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Home Política

Disputa por fundo eleitoral aprofunda crise interna no PSol

Proposta de divisão aprofundou racha após críticas de Erika Hilton. Partido tenta sobreviver à cláusula de barreira

por Metrópoles
25/06/2026
em Política
Tempo de leitura: 8 minutos
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Divulgação/PSol

Divulgação/PSol

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A divisão de recursos do fundo eleitoral para candidaturas ao Congresso aprofundou a crise interna no PSol. A faísca para a nova disputa foi uma postagem da deputada federal Erika Hilton (PSol-SP), nesta semana, criticando a proposta do comando nacional da sigla para a partilha dos R$ 131,5 milhões de verba pública que o partido receberá em 2026.

Nos bastidores, membros da legenda classificam o episódio como uma “lavação de roupa suja” que expõe divergências antigas sobre os rumos do partido. A principal delas se arrasta desde março deste ano, quando o grupo liderado por Erika e pelo ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, foi derrotado na tentativa de aprovar uma federação partidária com o PT.

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Na publicação, Erika afirmou que a direção tem descumprido acordos e está “praticamente” inviabilizando as candidaturas de seus aliados. A parlamentar comparou os valores destinados à campanha dela com as verbas previstas para nomes com menos tempo de casa ou menor potencial nas urnas.

A parlamentar disse ao Metrópoles que sua corrente interna, a Revolução Socialista, decidiu permanecer no PSol em março sob a promessa de que a executiva daria o suporte necessário para o pleito deste ano.

O pacto buscava assegurar a permanência de puxadores de votos para que o partido supere a cláusula de barreira — mecanismo que asfixia financeiramente siglas que não atingem um patamar mínimo de votos ou de deputados federais eleitos, restringindo o acesso ao fundo partidário e ao tempo de TV.


Desafio em 2026

  • A cláusula de barreira vem ficando mais rígida desde 2018.
  • Esse aumento gradual termina em 2030.
  • Partidos que não atingirem as metas perdem fundo partidário e tempo de TV e rádio.
  • Para manter esses recursos, é preciso cumprir pelo menos um dos critérios da norma.
  •  Em 2026, um deles será alcançar, no mínimo, 2,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, em pelo menos nove estados.
  • O outro será eleger ao menos 13 deputados federais em nove estados diferentes.

A preocupação com a cláusula de barreira tem mobilizado diferentes setores do PSol. Dirigentes afirmam que o desenho da partilha prioriza a Câmara para garantir a sobrevivência do partido. Mais da metade dos R$ 131,5 milhões deverá ser destinada a candidatos a deputado federal.

Em publicação, Erika criticou o fato de ter a mesma “prioridade” orçamentária que Juliano Medeiros, ex-presidente da sigla e atual presidente da federação PSol-Rede, que nunca exerceu mandato parlamentar e disputou apenas as eleições de 2022 como suplente de Márcio França (PSB) ao Senado.

A deputada apontou ainda que Manuela d’Ávila, recém-filiada ao partido e pré-candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul, receberia um montante muito superior ao dela.

“É uma tentativa de asfixiar quem está na linha de frente em detrimento de um perfil de pré-candidaturas bem específico, de grupos que só pensam em si mesmos e estão, mais uma vez, arriscando a viabilidade do PSol”, escreveu a parlamentar paulista.

Proposta de partilha

Segundo apurou a reportagem, pela proposta de distribuição, Erika Hilton teria direito a cerca de R$ 2,3 milhões, enquanto os demais deputados em busca de reeleição receberiam cerca de R$ 2,2 milhões.

Além disso, existe uma categoria de candidaturas consideradas prioritárias pela direção nacional em razão de seu potencial eleitoral. O mecanismo já foi utilizado em 2022.

Nesse grupo, os candidatos receberiam R$ 2 milhões. São eles: o deputado distrital Fábio Felix (DF) e os estaduais Renato Roseno (CE) e Guilherme Cortez (SP), além de Natália Boulos (SP) e Juliano Medeiros.

A justificativa apresentada pela direção nacional é que Natália e Juliano disputariam espaços políticos anteriormente ocupados por lideranças que não concorrerão em 2026. No caso de Natália, a referência é Guilherme Boulos. Já Medeiros é apontado como sucessor do deputado federal Ivan Valente (SP), que encerrou uma trajetória de oito mandatos consecutivos na Câmara.

Já para Manuela d’Ávila, que tem figurado nas primeiras posições nas pesquisas ao Senado, a previsão de repasse é de cerca de R$ 5 milhões.

Os tetos para gastos em candidaturas são definidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que tem até 20 de julho para oficializar os valores. Tradicionalmente, a Justiça Eleitoral utiliza os limites da eleição anterior corrigidos pela inflação.

