Goiânia – Um suposto esquema de exploração ilegal de ouro em larga escala em uma fazenda na zona rural da Cidade de Goiás (GO), foi denunciado formalmente à Polícia Federal, ao Ministério Público e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Conforme a denúncia, as atividades de lavra mineral estariam sendo realizadas sem autorização legal dos órgãos de fiscalização, há pelo menos dois anos, na Fazenda São José do Descanso, que possui requerimento de pesquisa mineral, no entanto, não tem concessão para exploração.
A denúncia aponta ainda uma série de possíveis danos ambientais. Entre eles, desmatamento identificado por sistemas de monitoramento como o DETER/INPE e o SAD Cerrado, além da suspeita de desvio de curso d’água e construção irregular de barragens.
Imagens de satélite
A denúncia foi apresentada ao Metrópoles por uma pessoa que preferiu não se identificar. O documento reúne indícios técnicos, imagens de satélite, registros audiovisuais e relatos que sugerem a operação contínua de garimpo na zona rural da Cidade de Goiás.
Conforme a denúncia, imagens aéreas e inspeções visuais indicam a presença de escavações profundas, maquinário pesado, barragens e estruturas compatíveis com mineração ativa, e não com simples pesquisa mineral, como previsto na autorização vigente.
Outro ponto considerado grave é o suposto uso indevido de um alvará de pesquisa vinculado a outra área, o que poderia caracterizar tentativa de induzir fiscalizações ao erro. A denúncia também menciona que a titularidade formal de um dos processos minerários pertence a uma empresa distinta, levantando dúvidas sobre a legalidade da operação conduzida na propriedade.
Danos ambientais
Um dos aspectos mais alarmantes apresentados na denúncia é a possível utilização de mercúrio no processo de extração do ouro, substância altamente tóxica e proibida em diversas circunstâncias. Caso confirmada, a prática pode representar risco direto de contaminação de solos, lençóis freáticos e rios que integram a Bacia do Rio Araguaia, além de impactos severos à fauna, flora e à saúde humana.
Além da Fazenda São José do Descanso, a denúncia cita uma segunda propriedade, a Fazenda São Felipe, que também estaria sendo utilizada para atividades semelhantes. Segundo relatos de moradores, haveria uma alternância entre as áreas como estratégia para dificultar ações de fiscalização ambiental, o que, se comprovado, pode indicar atuação sistemática e organizada.
Vale ressaltar que o Brasil é signatário da Convenção de Minamata, que estabelece restrições rigorosas ao uso de mercúrio na mineração, o que amplia a gravidade das suspeitas.
Irregularidades trabalhistas
Outro levantamento apontado pela denúncia é o de suspeitas sobre condições de trabalho nas áreas de garimpo, incluindo possíveis vínculos informais e até situações análogas à escravidão. O ponto motivou o pedido de atuação conjunta com o Ministério Público do Trabalho.
Há ainda sugestão de investigação sobre movimentações financeiras do investigado, incluindo possível lavagem de dinheiro, considerando que o ouro extraído, em tese, não teria origem legal comprovada.
Desdobramentos
Por envolver possíveis crimes ambientais, exploração de recursos minerais da União e impactos em bacias hidrográficas federais, o caso pode avançar na esfera federal, com atuação coordenada entre Polícia Federal, Ministério Público, Ibama e outros órgãos de controle.
Se confirmadas, as irregularidades podem resultar em sanções penais, administrativas e ambientais, além de multas e suspensão de atividades, sem prejuízos de sanções outras.
As investigações ainda estão em fase inicial, e a veracidade dos fatos dependerá da apuração oficial dos órgãos competentes.
O Metrópoles entrou em contato com o proprietário da Fazenda São José do Descanso, José Maria Berquó Filho, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para a manifestação.







