Um espaço construído a partir das cores, matérias e memórias do Cerrado ganhará outras formas de expressão na CASACOR Tocantins 2026. No dia 22, o ambiente dos arquitetos Melissa Siqueira e Gustavo Monteiro recebe a Feira Literária Feminina (FLIFEM) para uma programação com oficinas de desenho e poesia e um sarau que reúne literatura, música, dança e artes visuais. A proposta faz palavra, traço, som e movimento atravessarem uma arquitetura que nasceu do encontro entre território e criação.
No projeto, o Cerrado se distancia da imagem monocromática associada à seca. Aparece nas cores dos frutos, no barro, na madeira, nas texturas, nas obras de arte e nos saberes que atravessam gerações. A presença da feira acrescenta novas vozes a essa leitura e transforma o ambiente em espaço de experimentação e troca.
“A gente quis fugir de uma representação óbvia do Cerrado. Quando olhamos para os frutos, encontramos uma riqueza enorme de cores, formas e texturas. O projeto parte dessa diversidade para mostrar um Cerrado vivo, que pode ser traduzido de muitas maneiras pela arquitetura. Receber outras manifestações artísticas amplia justamente essa possibilidade de leitura”, afirma Melissa Siqueira.
Criada para ampliar o espaço da produção artística e intelectual de mulheres, a FLIFEM ultrapassou os limites de uma feira e se tornou uma comunidade. Ao longo do ano, promove clubes de leitura, lançamentos, oficinas e encontros gratuitos. A literatura permanece como ponto de partida, mas estabelece diálogo com pintura, música, dança, audiovisual e teatro.
Essa diversidade de linguagens chega à CASACOR com atividades que aproximam público e criação. As oficinas de desenho e poesia abrem espaço para a experimentação, enquanto o sarau reúne diferentes manifestações artísticas no mesmo ambiente.
Para a artista e idealizadora da feira, Celine de Azevedo, criar espaços para mulheres também significa construir memória. “Quando reunimos escritoras, reunimos histórias. Quando escrevemos, registramos um tempo, um espaço e criamos debates. A FLIFEM nasceu como uma feira, mas hoje é uma comunidade. A gente acompanha os lançamentos umas das outras, divulga, fortalece os trabalhos e cria juntas”, afirma.
A iniciativa também coloca em discussão a visibilidade das mulheres no circuito cultural. Embora tenham presença expressiva na produção literária, as autoras ainda enfrentam assimetrias de reconhecimento no mercado editorial, nos festivais e nas premiações. Essas diferenças se aprofundam quando o gênero encontra raça, território e desigualdade social, sobretudo entre mulheres negras, indígenas, periféricas e escritoras do Norte.
“Não queremos valorizar apenas escritoras. A proposta é reconhecer o trabalho intelectual e cultural produzido por mulheres. A literatura caminha ao lado da pintura, da música, da dança e de tantas outras formas de expressão. Quando essas linguagens se encontram, ampliamos também quem é visto, lido e ouvido”, explica Celine de Azevedo.
No ambiente de Melissa e Gustavo, essa perspectiva encontra uma arquitetura que também recusa uma leitura única do território. Barro, madeira, cores inspiradas nos frutos e obras de diferentes artistas compõem um espaço em que matérias e linguagens convivem.
Ao receber a Feira Literária Feminina, essa narrativa ganha outra camada. O Cerrado presente na matéria e nas cores passa também pela palavra, pelo desenho, pela música e pelo corpo. Por algumas horas, o espaço projetado para ser percorrido também será escrito, desenhado, cantado e dançado. Um encontro em que mulheres transformam experiências em arte e inscrevem novas histórias na memória cultural do Tocantins.






