A corretora de imóveis Daiane Alves vinha reunindo provas de conflitos com o síndico do condomínio onde morava, Cleber Rosa, antes de ser morta em Caldas Novas (GO). A vítima registrava intimidações e desentendimentos por meio de vídeos e mensagens. No momento do ataque, inclusive, ela fazia uma gravação no subsolo do prédio – elemento que reforça a condição de “vítima premeditada”. Os investigadores chegaram a afirmar que Daiane foi “testemunha do próprio homicídio”.
As investigações concluídas pela Polícia Civil de Goiás (PCGO), nessa quinta-feira (19/2), apontam que o crime foi planejado e executado por meio de emboscada. De acordo com a apuração, o síndico teria desligado o quadro de energia do apartamento da corretora para forçá-la a descer até o subsolo. A provocação, conforme a polícia, já havia sido repetida em outras ocasiões.
Daiane saiu do apartamento registrando em vídeo o trajeto até o subsolo. No local, o síndico já a aguardava. Em um trecho da gravação, ela comenta ao avistá-lo. Conforme a investigação, Cleber estava encapuzado, usava luvas e deixou a carroceria de uma caminhonete aberta próxima ao ponto onde pretendia render a corretora.
“Bom, cheguei na recepção, a Equatorial não veio cortar [a energia], claro que tá pago. Agora eu vou descer lá embaixo pra ver se o disjuntor está desligado. Vou apertar aqui e vou gravar. Vou atrás do disjuntor do 402 e a gente vai filmar. Ah, olha quem eu encontro [momento em que Daiane vê o síndico].”
Conforme as imagens, ela, então, prossegue: “Acabei de perder minha energia no 402. Vamos lá. Vamos ver se essa brincadeira tá continuando. Vamos ver. Vamos achar aqui… 409, 404, não sei se o 402 tá aqui, mas o síndico tá aqui embaixo, isso eu sei. Acho que o 402 fica aqui. Vamos lá ver se tem alguém brincando de desligar as coisas”.
Essas foram as últimas palavras da corretora antes de ser atacada por Cleber. Na sequência, a gravação registra apenas gritos.
Motivação
A Polícia Civil concluiu o inquérito e afirmou que o homicídio foi premeditado pelo autor. Cleber deverá responder por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver. Segundo a investigação, a motivação do crime está ligada a disputas entre a corretora e o síndico do condomínio. Daiane administrava seis apartamentos da família no local e atuava com locações.
De acordo com o delegado André Luiz Barbosa, o síndico tentou afastá-la da administração e proibiu que ela utilizasse as áreas comuns para trabalhar no condomínio.
Antes do assassinato, o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) também havia denunciado o síndico por perseguição contra Daiane. Segundo a denúncia, ele teria usado o cargo administrativo para vigiá-la e submetê-la a constrangimentos.
Como ocorreu o assassinato
Daiane desapareceu na noite de 17 de dezembro, depois de descer ao subsolo do prédio para verificar uma queda de energia no apartamento onde morava. Câmeras de segurança mostram que ela entrou no elevador, passou pela portaria e conversou com o recepcionista sobre o problema.
Depois disso, voltou ao elevador e seguiu para o subsolo. A partir desse momento, não houve mais registros dela saindo do prédio ou retornando ao apartamento.
Durante o trajeto, ela gravou um vídeo e enviou para uma amiga, mostrando o apartamento sem energia elétrica e o caminho até o elevador.
Segundo a investigação, os disparos que causaram a morte não ocorreram dentro do prédio, mas provavelmente em uma área de mata. A arma usada foi uma pistola .380 semiautomática. A vítima foi atingida por dois tiros na região da mandíbula. Um projétil ficou alojado na cabeça e outro saiu pelo lado esquerdo.
Desaparecimento e investigação
Após o desaparecimento, a família registrou boletim de ocorrência na noite do dia seguinte. Daiane havia combinado de se encontrar com a mãe em 18 de dezembro para discutir as locações de fim de ano, mas não apareceu.
Familiares disseram que ela deixou a porta do apartamento aberta quando saiu para verificar a falta de energia, indicando que pretendia voltar rapidamente. Quando a família chegou ao local, porém, a porta já estava trancada.
Durante a investigação, a polícia quebrou o sigilo bancário e verificou que não houve movimentações financeiras após o desaparecimento. Também foram feitas buscas na região do prédio e análises do celular da vítima, sem novos sinais.
Confissão
O corpo de Daiane foi encontrado pela Polícia Civil em 28 de janeiro, em uma área de mata a cerca de 15 quilômetros de Caldas Novas, depois de mais de 40 dias de buscas.
Segundo a investigação, o síndico confessou o crime e indicou aos policiais o local onde havia deixado o corpo, encontrado em avançado estado de decomposição.
Em depoimento, ele relatou que matou a corretora após uma discussão no subsolo do prédio, no dia 17 de dezembro. Disse ainda que agiu sozinho e que, após o crime, colocou o corpo na carroceria de sua picape e deixou o condomínio.
De acordo com a Polícia Civil, ele deve responder por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver. Em nota, a defesa de Cleber Rosa de Oliveira informou que ainda não teve acesso a todos os documentos do processo e que vai se manifestar após a análise completa do conteúdo.







