Durante décadas, cientistas acreditaram que os danos neurológicos e da medula espinhal eram, em grande parte, irreversíveis. Agora, um estudo liderados por pesquisadores da Universidade de Cambridge, nos Estados Unidos, sugere que essa limitação pode não ser definitiva.
Utilizando um modelo humano cultivado em laboratório, os pesquisadores conseguiram identificar mecanismos responsáveis pela perda da capacidade de regeneração dos neurônios e reativar parcialmente o crescimento de fibras nervosas após lesões.
O trabalho, publicado no último dia 23/5 na revista científica Cell Reports, ainda está longe de representar uma cura para paralisias ou lesões medulares. No entanto, oferece novas pistas sobre como estimular a recuperação do sistema nervoso central, uma das maiores dificuldades da medicina regenerativa.
Estrutura desenvolvida pelos pesquisadores
Os pesquisadores desenvolveram uma estrutura tridimensional chamada “connectoid”, formada por organoides produzidos a partir de células-tronco humanas. O modelo reproduz uma das principais vias responsáveis pelos movimentos voluntários do corpo: o trato corticoespinal, que conecta o cérebro à medula espinhal.
No experimento, tecidos equivalentes ao cérebro e à medula foram cultivados separadamente, mas ligados por axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais nervosos. Com o passar do tempo, essas fibras cresceram e estabeleceram conexões funcionais entre as duas estruturas.
Segundo os cientistas, o circuito formado foi capaz até mesmo de provocar contrações em pequenos agrupamentos musculares cultivados em laboratório, demonstrando que a comunicação entre os tecidos estava funcionando.
A equipe acompanhou o desenvolvimento do modelo por mais de um ano para entender quando os neurônios humanos perdem a capacidade de se regenerar.
Os resultados mostraram que, até cerca de 150 dias de maturação — período equivalente ao segundo trimestre da gestação humana — os axônios ainda conseguiam crescer novamente após uma lesão. Depois dessa fase, a capacidade regenerativa diminuiu significativamente.
O achado sugere que a perda da regeneração não ocorre de forma repentina, mas acompanha o amadurecimento natural dos neurônios e a estabilização das conexões nervosas.
O freio genético da regeneração
Para descobrir o que provocava essa mudança, os pesquisadores analisaram a atividade genética dos neurônios que formavam o circuito entre cérebro e medula. A investigação identificou uma rede de genes que atua como um mecanismo de bloqueio ao crescimento dos axônios.
Conforme os neurônios amadurecem, essa rede torna-se mais ativa e reduz a capacidade de regeneração. Ao interferirem em reguladores centrais desse processo, os cientistas conseguiram restaurar parte do crescimento das fibras nervosas após lesões experimentais, demonstrando que o bloqueio não é necessariamente permanente.
Os pesquisadores também utilizaram ferramentas computacionais para buscar substâncias capazes de atuar sobre os genes envolvidos na regeneração. Entre os compostos identificados estava o linestrenol, medicamento hormonal já utilizado como tratamento de algumas condições ginecológicas e como contraceptivo.
Nos experimentos, a substância aumentou significativamente o crescimento dos axônios lesionados. Os autores ressaltam, porém, que o resultado não significa que o medicamento possa ser usado diretamente para tratar lesões medulares. Novos estudos serão necessários para avaliar segurança, eficácia e possíveis aplicações clínicas.
O que a descoberta pode mudar
Lesões do cérebro e da medula espinhal frequentemente provocam sequelas permanentes porque os neurônios do sistema nervoso central têm capacidade limitada de regeneração.
Para os pesquisadores, o modelo permite investigar mecanismos humanos que não são totalmente reproduzidos em animais de laboratório. Isso pode ajudar a acelerar o desenvolvimento de estratégias para doenças neurológicas e lesões traumáticas.
Embora ainda esteja restrita ao laboratório, a descoberta demonstra que parte dos mecanismos responsáveis pela incapacidade de regeneração dos neurônios pode ser modificada. O resultado abre caminho para futuras pesquisas voltadas à recuperação de conexões nervosas perdidas após danos ao cérebro ou à medula espinhal.







