Os alertas colocados na parte da frente das embalagens de alimentos ganharam espaço em vários países como ferramenta para ajudar consumidores a identificar produtos com excesso de açúcar, gordura ou sódio.
Embora a estratégia tenha potencial para incentivar escolhas mais saudáveis, uma nova revisão científica concluiu que ainda há poucas evidências de que ela consiga reduzir diferenças no consumo de açúcar entre pessoas de diferentes níveis socioeconômicos.
O estudo foi publicado em 19 de maio na revista Obesity Reviews e liderado por pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália. O objetivo foi avaliar se a rotulagem frontal dos alimentos influencia a compra e o consumo de produtos açucarados de maneira diferente entre grupos mais ricos e mais pobres.
Para responder à questão, os autores analisaram 7.701 estudos. Após a aplicação dos critérios de seleção, apenas 10 estudos foram incluídos na análise final. Os trabalhos avaliavam o impacto da rotulagem frontal sobre a compra ou o consumo de produtos com açúcar, levando em consideração fatores socioeconômicos, como renda, escolaridade ou condição social dos participantes.
A maioria das pesquisas analisadas investigou sistemas de alerta nutricional na parte frontal das embalagens, utilizados para destacar quando um alimento contém níveis elevados de nutrientes considerados críticos para a saúde.
Informação sozinha nem sempre muda hábitos
Segundo os autores, os resultados encontrados foram inconsistentes. Parte dos estudos sugeriu que a rotulagem frontal teve maior impacto entre pessoas de nível socioeconômico mais elevado.
Outros apontaram benefício maior entre grupos socialmente mais vulneráveis. Também houve pesquisas que não encontraram diferenças significativas entre os grupos analisados.
Diante da diversidade dos resultados e da qualidade limitada das evidências disponíveis, os pesquisadores concluíram que ainda não há base científica suficiente para afirmar que os rótulos frontais reduzem desigualdades socioeconômicas relacionadas ao consumo ou à compra de açúcar.
Os pesquisadores destacam que a decisão de compra de alimentos envolve fatores que vão além das informações presentes nas embalagens. Preço dos produtos, disponibilidade de opções saudáveis, acesso aos alimentos e exposição ao marketing de ultraprocessados podem influenciar as escolhas alimentares e limitar o impacto da rotulagem em determinados grupos da população.
Segundo os pesquisadores, os rótulos frontais podem contribuir para escolhas mais saudáveis em nível populacional, mas dificilmente serão capazes de reduzir desigualdades sociais sem o apoio de outras medidas.
O que ainda precisa ser estudado
Os autores afirmam que são necessárias pesquisas mais robustas para compreender como diferentes grupos sociais respondem à rotulagem frontal ao longo do tempo.
A conclusão da revisão não indica que os rótulos sejam ineficazes. O trabalho sugere, porém, que a ferramenta, sozinha, pode não ser suficiente para reduzir desigualdades relacionadas ao consumo de açúcar.
Para os pesquisadores, estratégias complementares, como políticas de acesso a alimentos saudáveis e outras ações de saúde pública, podem ser necessárias para ampliar os benefícios da rotulagem nutricional entre diferentes segmentos da população.







