexo, a agonorexia é um termo informal para descrever um efeito excessivo do medicamento.

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