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Pensamentos “intrusivos” em gestantes podem indicar transtornos

Metrópoles por Metrópoles
10/12/2025
em Saúde
Tempo de leitura: 4 minutos
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Foto: Catherine Falls Commercial/ Getty Images

Foto: Catherine Falls Commercial/ Getty Images

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Durante a gravidez e nas primeiras semanas após o parto, é comum que a mulher imagine diferentes situações envolvendo o bebê, incluindo pensamentos que podem ser assustadores. Imaginar cenas de acidentes, quedas ou até de machucar o próprio filho sem querer são mais frequentes do que se imagina, embora isso raramente seja compartilhado com profissionais de saúde.

Um artigo publicado na revista Science Advances mostra que esses pensamentos indesejados, na maioria das vezes sobre danos ou perigos ao bebê, podem ser uma importante janela para entender os transtornos de ansiedade no período perinatal e, dessa forma, ajudar a identificar precocemente as mulheres que estão mais vulneráveis a desenvolver quadros de depressão e ansiedade após o parto.

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Essas ideias repentinas são conhecidas como “pensamentos intrusivos” e são caracterizadas por imagens ou impulsos vívidos, que surgem de forma abrupta, indesejada ou angustiante. No contexto da maternidade, podem aparecer como pensamentos do tipo “e se o bebê cair?”, “e se eu o sufocar sem querer?”, “e se eu machucar meu filho?”.

“O que os caracteriza é que esses pensamentos surgem ‘do nada’ e são contrários aos valores e desejos da mãe, causando intenso desconforto”, explica o ginecologista e obstetra Rômulo Negrini, coordenador materno-infantil do Einstein Hospital Israelita.

Em geral, esses pensamentos não refletem desejo ou intenção real, mas sim medo e hipervigilância e, por isso, diferem da preocupação normal da maternidade. “Não é algo planejado nem fruto de ruminação, e sim um lampejo mental que causa medo e culpa. O que é considerado normal é ter intrusões isoladas, curtas e reconhecidas como indesejadas. Já quando esses pensamentos são persistentes, geram evitamentos ou impedem o cuidado com o bebê, é sinal de alerta”, ressalta Negrini.

Cerca de 80% das mulheres vão vivenciar o baby blues, como é chamado o conjunto de sentimentos que costuma ser confundido com depressão pós-parto: choro, tristeza, angústia, excesso de sensibilidade, irritabilidade e/ou ansiedade. Ele surge imediatamente após o parto e costuma durar de duas a três semanas. A depressão pós-parto, pelo contrário, não desaparece e pode trazer outras complicações, inclusive no aspecto afetivo, atrapalhando o vínculo entre mãe e bebê.

O que leva a pensamentos intrusivos nessa fase?

Estudos mostram que entre 70% e 100% das mães relatam essas intrusões mentais. Cerca de metade tem, pelo menos uma vez, ideias de dano intencional, embora sem qualquer ação de fato. “Muitas mães não contam o que sentem por medo de serem julgadas”, observa o médico. Por isso, é importante que os profissionais de saúde abordem o tema com as gestantes de forma aberta e normalizadora. “Ter pensamentos intrusivos não significa ser perigosa. Falar sobre isso é sinal de autoconsciência e proteção, não de risco”.

A pesquisa recente aponta que essas ideias costumam combinar vulnerabilidades e fatores ambientais. Mudanças hormonais intensas — como as oscilações de estrogênio, progesterona e cortisol — podem aumentar a sensibilidade emocional, especialmente em mulheres predispostas à ansiedade. Somam-se a isso o sono fragmentado no puerpério, o isolamento, o medo de não dar conta e a falta de apoio no pós-parto. “Em geral, é a interação entre todos esses fatores que favorece as intrusões”, pontua Rômulo Negrini.

Daí a importância de ficar atenta aos sinais que indicam a necessidade de procurar ajuda. “Deve-se buscar avaliação imediata se houver impulsos repetitivos, ideias de agir, evitação do bebê ou ansiedade tão intensa que compromete o cuidado. Nesses casos, a orientação é procurar atendimento de saúde mental, e, se houver risco, acionar emergência”, recomenda o especialista do Einstein.

O tratamento depende da gravidade desses pensamentos. Segundo Negrini, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais eficazes, especialmente quando adaptada ao contexto perinatal, com técnicas de exposição e prevenção de resposta. Casos mais graves podem exigir o uso de medicamentos antidepressivos compatíveis com o aleitamento materno, sempre sob acompanhamento psiquiátrico. “É fundamental também garantir suporte emocional, reduzir o estresse e melhorar o sono da mãe”, frisa.

Para a prevenção, o ideal é que as consultas de pré-natal incluam triagem para ansiedade e histórico de transtornos prévios, além de envolver o parceiro ou familiares no planejamento do suporte pós-parto. “Cuidar da saúde mental da mãe é cuidar da saúde do bebê e de toda a família”, conclui o médico.

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