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Fase da lua pode influenciar ataques de tubarão em Pernambuco. Entenda

Do Porto de Suape à lua cheia: como a ciência explica a concentração de ataques de tubarão no litoral pernambucano

por Metrópoles
10/06/2026
em Brasil
Tempo de leitura: 6 minutos
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Divulgação/ Governo Pernambuco

Divulgação/ Governo Pernambuco

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Os dois ataques de tubarão registrados em Pernambuco em um intervalo de pouco mais de 24 horas reacenderam o debate sobre os fatores que favorecem a ocorrência desses incidentes no litoral do estado, que concentra a maioria dos casos registrados no Brasil.

Segundo o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), as vítimas mais recentes — correspondentes aos 83º e 84º registros da série histórica — foram João Lucas Nemézio Sales, de 11 anos, atacado na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e Marcela Vitória de Lima Santos, de 19, mordida na Praia de Boa Viagem, no Recife.

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Em 31 de maio, João Lucas foi atacado por um tubarão-cabeça-chata na Praia de Piedade. Ele sofreu ferimentos graves na coxa e na mão esquerda e precisou amputar a perna esquerda. Menos de 24 horas depois, Marcela Vitória foi mordida por um tubarão-tigre na Praia de Boa Viagem, na zona sul do Recife. Ela sofreu lesões severas na perna direita e também teve o membro amputado.

Ambos os casos ocorreram durante um período de Lua Azul, nome dado à segunda lua cheia registrada em um mesmo mês.

Embora pesquisadores ressaltem que a fase lunar, isoladamente, não explica os ataques, estudos e orientações dos órgãos responsáveis pelo monitoramento dos incidentes indicam que as fases de lua nova e lua cheia merecem atenção especial por estarem associadas às marés de sizígia, quando a maré sobe mais e também baixa mais do que o normal, aumentando a diferença entre os níveis da água ao longo do dia.

O Cemit destaca que a maré alta é um dos fatores que podem aumentar o risco de encontros entre tubarões e banhistas. Nessas condições, os animais conseguem se aproximar mais da costa, enquanto áreas normalmente protegidas pelos arrecifes ficam mais acessíveis.

Apesar dessa relação, a literatura científica aponta que os ataques registrados em Pernambuco resultam de uma combinação de fatores ambientais, geográficos e humanos acumulados ao longo de décadas.

Impacto ambiental

Entre as hipóteses mais discutidas está o impacto ambiental provocado pela fundação e expansão do Porto de Suape, localizado entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho.

Construído na década de 1970 e inaugurado oficialmente em 1983, o complexo portuário promoveu alterações significativas na paisagem costeira da região.

Pesquisas conduzidas por cientistas da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pelo próprio Cemit apontam que a abertura de canais de navegação, obras de dragagem e a supressão de áreas de manguezal modificaram habitats costeiros e podem ter alterado rotas utilizadas por espécies marinhas, incluindo tubarões.

Um dos estudos mais citados sobre o tema, “Shark Attacks in Recife, Brazil: Analysis of Incidents and Possible Causes”, publicado em 2008 pelo pesquisador Fábio Hazin e colaboradores, relaciona essas mudanças ambientais ao aumento dos encontros entre tubarões e seres humanos na faixa litorânea da região metropolitana do Recife.

A expansão urbana no litoral sul da região metropolitana do Recife também é apontada como um elemento importante para compreender o fenômeno.

O estudo “Dinâmicas de urbanização litorânea e a problemática habitacional no litoral sul de Pernambuco”, desenvolvido por pesquisadores da UFPE e da UFRPE, mostra como a ocupação intensiva da costa transformou a relação entre população e ambiente marinho nas últimas décadas.

Para os especialistas, o aumento do número de pessoas frequentando áreas consideradas de risco elevou a probabilidade de encontros entre humanos e tubarões.

Configuração geográfica

Outro fator apontado citado por pesquisadores é a própria configuração geográfica do litoral pernambucano.

Entre as praias de Boa Viagem e Piedade existem canais naturais relativamente profundos localizados próximos à faixa de areia. Essas formações funcionam como corredores de circulação para diversas espécies marinhas, permitindo que tubarões se aproximem da costa.

Relatórios técnicos do Cemit e pesquisas desenvolvidas por cientistas da UFRPE indicam que, em determinados trechos, a profundidade aumenta rapidamente poucos metros após a arrebentação. Essa característica favorece a circulação de espécies como o tubarão-tigre e o tubarão-cabeça-chata, responsáveis pela maior parte dos ataques graves registrados no estado.

A presença dos arrecifes também influencia a dinâmica dos incidentes. Muitos ataques ocorreram fora da barreira natural formada pelos recifes, onde a profundidade aumenta rapidamente e os animais encontram condições mais favoráveis para deslocamento.

A proximidade de desembocaduras de rios, como o Capibaribe, o Beberibe, o Jaboatão e o Pirapama, é outro elemento apontado por pesquisadores. Essas áreas concentram peixes e outros organismos que servem de alimento para os tubarões, atraindo os animais para regiões mais próximas da costa.

Comportamento humano

O comportamento dos banhistas também entra na equação e é considerado um dos elementos mais importantes na prevenção dos ataques.

As praias de Boa Viagem, Pina e Piedade contam com placas de alerta em pontos considerados de maior risco. Segundo o Governo de Pernambuco, cerca de 80 placas orientam os frequentadores a evitar locais perigosos e a seguir recomendações de segurança.

Da mesma forma, ultrapassar a linha dos arrecifes naturais coloca o banhista em uma área mais profunda e frequentemente utilizada por tubarões para circulação. Permanecer na água durante períodos de maré alta também exige atenção redobrada.

As chuvas representam outro fator de risco. A água turva, comum após períodos de chuva intensa, reduz a visibilidade tanto dos animais quanto dos banhistas e pode dificultar a identificação de presas.

As chuvas também aumentam o volume de água doce e de matéria orgânica despejada no mar por rios e canais, alterando temporariamente o ambiente costeiro.

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