Por esse critério, uma candidatura à Câmara dos Deputados poderia gastar cerca de R$ 3,8 milhões em 2026, ante aproximadamente R$ 3,1 milhões em 2022. No caso do Senado, os valores variam conforme o estado. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o teto estimado seria de cerca de R$ 5,3 milhões, próximo ao montante previsto para Manuela d’Ávila.

Nos bastidores, dirigentes afirmam que Erika Hilton pleiteava cerca de R$ 3 milhões para a candidatura dela. Sem comentar os valores, a deputada afirmou ao Metrópoles que a proposta inicial da direção ignora a complexidade de uma campanha em São Paulo e os desafios estruturais e de segurança que envolvem candidaturas pretas, femininas e LGBTQIA+.

À reportagem, Erika Hilton também chamou a proposta de partilha de “desrespeito” e disse ter se sentido “violentada e agredida”. A deputada ponderou que a crítica se direciona à falta de interlocução do comando do partido. Nas redes, parlamentares mencionados por Erika, como Renata Souza (RJ), Carlos Giannazi (SP) e Rick Azevedo (RJ), compartilham da mesma insatisfação.

Segundo dirigentes do PSol, a proposta de distribuição dos recursos foi elaborada com base nos critérios historicamente adotados pela legenda em eleições anteriores. A expectativa da direção era aprovar, por consenso, uma resolução sobre o tema durante reunião do diretório nacional prevista para julho.

A repercussão das críticas feitas pelo grupo de Erika Hilton, porém, lançou incertezas sobre o processo. Uma parlamentar do partido, ouvida sob reserva, afirmou que ainda não há definição sobre a convocação da reunião nem sobre o formato da votação da proposta.

Guilherme Boulos (1 milhão de votos) e Erika Hilton (256 mil votos) foram os deputados federais mais votados do PSol na eleição de 2022. Como Boulos não vai disputar o pleito deste ano, já que vai atuar na campanha de reeleição de Lula, a expectativa é que Erika seja a principal puxadora de votos do partido.

“Cavando falta”

Para além do debate financeiro, integrantes de correntes adversárias enxergam uma manobra política por trás do barulho provocado pelo grupo de Erika e Boulos. Sob reserva, dirigentes afirmam que os parlamentares estariam tentando “cavar uma falta” para justificar uma eventual saída do PSol sem correr o risco de perder os mandatos por infidelidade partidária.

Pela legislação eleitoral, os mandatos parlamentares pertencem aos partidos, e não aos eleitos. Por isso, a troca de legenda sem uma “justa causa” reconhecida pela Justiça Eleitoral pode levar à perda do mandato.

A legislação, no entanto, prevê situações em que a mudança partidária é autorizada sem punição. Entre as hipóteses que têm despertado a atenção de dirigentes do PSol estão a existência de grave discriminação política pessoal e o eventual descumprimento da cláusula de barreira.

Membros de correntes internas do PSol ouvidos pelo Metrópoles dizem acreditar que as manifestações do grupo de Erika Hilton e Guilherme Boulos tentam construir uma narrativa de discriminação.

Correligionários deles também apontam incoerência no discurso por Erika omitir, em suas críticas, a proposta de repasse de R$ 2 milhões para Natália Bouloss. “O PSol sabe o tamanho da Erika, da importância dela, mas, se ela está apontando o dedo para o Juliano, também deveria apontar para a Natália, que nunca foi eleita a nada e entrou na prioridade”, criticou um membro da direção.

O distanciamento entre a corrente liderada por Guilherme Boulos e o bloco majoritário do PSol vem se aprofundando nos últimos anos. A ala de Boulos, que no passado controlava a legenda, perdeu espaço e força após o racha sobre a federação com o PT.

Segundo aliados, o grupo tem mantido conversas com outros partidos e avalia migrar para outra legenda após o desfecho deste ciclo eleitoral.

Em nota, a direção nacional do PSol reiterou que a proposta de distribuição dos recursos está “em conformidade” com os objetivos eleitorais do partido e tem como foco ampliar a representação da legenda e “derrotar a extrema-direita” nas eleições de outubro.

O partido também destacou que Erika Hilton está entre as candidaturas que mais receberão recursos do fundo eleitoral e afirmou que o modelo ainda será submetido às instâncias internas para deliberação.

“[O PSol] posiciona a campanha de Érika Hilton como maior investimento entre todas as candidaturas proporcionais do partido, diante do limite de recursos disponíveis e da necessidade de financiamento das demais candidaturas, tanto majoritárias quanto proporcionais em todas as Unidades da Federação”, afirmou a legenda.

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