A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês) é uma entidade intergovernamental que integra a Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma das suas responsabilidades é classificar quais produtos têm maiores riscos de câncer. Essa classificação é feita através de um processo detalhista, que reúne pesquisadores independentes.
Por meio da análise de pistas relacionadas a estudos em seres humanos, células, animais ou evidências laboratoriais, a instituição produz uma lista que separa os produtos em grupos de 1 a 3.
O grupo 1 reúne itens que contêm o maior potencial cancerígeno – atualmente, há 135 agentes listados nele.
Recentemente, alguns posts passaram a divulgar que produtos comuns do dia a dia eram cancerígenos. Entre eles, estavam talco, aromatizadores de ambientes, carnes processadas e panelas de teflon. No entanto, segundo especialistas ouvidos pelo Metrópoles, a composição química e o contexto de exposição são essenciais para determinar se o item é realmente cancerígeno.
“Essas classificações precisam ser interpretadas com cuidado: é importante alertar e prevenir riscos, mas sem gerar alarmismo desnecessário diante de exposições pequenas ou ocasionais”, alerta a oncologista clínica Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
Dos produtos mais citados, apenas as carnes processadas, como salsicha, bacon, presunto, salame e linguiça, são itens bem estabelecidos pela OMS como realmente cancerígenos. Segundo a organização, existem evidências suficientes para a classificação.
Veja alguns dos produtos na lista de carcinogênicos
Talco
No caso do talco, tudo depende da sua composição. Segundo especialistas, quando há amianto na fórmula, a depender do contexto, o usuário tem risco de desenvolver câncer. Existe comprovação de que a substância é cancerígena. Os outros talcos feitos sem o amianto ainda permanecem sob investigação.
“A suspeita maior é sobre o uso na região íntima feminina e o risco de câncer de ovário. A orientação mais prudente é evitar o uso de talco na região íntima. Não há motivo para pânico com o uso eventual do produto em outras partes do corpo”, afirma o oncologista Rafael Castro, do Hospital Santa Lúcia Norte, de Brasília.
Panela de teflon
A preocupação com o teflon é semelhante à do talco. Somente algumas substâncias usadas na fabricação de produtos com revestimento antigo são considerados perigosas. “Não significa que qualquer panela antiaderente moderna cause câncer. A preocupação maior envolve exposições ambientais mais intensas e prolongadas”, aponta a presidente da SBOC.
Aromatizadores de ambiente
Como nos casos anteriores, o risco também dependerá da composição. O produto em si não está no grupo 1 da IARC, porém itens feitos com formaldeído e benzeno, substâncias reconhecidamente cancerígenas, são considerados mais perigosos.
“O risco real para o consumidor está mais ligado à exposição prolongada em ambientes fechados e sem ventilação do que ao uso ocasional. Se você usa aromatizador em casa, prefira ambientes arejados, use com moderação e, se possível, opte por versões com menos compostos orgânicos voláteis na composição”, aconselha Castro.
Contexto da exposição é primordial
Utilizar um produto com risco cancerígeno poucas vezes na vida não significa que há maiores possibilidades de desenvolver câncer. Na verdade, segundo Clarissa, quanto maior o tempo, a intensidade e a frequência da exposição aos carcinógenos, maior tende a ser o risco. Além disso, fatores individuais de cada pessoa influenciam diretamente no progresso ou não do câncer.
“A classificação da IARC não diz a dose necessária, não diz a potência da substância, não diz o risco absoluto para a população e não faz recomendações regulatórias. Ela é um alerta, o primeiro passo de um processo, não o veredito final”, explica Castro.
Atualmente, ações ou fatores que comprovadamente podem aumentar o risco de câncer e que devem ser evitadas ou acompanhadas de perto são:
- Tabagismo;
- Consumo excessivo de álcool;
- Obesidade;
- Sedentarismo;
- Alimentação rica em ultraprocessados;
- Exposição solar sem proteção;
- Infecções associadas ao câncer, como HPV e hepatite B.
“Muitas vezes é mais importante focar nessas medidas comprovadamente eficazes do que ter medo isolado de uma exposição pontual a um potencial carcinógeno em baixa quantidade”, conclui a presidente da SBOC.





