Ao comemorar 100 anos, um dos principais criatórios de gado Angus do país irá contribuir com a qualidade da carne na Europa. A Cabanha São Bibiano, de Uruguaiana (RS), fez uma venda inédita de um animal da raça para um criador de Portugal na última semana. A vaca Elizabeth II FIV8738 foi arrematada por R$ 153 mil durante o leilão comemorativo ao centenário da fazenda, fundada em 1926.
O negócio foi fechado no dia 20 de maio, durante a programação da Expoutono, no município da Fronteira Oeste gaúcha. O animal foi adquirido pela Agriangus, empresa fundada em 2012 na cidade de Tomar, na província de Ribatejo. Os compradores acompanharam o remate em tempo real, pela transmissão ao vivo.
A comercialização foi possibilitada pela intermediação do leiloeiro Pedro Bastos, que comandou o martelo. Após uma gira realizada em Portugal, no ano passado, ele foi convidado a conduzir as vendas no pregão da Agriangus, em abril deste ano.
“Falei para eles que faltava uma genética brasileira, que o clima daqui é muito mais parecido do que a genética americana, canadense e argentina que eles estavam usando”, explica Pedro. Quando se deparou com a oferta do leilão da São Bibiano, o leiloeiro avisou o criador português: “tem uma vaca aqui que serve para vocês”.
De acordo com Pedro, o cliente saiu satisfeito com a compra, embora não esperasse pagar esse valor. Porém a disputa com outros compradores no momento que a novilha entrou em pista acabou inflacionando o preço do animal. “Eles trabalham (Agriangus) com genética visando melhorar carne na Europa. Estão produzindo muito touro pra trabalhar com o gado crioulo de lá, que é muito improdutivo”, explica o leiloeiro.
A novilha está prenhe do touro Justification e é filha Stock Fund, um dos 15 melhores touros do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo). A mãe dela é descendente de Gran Sudeste, terceiro melhor macho da Feira de Palermo (Argentina) em 2008.
Elizabeth II foi batizada com esse nome em homenagem à antiga rainha da Inglaterra, falecida em 2022, que nasceu em 1926 – mesmo ano de fundação da São Bibiano. A novilha foi a terceira melhor terneira Angus da Expointer 2025, em Esteio (RS), e irá completar dois anos em julho.
“Era uma ocasião especial, um remate comemorativo, então procuramos pegar realmente um lote de bichos de ponta. Ela era a melhor da turma das irmãs dela. Foi premiada na Expointer do ano passado e seguiu evoluindo bem”, afirma o criador Antônio Martins Bastos Neto, um dos titulares da cabanha.
O pai dele, Antônio Martins Bastos Filho (Antoninho), falecido no ano passado, foi uma das principais referências do país na criação de Angus. Em 1969, ele importou da Escócia o touro Easel of Buchaam, campeão júnior da exposição de Perth.
Preparação para feiras
Embora os portugueses sejam os novos donos da novilha, o animal irá permanecer na Cabanha São Bibiano. No momento, Elizabeth II se prepara para participar da Expointer 2026, em Esteio (RS), e do Congresso Mundial de Angus, no ano que vem.
Depois que a novilha parir, o que deve ocorrer em setembro, terá início a coleta de embriões, que serão encaminhados aos novos proprietários. “Em um botijão cabem 150 embriões. Se ele for comprar embriões de diferentes vacas, cada uma tem um custo. Ele pensou: vale mais a pena comprar uma vaca e encher um botijão de embriões dela do que comprar a genética de várias vacas”, justifica o leiloeiro.
Uma vaca jovem como essa tem uma vida inteira de coleta. Se nós tivermos sorte que seja uma boa produtora de embriões, ela pode produzir muitos animais, com diversos pais.
— Antônio Martins Bastos Neto
Pedro Bastos acredita que a negociação de Elizabeth II poderá representar a abertura de um novo mercado para o Angus brasileiro. “A Agriangus está abrindo uma oportunidade de os clientes europeus olharem o Brasil com outra com outros olhos”, observa.
Tradição centenária
Um dos mais tradicionais criatórios de Angus do Brasil, a Cabanha São Bibiano foi fundada em 1926, em Uruguaiana. Aquele foi o ano do casamento entre Leonor Benício e Antônio Martins Bastos.
“Não sabemos o dia certo, mas estabelecemos que o dia do centenário é o dia do casamento dos meus avós. Ao se casarem, eles estabeleceram a cabanha”, conta Antônio Martins Bastos Neto. O nome do empreendimento foi escolhido em homenagem ao pai de Leonor, Bibiano Benício da Silva, antigo dono daquelas terras.
Tradição na pecuária
Referência na raça Angus e pioneiro no Brangus, o criador Antônio Martins Bastos Filho (Antoninho) faleceu no ano passado, aos 85 anos. A administração da cabanha permanece nas mãos da família, com os sucessores Antônio Martins Bastos Neto, Maria do Horto Bastos Kuhn e Ana Maria Bastos Giudice, ao lado de seus cônjuges e filhos.
Além da bovinocultura, o empreendimento atua na criação de ovinos e cavalos Crioulos. A fazenda também expandiu suas atividades para a agricultura, incorporando o cultivo de arroz.







