Na pecuária de cria, produtividade e rentabilidade começam muito antes do nascimento do bezerro. Uma das decisões mais importantes para organizar o sistema produtivo é a definição de uma estação de monta bem planejada. Mais do que estabelecer um período para a reprodução, essa estratégia permite alinhar nutrição, genética, sanidade, manejo e gestão dentro da propriedade.
O principal objetivo da estação de monta é ajustar a demanda nutricional do rebanho à produtividade das pastagens tropicais. Na prática, buscamos fazer com que os períodos de maior exigência nutricional das matrizes coincidam com os momentos de maior disponibilidade e qualidade de forragem. Esse alinhamento contribui para aumentar a produtividade do rebanho com menor custo alimentar.
No Tocantins, onde existe uma sazonalidade bem definida entre os períodos de chuva e seca, esse planejamento se torna ainda mais importante. Antes de iniciar a estação, é fundamental avaliar e selecionar matrizes e reprodutores, estabelecer os objetivos genéticos e planejar a alimentação do rebanho.
A condição corporal das matrizes também merece atenção. Uma vaca precisa chegar ao período reprodutivo em condições adequadas para responder ao manejo e sustentar todas as etapas seguintes, da concepção à formação fetal e, posteriormente, à desmama do bezerro.
A sanidade completa esse conjunto de fatores. Quando bem conduzida, representa um dos investimentos de menor custo dentro da produção animal e, ao mesmo tempo, pode proporcionar elevado retorno ao preservar a capacidade produtiva e reprodutiva do rebanho.
O que medir para saber se a estação foi eficiente?
Não existe gestão sem indicadores. Na estação de monta, dois deles merecem atenção especial: a taxa de concepção e a duração do período reprodutivo.
Como referência dentro dos sistemas com os quais trabalhamos, buscamos uma taxa de prenhez superior a 80% em uma estação de, no máximo, 75 dias. Para alcançar esse resultado, entretanto, não basta iniciar um protocolo reprodutivo. É necessário ter planejamento, acompanhamento dos animais e uma equipe preparada para executar corretamente cada etapa.
Uma estação mais concentrada também permite identificar com maior facilidade as matrizes mais eficientes. Vacas que concebem cedo tendem a permanecer melhor posicionadas dentro do calendário produtivo, enquanto aquelas que apresentam dificuldades recorrentes podem ser identificadas e avaliadas para decisões de seleção.
É justamente aí que a estação de monta deixa de ser somente uma estratégia reprodutiva e passa a funcionar como uma ferramenta de gestão.
Organização que vai além da reprodução
Entre os principais benefícios está a padronização da produção de bezerros. Ao concentrar as concepções e, consequentemente, os nascimentos, formamos lotes mais homogêneos e conseguimos organizar melhor as demais etapas da cria.
Também é possível planejar com maior precisão a necessidade de mão de obra, a compra de insumos, os manejos sanitários e nutricionais e o calendário da propriedade. Isso reduz improvisos e torna o sistema mais previsível.
Essa previsibilidade chega também ao fluxo de caixa. Quando sabemos com maior clareza quando os bezerros vão nascer, quando serão desmamados e qual volume será produzido, temos mais informações para planejar economicamente a atividade.
Entre os erros que mais comprometem uma estação de monta estão trabalhar com animais com baixo escore corporal, prolongar excessivamente o período reprodutivo e contar com uma equipe sem orientação adequada. São falhas que podem parecer simples, mas que interferem diretamente no desempenho do rebanho.
Uma estação bem conduzida permite ajustar a produção das pastagens à demanda nutricional, padronizar os bezerros, selecionar vacas mais eficientes, reduzir custos, especializar a mão de obra, planejar a compra de insumos e aumentar a previsibilidade da produção.
No fim, estamos falando de organização do sistema produtivo. Quanto mais conseguimos medir, planejar e concentrar as atividades, maior é a capacidade de identificar gargalos e tomar decisões.
A estação de monta, portanto, não deve ser encarada apenas como um período do calendário da fazenda. Ela é uma das bases para profissionalizar a atividade de cria e construir uma pecuária com maior produtividade, eficiência e lucratividade.
Sobre o autor: Ricardo Passos é médico-veterinário, presidente da Associação Novilho Precoce Tocantins e possui mais de 30 anos de atuação na pecuária. É responsável pela Cria Fértil, empresa fundada em 1994 e voltada à reprodução animal, genética bovina e aplicação de tecnologias para a produção de bezerros, com atuação em estados como Tocantins, Goiás e Mato Grosso.







