Com a evolução da tecnologia e a rapidez com que tudo é oferecido na palma da mão, as pessoas têm buscado cada vez mais formas fáceis e imediatas de obter liberação de dopamina — um neurotransmissor produzido pelo cérebro e relacionado à motivação, à expectativa e ao sistema de recompensa.
Para suprir a demanda, é possível cumprir ações cotidianas de consumo, como compras de produtos ou de comidas, que ativam o sistema de recompensa do cérebro sem gastar um centavo: são os chamados “apps de dopamina”.
Eles funcionam como uma plataforma de compras convencional. O usuário baixa o aplicativo, enche o carrinho ou faz o pedido de uma refeição, mas a entrega nunca ocorre. A simulação é suficiente para antecipar a sensação de satisfação no cérebro.
Entre os exemplos mais populares dos apps estão a Dopamine Shop e o FoodNeverComes — este último tem cerca de 1,1 milhão de usuários registrados.
O psiquiatra clínico e geriatra Marcelo Pena Paoli, supervisor do Ambulatório de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que simular compras permite que o indivíduo repita a ação diversas vezes, tornando-se uma espécie de ciclo vicioso.
“Quando há neurotransmissão, liberação de dopamina no circuito da recompensa, vamos querer repetir esse comportamento. O hábito está associado a um prazer e pode trazer prejuízo”, destaca.
Ele alerta que a internet e os smartphones acabam disponibilizando um número maior de comportamentos que podem ativar o circuito da dopamina de maneira cada vez mais rápida, causando um dano que não era observado antigamente.
Dopamina deve vir de diferentes fontes
Paoli reforça que o problema é ativar a dopamina sempre da mesma maneira, estreitando o repertório e deixando de fazer outras atividades que geram prazer e satisfação. “O saudável é quando temos uma gama de comportamentos que ativam o sistema da dopamina”, ensina.
A psicóloga Júlia Martins de Rezende Vieira, do Hospital Brasília, diz que a sociedade está vivendo um momento de imediatismo e isso tem influenciado o nosso cérebro.
“Costumo dizer que somos uma ‘sociedade micro-ondas’, onde tudo precisa acontecer rapidamente, e essa lógica também atravessa a forma como consumimos. O nosso cérebro é moldado pelos padrões que repetimos ao longo da vida graças à neuroplasticidade. O problema não é a dopamina, mas a maneira como temos estimulado esse sistema”, alerta.
Júlia acrescenta que, quando acostumamos o cérebro a buscar recompensas muito rápidas, a tendência é que a pessoa desenvolva uma menor tolerância à frustração. Isso acontece porque ela passa a querer sentir prazer sem precisar enfrentar processos que exigem tempo, espera e esforço.
“Como consequência, atividades que demandam dedicação, como estudar, desenvolver uma habilidade ou concluir um projeto de longo prazo, podem parecer cada vez menos estimulantes”, diz.
Busca constante por novidades e estímulos mais intensos
Os especialistas têm observado uma busca constante por novidades e uma necessidade de estímulos mais intensa, comportamentos mais impulsivos e, em alguns casos, o uso dessas experiências como algo que anestesie emoções difíceis, em vez de enfrentá-las.
“Claro que não podemos generalizar. A saúde mental é multifatorial e cada indivíduo responde de uma maneira. No entanto, esses são fenômenos que têm sido observados com frequência, especialmente entre crianças e adolescentes, que ainda estão em processo de desenvolvimento cerebral e emocional”, comenta a psicóloga.
A dopamina integra o funcionamento natural do organismo e não possui uma forma certa ou errada de ser liberada: a diferença depende da qualidade das fontes de recompensa. Priorizar atividades que exigem envolvimento, tempo e construção gradual — como exercícios, aprendizado, convívio social e descanso — estimula esse neurotransmissor de maneira mais saudável e sustentável. O ideal é encontrar um equilíbrio, reforçam os especialistas.







