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Mais de 8 mil pessoas morreram vítimas de ações policiais no RJ desde 2019; aumento foi de 13,8% em 2025

Maioria das vítimas é de homens negros e jovens, aponta estudo. Especialistas apontam falta de controle da atividade policial e de políticas de segurança transparentes.

por G1
01/07/2026
em Segurança
Tempo de leitura: 7 minutos
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Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

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Mais de 8 mil pessoas morreram em ações policiais no Rio de Janeiro desde 2019. Os dados são da Rede de Observatórios, que divulga nesta quarta-feira (1) o boletim “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, sobre o impacto da violência contra populações pretas em 9 estados.

O levantamento feito pelos pesquisadores, a partir de dados fornecidos pelas secretarias de Segurança Pública, apontou ainda que negros têm 6 vezes mais chances do que brancos de morrer em uma operação policiais no RJ. A maioria das vítimas, segundo pesquisadores, é composta por homens negros e jovens.

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Em 2025, foram 800 mortes por intervenção policial no Estado, um aumento de 13,8% em comparação a 2024.

Para o coronel José Vicente Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, as estatísticas apontam para um “descontrole” das forças policiais.

“O que melhorou a segurança nesse período? Quantas áreas foram retomadas de facções e milícias de lá para cá?”, questionou, apontando um fator político para que o problema não seja resolvido no Rio.

“A política não controla por um lado, e estimula (a violência) por outro”, disse ele.

Mortes por intervenção policial superam 8 mil desde 2019

Para a pesquisadora Manuela Peclat, que representa a Rede de Observatórios no Rio de Janeiro, o aumento dos registros de morte por intervenção policial revela a falta de uma política efetiva de segurança pública:

“Esse números estão apontando que toda essa guerra às drogas e as movimentações políticas que motivam essas ações policiais revelam uma falta de ciência de como combater o crime organizado. de forma efetiva”, pontuou.

A população jovem foi o principal alvo, segundo o estudo: 455 mortos por intervenção policial no RJ em 2025, 57% do total, tinham até 29 anos.

A pesquisadora citou que o Rio foi o único a ter mortes registradas de crianças até 11 anos: foram 2 casos.

“É um indício de uma política completamente fracassada, que já é orientada para a morte. É uma falta de política. Como você pensa que uma pessoa entre 0 e 11 anos poderia estar em confronto e representar uma ameaça aos policiais?”, questionou Manuela.

Segundo o documento, o Rio de Janeiro tem a 3ª maior taxa de mortes em ações policiais entre os 9 estados presentes no estudo. Para Vicente Filho, o Estado precisa agir para não estimular a impunidade entre policiais com vários casos de mortes durante operações:

“Não podemos estimular condições para que policiais se tornem matadores. Não pode ter sujeito com 20 casos, 30 casos, porque ele pode estar sendo estimulado ao uso excessivo da força, ainda que não tenha provas e que ele tenha cometido qualquer crime em relação a isso., como parte de uma política de contenção”, afirmou o especialista.

Componente racial

A pesquisadora Manuela Peclat explicou como o levantamento obteve a informação de que negros têm 6 vezes mais chances de morrerem em uma operação policial no Rio de Janeiro do que brancos.

A taxa é calculada com base no número de mortes por 100 mil habitantes entre pessoas negras e brancas, separadamente. Em seguida, os dois resultados são comparados, gerando a taxa final.:

“Os dados são fornecidos pelas próprias secretarias de Segurança Pública. A gente faz a avaliação deles, a busca por por inconsistências. E a partir dessa padronização e a validação desses dados, são geradas estatísticas descritivas com as proporções das vítimas por raça/cor e idade”, pontuou.

” E aí é feito o cálculo, proporcionalmente, comparando negros e brancos, em relação à quantidade e proporção da população no Estado do Rio de Janeiro”

A proporção de pessoas pretas e pardas na população fluminense é de 57,8%, segundo pesquisa do mesmo observatório de Segurança de 2021.

No entanto, os dados de 2025 indicam que esse mesmo grupo corresponde a 88,6% das vítimas de letalidade policial.

