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Paralisias: por que a recuperação de movimentos é tão desafiadora

Metrópoles por Metrópoles
10/02/2026
em Saúde
Tempo de leitura: 6 minutos
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Foto: Freepik

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No início de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de um estudo clínico de fase 1 com a polilaminina, biomaterial derivado de uma proteína encontrada na placenta que está sendo investigado como potencial aliado na regeneração da medula espinhal.

A substância, desenvolvida por uma parceria entre pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a farmacêutica brasileira Cristália, vem sendo tratada como uma nova esperança para pessoas com paralisia.

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O estudo é apenas o início dos testes em humanos, que costumam se dividir em quatro fases. A primeira avalia a segurança da substância, com poucos voluntários; a segunda observa sua eficácia em pacientes com a condição-alvo; a terceira amplia o número de participantes para validar os resultados em escala; e a quarta, já com o produto no mercado, acompanha efeitos adversos raros e aqueles que só aparecem com uso mais disseminado. Se tudo correr conforme o esperado, a expectativa da fabricante é comercializar a polilaminina entre 2027 e 2028.

O estudo da substância é um dentre vários esforços para tentar enfrentar um dos maiores desafios da neurologia: restaurar, ao menos em parte, a comunicação entre cérebro e músculos após lesões graves. Embora a ideia de “cura da paralisia” ainda esteja distante da prática clínica, os últimos anos trouxeram mudanças relevantes tanto na compreensão do problema quanto nas estratégias para lidar com ele.

Segundo o neurocirurgião Arthur Werner Poetscher, do Einstein Hospital Israelita, o principal objetivo das pesquisas atuais não é apenas devolver movimentos isolados, mas ampliar a autonomia funcional no dia a dia.

“O grande game changer é fazer o paciente que está na cadeira de rodas ou na cama conseguir ficar de pé e andar sem auxílio”, afirma Poetscher. “Mas outros ganhos aparentemente menores também podem permitir melhoras funcionais significativas”.

Paralisias não são todas iguais

A paralisia não é uma condição única. O termo cobre quadros distintos, que variam conforme o ponto do sistema nervoso afetado, a extensão da lesão e as estruturas comprometidas. Todo movimento voluntário depende de comandos que partem do córtex cerebral, atravessam diversas regiões do cérebro, descem pelo tronco encefálico, seguem pela medula espinhal e, a partir daí, se distribuem pelos nervos periféricos até os músculos.

Uma interrupção em qualquer um desses pontos pode resultar em perda de movimento. Isso explica por que um acidente vascular cerebral (AVC), um trauma na medula cervical ou a lesão de uma raiz nervosa produzem quadros muito diferentes entre si.

A paralisia pode ser motora, sensitiva ou envolver as duas formas. Há ainda os nervos cranianos, que saem diretamente do cérebro para a face e não passam pela medula, como o nervo facial, cuja lesão provoca paralisia localizada sem afetar o resto do corpo.

“As lesões mais centrais, normalmente de córtex cerebral, de tronco ou de medula, são mais graves porque potencialmente atingem uma parcela maior do corpo”, explica Poetscher. “Mas são muitas variáveis, é difícil fazer uma comparação”.

Além da perda de movimento e sensibilidade, lesões medulares costumam comprometer funções chamadas neurovegetativas, como controle da frequência cardíaca, da bexiga e dos esfíncteres. A altura da lesão na medula é decisiva: quanto mais alta, especialmente na região cervical, maior tende a ser o comprometimento sistêmico.

Medidas bem estabelecidas

Na prática clínica, o que mais pesa hoje para o prognóstico não são terapias futuristas, mas medidas bem estabelecidas. E o primeiro e mais eficaz nível de intervenção segue sendo a prevenção. “Campanhas que alertam para não mergulhar no raso e a redução de acidentes de trânsito com uso de cinto de segurança, por exemplo, são bastante efetivas em reduzir o número de lesões”, afirma o neurocirurgião.

Quando a lesão ocorre, especialmente na medula, o fator mais determinante é o manejo inicial. A evidência mais consistente aponta para a necessidade de descompressão cirúrgica precoce da medula, removendo fragmentos ósseos ou tecidos que a comprimem. O ideal é que esse procedimento ocorra nas primeiras horas após o trauma, preferencialmente em até oito horas. Segundo o médico do Einstein, 24 horas depois é o limite máximo para tentar obter um desfecho neurológico mais favorável. “Minutos são valiosos”, resume.

Outro aspecto crítico é a manutenção rigorosa da pressão arterial em níveis mais elevados nos primeiros dias, para garantir a perfusão da medula e reduzir o risco de lesões secundárias por isquemia. Trata-se de uma medida particularmente importante em razão do comprometimento das funções neurovegetativas nesses pacientes.

Avanços promissores e tangíveis

Existem substâncias em estudo que tentam atuar justamente nessa fase inicial da lesão medular. Uma das mais avançadas é o riluzol, já utilizado no tratamento da esclerose lateral amiotrófica (ELA) e investigado por seu potencial efeito neuroprotetor também em lesões medulares traumáticas.

A hipótese é de que o medicamento ajude a reduzir a cascata de danos secundários que ocorre após o trauma inicial, preservando parte das células nervosas e das conexões remanescentes. Atualmente, o riluzol está em estudos clínicos de fase 3 para esse tipo de lesão, etapa que avalia sua eficácia em um número maior de pacientes e em diferentes centros antes de qualquer eventual incorporação à prática clínica.

Nesse conjunto de pesquisas entra também a polilaminina. O biomaterial sintético é inspirado na laminina, proteína envolvida nos processos naturais de adesão e crescimento celular. A proposta é que a substância funcione como um “andaime biológico”, favorecendo a reorganização das conexões nervosas após a lesão da medula espinhal. Segundo Arthur Poetscher, há base fisiopatológica para que esse tipo de abordagem faça sentido do ponto de vista teórico, mas os dados clínicos ainda são iniciais.

Enquanto terapias farmacológicas e biológicas enfrentam o caminho regulatório e científico, os avanços mais tangíveis começam a aparecer na reabilitação e nas chamadas tecnologias assistivas. A fisioterapia e outras técnicas clássicas de reabilitação continuam produzindo ganhos funcionais relevantes, inclusive com recuperação parcial de movimentos em alguns casos.

A isso se somam dispositivos como exoesqueletos robóticos, que permitem a pacientes com lesão medular ficar em pé e realizar movimentos de marcha com auxílio mecânico — tecnologia que vem sendo testada em centros especializados fora do Brasil.

Outra frente em rápida evolução é a estimulação elétrica epidural. A técnica explora o fato de que, embora a comunicação entre cérebro e medula esteja interrompida, os circuitos abaixo da lesão podem permanecer íntegros. Ao estimular eletricamente regiões específicas da medula, é possível ativar reflexos capazes de produzir movimentos. Já existem equipamentos que combinam leitura cortical com sistemas implantados na medula, como uma espécie de marcapasso neural. Estudos em centros europeus, especialmente na Suíça, relatam pacientes que voltaram a ficar de pé e andar com auxílio dessa tecnologia.

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