A promessa de regeneração neuronal associada à polilaminina viralizou nas redes sociais nas últimas semanas e reacendeu o debate sobre a possibilidade de reverter paralisias e lesões medulares.
Os vídeos nas redes sugerem avanços capazes de restaurar movimentos perdidos, mas os especialistas de saúde ouvidos pelo Metrópoles lembram que apesar do tema ser muito importante, tratar paralisias não é algo tão simples assim.
O que são paralisias?
A palavra paralisia costuma ser usada para indicar a perda de uma função que dependia do sistema nervoso causada por lesões medulares. Essa perda pode afetar movimentos, sensibilidade ou até funções mais específicas, como percepção de cheiros e sabores.
Para que qualquer ação aconteça, o cérebro precisa enviar um comando que percorre um caminho definido: sai do encéfalo, passa pela medula espinhal e segue pelos nervos até chegar nos músculos, órgãos ou na pele.
Quando existe uma lesão em qualquer ponto desse trajeto, a mensagem não consegue completar o percurso — é como se a ligação entre dois pontos fosse interrompida. Sem que o sinal chegue ao destino, o corpo não executa a tarefa.
Por que o sistema nervoso quase não se regenera?
Diferente da pele ou do fígado, o cérebro e a medula espinhal têm capacidade muito limitada de reconstrução em casos de paralisias. O sistema nervoso central praticamente não dispõe de células capazes de substituir neurônios destruídos depois de uma lesão e isso faz com que o tratamento por si só já seja mais complexo.
“Quando há uma lesão no cérebro ou na medula, as células nervosas que foram destruídas não são repostas. Para que acontecesse a regeneração, seria necessário ter células capazes de se transformar em novos neurônios e um ambiente biológico que favorecesse esse processo, algo que o sistema nervoso central não oferece de forma natural para a recuperação de paralisias”, explica o neurocirurgião Orlando Maia, membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN).
Em outras palavras, não basta ter só células com potencial de transformação. É preciso que exista um conjunto de condições químicas e estruturais que permita essa diferenciação e integração com o circuito nervoso — cenário que não ocorre de forma espontânea no cérebro e na medula.
Nos nervos periféricos — que ficam fora do cérebro e da medula espinhal e funcionam como “fios” que levam os comandos —, quando a lesão é incompleta, ainda pode haver algum grau de reconexão. Já nas estruturas centrais, como o próprio cérebro e a medula, essa possibilidade é bastante reduzida.
Tecido de proteção após lesões medulares
Caso ocorra uma lesão no cérebro ou na medula espinhal, o próprio organismo reage criando um tecido de proteção chamado cicatriz glial. Essa estrutura surge no local do dano como uma tentativa de conter a inflamação e evitar que a área afetada se amplie.
O problema é que essa cicatriz funciona como uma barreira física e química. Em vez de permitir que as extremidades do tecido nervoso voltem a se conectar, ela isola uma parte da outra, interrompendo qualquer possibilidade de reconstrução natural do circuito.
Essa resposta é importante para proteger a região lesionada, mas acaba dificultando a comunicação entre as células nervosas — e esse é um dos principais motivos pelos quais a regeneração completa ainda não é possível na maioria dos casos.
Neuroplasticidade e o que o cérebro consegue compensar
Como o sistema nervoso não consegue repor neurônios que foram destruídos, ele tenta se adaptar ao que restou — esse processo, na área da neurologia, é chamado de neuroplasticidade.
Na prática, áreas do cérebro que não foram atingidas podem reorganizar suas funções e formar novas conexões para tentar assumir parte das tarefas que se perderam. É como se fosse uma forma de compensação em que o cérebro redistribui funções para manter algum nível de funcionamento.
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas recuperam parte dos movimentos depois de fisioterapia e reabilitação. Mesmo assim, essa adaptação não é milagrosa: o tecido que foi destruído não volta a existir, e as novas conexões não substituem completamente o circuito original. Por isso, a recuperação costuma ser parcial e depende do tamanho e de onde foi a lesão.
O que a medicina já faz e o que ainda é experimental
Atualmente, o tratamento das lesões medulares tem como principal objetivo recuperar o máximo possível de função. Em muitos casos, avanços pequenos já fazem muita diferença: movimentar parcialmente a mão, melhorar o controle da bexiga ou recuperar parte da capacidade respiratória pode significar mais autonomia no dia a dia.
“A reabilitação intensiva, cirurgias em situações específicas e terapias de suporte fazem parte da prática médica, mas esses recursos não recriam neurônios perdidos. O que eles fazem é ajudar o organismo a aproveitar melhor as estruturas que permanecem preservadas”, ressalta o neurocirurgião Felippe Saad, do Hospital Albert Sabin, em São Paulo.
Paralelamente, existem pesquisas que tentam ir além da compensação. Estudos com células-tronco buscam estimular a formação de novas conexões e outras linhas investigam substâncias capazes de favorecer a regeneração em casos de paralisias causadas por lesões medulares.
Apesar desses progressos, a regeneração completa do tecido nervoso ainda não foi comprovada de forma segura e eficaz em humanos. Cada nova abordagem precisa passar por etapas rigorosas de teste antes de chegar à prática clínica. Por isso, tratar paralisias continua sendo um desafio que envolve muitos limites biológicos.





