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Netflix: quem é João Saldanha, destaque em Brasil 70 – A Saga do Tri

Conhecido como “João Sem Medo”, o técnico enfrentou o regime militar e classificou o Brasil para a Copa de 1970

por Metrópoles
09/06/2026
em Brasil
Tempo de leitura: 5 minutos
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Lívia Villas Boas/Staff Images Woman/CBF

Lívia Villas Boas/Staff Images Woman/CBF

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Um dos personagens centrais retratados na série Brasil 70 – A Saga do Tri, da Netflix, João Saldanha, marcou a história do futebol brasileiro ao comandar a Seleção Brasileira durante a campanha das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1970.

Jornalista, comentarista esportivo, dirigente e técnico de futebol, ele ficou conhecido pelo apelido de “João Sem Medo”, dado por Nelson Rodrigues em referência à sua personalidade forte e às frequentes críticas que fazia a dirigentes, autoridades e figuras do próprio esporte.

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Nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1917, Saldanha teve seus primeiros contatos com o futebol ainda na infância, quando a família se mudou para Curitiba. A casa onde morava ficava próxima ao campo do Athletico Paranaense, onde costumava acompanhar os treinos das categorias de base.

Na capital paranaense, também participou das tradicionais peladas de rua e conviveu com o ambiente esportivo que ajudaria a moldar sua paixão pelo futebol.

Em 1928, a família retornou ao Rio Grande do Sul e, anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro após a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Foi na então capital federal que Saldanha iniciou sua trajetória política, filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Militante ativo, tornou-se secretário-geral da União da Juventude Comunista, foi preso e fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em 1947 e se consolidou como um dos mais conhecidos opositores da ditadura militar brasileira.

Antes de se destacar como jornalista, Saldanha teve breve passagem como jogador profissional do Botafogo. Formado em Direito pela antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, também estudou Jornalismo e construiu uma carreira de destaque na imprensa esportiva.

No Botafogo, onde também atuou como dirigente, Saldanha aprendeu conceitos táticos com o técnico húngaro Dori Kürschner. Em 1957, mesmo sem experiência como treinador, assumiu o comando da equipe alvinegra e conquistou o Campeonato Carioca em uma campanha histórica, encerrada com uma goleada por 6 a 2 sobre o Fluminense.

O elenco contava com nomes como Garrincha, Didi e Nilton Santos.

Durante a ditadura militar, ele acumulou atritos com dirigentes da então CBD, presidida por João Havelange, e com o presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici.

Trajetória na Seleção Brasileira

Em 1969, recebeu a missão de reconstruir a equipe brasileira após o fracasso na Copa do Mundo de 1966.

Esse, aliás, é o ponto de partida da série da Netflix. Saldanha é retratado procurando Pelé no campo de futebol. Após a campanha ruim na Copa na Inglaterra, o Rei do Futebol tinha anunciado que não disputaria mais um torneio mundial. A série mostra Saldanha convencendo o jogador do Santos a disputar a Copa do México.

Com Pelé e outros nomes fortes no grupo, a Seleção rapidamente conquistou resultados expressivos. Sob liderança de Saldanha, o Brasil teve 100% de aproveitamento nas Eliminatórias para o Mundial do México, vencendo os seis jogos disputados e garantindo a classificação de forma invicta.

As chamadas “feras de Saldanha” encantaram a torcida com um futebol ofensivo e envolvente. Em pleno auge dos anos de chumbo, sua presença no comando da Seleção era vista como uma contradição dentro de um país governado por militares.

A campanha perfeita incluiu vitórias sobre Colômbia, Venezuela e Paraguai, com 23 gols marcados e apenas dois sofridos. O desempenho consolidou a base da equipe que mais tarde conquistaria o tricampeonato mundial e entraria para a história como uma das maiores seleções de todos os tempos.

O episódio mais famoso ocorreu quando Médici manifestou o desejo de ver o atacante Dadá Maravilha convocado para a Seleção. Questionado sobre a sugestão do presidente, Saldanha respondeu com uma frase que se tornaria histórica: “Nem eu escalo ministério e nem o presidente escala time”.

A declaração simbolizou o confronto entre o treinador e o regime militar e ajudou a consolidar sua imagem de independência diante do poder.

Outro foco de tensão envolvia Pelé. Apesar de reconhecer a importância do camisa 10, Saldanha mantinha divergências sobre a forma como o craque deveria atuar.

O treinador queria que Pelé jogasse mais avançado, enquanto o jogador preferia atuar mais recuado, participando da armação das jogadas. As discordâncias se tornaram públicas quando Saldanha passou a questionar a condição física e até a visão do atleta, afirmando que ele era míope e teria dificuldades em determinadas situações de jogo.

A polêmica gerou enorme repercussão e contribuiu para o desgaste da relação entre treinador e principal estrela da Seleção.

A chegada de Zagallo

Apesar da campanha invicta e do apoio de parte da torcida, Saldanha acabou demitido em março de 1970, menos de três meses antes do início da Copa do Mundo. Entre os motivos apontados para sua saída estão os conflitos políticos, os desentendimentos com dirigentes da CBD, a polêmica envolvendo Dadá Maravilha e o desgaste de sua relação com parte do elenco.

Em seu lugar, assumiu Mário Zagallo, que conduziu a Seleção ao tricampeonato no México.

Mesmo sem comandar o Brasil na Copa, João Saldanha é lembrado por muitos historiadores e cronistas esportivos como o homem que montou a base da equipe campeã de 1970. Sua contribuição para o futebol brasileiro e sua postura firme diante do poder fizeram dele uma das figuras mais marcantes da história do esporte nacional.

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