Para a pesquisadora Manuela Peclat, o estudo mostra que pessoas negras de até 29 anos são os principais alvos de mortes por intervenção policial:

“Você tem um futuro totalmente ameaçado quando você olha que a maior parte das mortes tem um perfil muito claro de pessoas de 0 a 29 anos”, ponderou.

Megaoperação no Alemão

O documento cita a operação Contenção, da Polícia Civil do Rio, que levou a mais de 120 mortes no Complexo do Alemão em outubro de 2025. A ação é apontada no estudo como a mais letal da história do país.

“A utilização do termo “narcoterroristas”, assim como a associação dos mortos à chamada “chacina do Alemão”, reflete a normalização da violência extrema como elemento estruturante da segurança pública fluminense”, dizem os pesquisadores.

Denúncias de abusos cometidos por policiais foram feitas ao Ministério Público e aos órgãos de controle da atividade policial por invasões às casas de moradores, roubos e furtos cometidos durante as incursões policiais para cumprir mandados no Alemão e na Penha, na Zona Norte do Rio:

“Eu não tenho dúvida que aquela ação do ano passado foi o maior desastre de violência da história da polícia brasileira. É um desastre em termos de concepção operacional e execução operacional”, afirmou José Vicente Filho.

Em nota, a Polícia Civil do Rio afirmou que as mortes ocorridas durante a operação Contenção no Alemão, em 2025, foram “consequência dos confrontos provocados pela resistência armada dos criminosos”.

A polícia afirmou ainda que a ação foi realizada para “combater organizações criminosas fortemente armadas, que dominavam comunidades, impunham barricadas, utilizavam armamento de guerra e atacavam as forças de segurança”. (Leia a nota na íntegra ao final do texto).

Câmeras não são suficientes, diz especialista

MP-RJ quer acesso às imagens das câmeras corporais usadas por policiais na megaoperação

O uso de câmeras corporais no Rio de Janeiro, iniciado em 2022 com a Polícia Militar , vem sendo alvo de diversas investigações por mau uso, incluindo em megaoperações das Polícias Militar e Civil.

Durante a megaoperação de outubro de 2025, por exemplo, apenas 23% dos policiais utilizavam câmeras corporais.

Para José Vicente Filho, apenas o uso das câmeras não é suficiente se não houver mecanismos de controle e transparência:

“É necessário ter padrões, regras, vindas a partir do Governador, não é deixar a polícia civil militar agir como bem entendem. É necessário que policiais tenham treinamento de altíssima qualidade para saber exatamente como e quando atirar”, pontuou.

Nota da Polícia Civil

“O estudo parte de uma premissa que distorce a realidade ao colocar no mesmo grupo todas as mortes decorrentes de ações policiais, inclusive aquelas em que o policial apenas reagiu para não ser morto.

Quando um policial é atacado por criminosos armados e revida para salvar a própria vida ou a vida de outras pessoas, isso é legítima defesa, prevista em lei. Tratar esses casos simplesmente como “mortes por intervenção policial” passa a falsa impressão de que toda morte durante uma operação ocorreu por iniciativa da polícia, quando, na verdade, muitos confrontos começam porque criminosos decidem atirar contra os agentes do Estado.

Também é incorreto sugerir que exista qualquer critério racial na atuação policial. A polícia não escolhe quem enfrenta pela cor da pele, religião ou condição social. Diante de um ataque, o policial reage à agressão para proteger sua vida e cumprir sua missão. A cor de quem está atirando jamais é um fator considerado.

No caso da Operação Contenção, é importante lembrar que a ação foi realizada para combater organizações criminosas fortemente armadas, que dominavam comunidades, impunham barricadas, utilizavam armamento de guerra e atacavam as forças de segurança. As mortes ocorridas durante a operação foram consequência dos confrontos provocados pela resistência armada dos criminosos.

A Polícia Civil continuará atuando dentro da lei, protegendo a população e seus próprios agentes, sem abrir mão do uso legítimo da força quando for necessário para enfrentar criminosos que escolhem o confronto armado.

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