A pecuária tem avançado em genética, nutrição, reprodução e tecnologia, mas um dos principais desafios dentro das propriedades continua sendo a gestão de pessoas. São as equipes que executam os manejos, acompanham o rebanho e colocam em prática as decisões que interferem diretamente nos resultados da atividade.
Para a especialista em Gestão de Pessoas no Agro, Jacqueline Lubaski, um dos principais gargalos está na formação de lideranças. Segundo ela, é comum que profissionais que apresentam bom desempenho operacional sejam promovidos para funções de gestão sem preparação para conduzir equipes.
“Não é falta de mão de obra, que é o que todo mundo fala. Para mim, o problema é outro: falta líder preparado. Acontece muito de pegar o melhor vaqueiro, o melhor tratorista e promover para capataz. Só que ninguém ensina ele a liderar. A fazenda perdeu um bom operacional e ganhou um chefe ruim”, afirma.
Outro desafio é estabelecer com clareza as funções, rotinas e resultados esperados de cada colaborador. Jacqueline explica que a ausência desse alinhamento pode provocar conflitos, retrabalho e dificuldades que muitas vezes são interpretadas como falta de comprometimento da equipe.
O consultor Ricardo Arantes, fundador da TRI Comunicação, Treinamento e Consultoria, também aponta comunicação, liderança e alinhamento como aspectos fundamentais para uma gestão eficiente.
“A gestão e a liderança devem sempre andar juntas. Gestão é fazer sentido e liderança é ter motivos para fazer. Quando as pessoas são bem lideradas, elas encontram melhores e maiores motivos para realizar suas tarefas”, afirma.
Para Arantes, uma equipe de resultados também precisa desenvolver uma comunicação eficiente e uma cultura de colaboração. Segundo ele, profissionais cooperativos tendem a permanecer mais tempo nas empresas e realizar suas atividades com maior atenção.
Escola da Cria
É diante de desafios como esses que começa, neste mês de agosto, a Escola da Cria, formação realizada no Centro de Treinamento Cria Fértil, na Fazenda São Rafael, em Santa Rita do Tocantins. A proposta é preparar profissionais para compreender, planejar e conduzir sistemas de pecuária de cria de maneira integrada e eficiente.
A formação terá 80 horas-aula, distribuídas em oito módulos e quatro encontros presenciais, realizados uma vez por mês. A primeira etapa será entre os dias 26 e 29 de agosto, com continuidade em setembro, outubro e novembro. A metodologia combina 60% de aulas teóricas e 40% de atividades práticas aplicadas a campo.
O conteúdo começa pela implantação de rotinas e controle zootécnico e contempla ainda manejo reprodutivo, bem-estar animal, nutrição aplicada à cria, maternidade, sanidade e manejo de pastagens. Entre os assuntos estão a organização dos processos da propriedade, coleta e interpretação de dados, indicadores reprodutivos, condução dos animais, planejamento nutricional e protocolos preventivos.
Para o presidente da Associação Novilho Precoce Tocantins e um dos profissionais que conduzirão a formação, o médico-veterinário Ricardo Passos, preparar quem está diariamente no campo é fundamental para transformar investimentos e conhecimento técnico em resultados.
“Podemos investir em genética, nutrição, estrutura e tecnologia, mas são as pessoas que colocam tudo isso em prática dentro da fazenda. Quando temos uma equipe que entende o que está fazendo, por que está fazendo e qual resultado precisa alcançar, a propriedade se torna mais eficiente. A Escola da Cria vem justamente para contribuir com a formação desses profissionais e com uma pecuária cada vez mais profissional”, destaca.
Passos será responsável pelo módulo de Bem-Estar Animal, que abordará comportamento bovino, condução dos animais, redução do estresse e segurança no manejo. A formação contará ainda com profissionais das áreas de Medicina Veterinária e Zootecnia nos demais módulos.
Pessoas também fazem parte do resultado
A importância da capacitação fica ainda mais evidente quando se observa que praticamente todas as etapas da produção dependem da execução das equipes. Para Jacqueline, investimentos de alto nível podem perder eficiência quando não há profissionais preparados para conduzi-los.
“Você pode ter a melhor genética, mas se ninguém observar o cio na hora certa não vem bezerro. Pode ter a melhor dieta, mas se o trato atrasa todo dia não vira arroba. Máquina cara quebra na mão de quem não foi treinado e não se sente responsável por ela.”
Ela também chama atenção para impactos como retrabalho, acidentes e rotatividade. “Equipe alinhada dá menos retrabalho, menos perda, menos acidente, gado mais tranquilo e gente que fica. Isso é resultado, só que não aparece numa linha do balanço”, completa.
Na avaliação de Ricardo Arantes, uma propriedade com boa gestão consegue aliar produção a um ambiente no qual os profissionais desejam permanecer. Sem esse cuidado, a atividade pode ficar marcada por pressão, cobrança e alta rotatividade.
Com encontros entre agosto e novembro, a Escola da Cria busca aproximar conhecimento técnico e realidade de campo, contribuindo para a preparação das equipes e para uma gestão mais eficiente das propriedades pecuárias.





