Lideranças brasileiras da indústria da carne temem pelo efeito que a decisão da União Europeia, de tirar o Brasil da lista de países que cumprem os requisitos sanitários em termos de uso de antibióticos, pode causar na imagem e na reputação do país a nível internacional. Além do eventual impacto na balança comercial com os europeus – que foi de US$ 1,8 bilhão em 2025 – o receio é que a postura do bloco possa motivar novas exigências de outros compradores.
Representantes do setor brasileiro confiam que a medida será revertida em conjunto com o governo, já que a decisão da UE só terá validade em setembro. Mesmo assim, alertam que “o estrago já está feito”.
Uma fonte do setor exportador disse que ainda não existe sinalização de outros países, mas que o movimento da Europa pode influenciar medidas protecionistas ao redor do mundo. Ela citou a China e o Japão, importantes clientes das carnes bovina e de frango, respectivamente, como exemplos.
“Mesmo que o Brasil volte para a lista [de países que cumprem os requisitos sanitários para exportação de produtos animais], o estrago está feito, pois dá motivo para outros países exigirem o mesmo”, apontou.
Nessa terça-feira (12/3), a UE decidiu retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar animais e seus derivados destinados à alimentação humana para o bloco por descumprir regras de uso de antimicrobianos. Pecuaristas irlandeses comemoraram a decisão e indicaram facilidade de aquisição no Brasil de antibióticos cujo uso é proibido na Europa. O governo brasileiro se disse “surpreso” com a notícia, mas prometeu empenho para reverter a medida.
A reação do governo também desagradou lideranças do setor exportador. “Tem protecionismo europeu e tem equívoco nas negociações do Brasil”, disse.
“Temos até setembro para construir com o governo brasileiro uma saída, mas exportamos US$ 1 bilhão para a Europa, que poderia crescer com o novo acordo”, disse uma pessoa do setor de carne bovina.
Procurado, o ministério não respondeu até a publicação da reportagem.
Em abril, a Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura publicou duas portarias sobre o assunto. A 1600/2026 proíbe o registro, a importação e o emprego de produtos que contenham os insumos farmacêuticos ativos antimicrobianos reservados para uso humano, de acordo com a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) em espécies animais utilizadas na alimentação humana.
Já a portaria 1617/2026, de 26 de abril, proíbe a importação, a fabricação, a comercialização e o uso de aditivos melhoradores de desempenho que contém antimicrobianos classificados como importantes na medicina humana ou veterinária, e cancela os registros dos produtos correspondentes.
A medida deu prazo de 180 para uso dos produtos fabricados ou importados antes da publicação do texto, ou seja, até outubro. A proibição da União Europeia entra em vigor em 3 de setembro.







