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Home Agricultura e Pecuária

Pecuaristas triplicam produção de leite em projeto no Paraná

Globo Rural por Globo Rural
19/01/2026
em Agricultura e Pecuária
Tempo de leitura: 7 minutos
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Produtor Francarlos Bueno Sudak: projeto permite melhorar aa produção leiteira e adotar novas tecnologias — Foto: Arquivo pessoal

Produtor Francarlos Bueno Sudak: projeto permite melhorar aa produção leiteira e adotar novas tecnologias — Foto: Arquivo pessoal

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Em 2020, Francarlos Bueno Sudak trocou a profissão de treinador de cavalos pela de pequeno produtor de leite em um sítio de 14 hectares em Porto Rico, região noroeste do Paraná. Trabalhando sozinho, no primeiro ano, ele tinha 25 vacas e produzia cerca de 200 litros de leite por dia. Atualmente, Sudak mantém 45 animais, sendo 34 em lactação e produz cerca de 700 litros por dia em duas ordenhas.

Em Alto Paraná, a 120 km de Porto Rico, Ademar Rodrigues Sobrinho trocou a sericultura, atividade que exerceu por 40 anos, pela produção de leite em um sítio de 14 hectares. Ele tirava 320 litros de leite por dia, com uma média de nove litros por vaca. Hoje, tem 42 vacas em lactação com uma produção média de 17 litros por animal, o que rende mais de 700 litros diários.

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O “pulo do gato” para os produtores foi a entrada no Programa Ação Integra de Solo e Água (Aisa) da Itaipu Binacional, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (antigo Iapar-Emater e agora IDR-Paraná), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e a Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento (Faped). No total, em 4 anos, a Itaipu investiu R$ 25,94 milhões em 17 projetos.

Francarlos e Ademar foram selecionados em 2021 para integrar o projeto da Aisa e começaram a receber assistência técnica do IDR-Paraná.

“Consegui aumentar a produção com uma melhor adubação do pasto para oferecer mais alimento e de maior qualidade para os animais, incluindo os meses de inverno. Minhas vacas produziam uma média de 13 a 14 litros por vaca e agora já chegaram a 23 litros. A campeã conseguiu 53 litros e uma novilha já produziu 42 litros. Além disso, com mais comida, já nasceram 40 bezerras para serem as futuras matrizes do sítio”, diz Francarlos.

Segundo ele, mesmo tendo feito muitos cursos no Senar, a assistência técnica do IDR foi fundamental para tirar dúvidas e orientá-lo sobre adubação de pasto, manejo dos animais, financiamento de equipamentos e custeio, ampliação das estruturas e controle de gastos.

Por recomendação dos técnicos e veterinários do IDR, o produtor comprou mais vacas, instalou 27 piquetes com rodízio de pastos e passou a fazer silagem de capim para ter comida para as vacas no inverno, de abril a agosto.

“Fiz investimentos com o pé no chão, mas com a confiança do suporte recebido. O preço do litro hoje está muito baixo, em torno de R$ 1,85. Há dois anos, eu cheguei a receber R$ 3,60. Eu trabalho sozinho de domingo a domingo sem folga, não posso nem ficar doente, mas aprendi muito, tenho assistência e a esperança de que o preço melhore logo”, diz o produtor.

Ele coleta o leite duas vezes por dia em sala de ordenha do tipo espinha-de-peixe, com dois conjuntos de quatro vacas. Diz que escolheu ser produtor de leite porque sempre gostou de bovinos e pela possibilidade de evoluir e ter uma renda mensal assegurada, mesmo com as variações de preço.

Ivanildo Passareli, o técnico agrícola do IDR que atende Francarlos, diz que escolheu o produtor para participar do projeto ocorreu porque ele é agricultor familiar interessado em melhorar sua produção, adotar novas tecnologias e ser uma referência para outros.

“Alguns produtores querem assistência, mas não querem o compromisso. Com Francarlos foi diferente. Já fizemos dias de campo no sítio, que recebeu também excursão de produtores. Ele produz um leite de qualidade com custo competitivo para permanecer na atividade. Como produz o volumoso e a silagem, barateia seus custos e fica com margem mesmo em época de preço de leite baixo.”

Seguindo as orientações do IDR, Ademar Sobrinho também reformou a pastagem, cuidou do solo que estava muito degradado, comprou 12 novilhas e passou a plantar silagem para os meses de inverno.

“Virei referência como produtor de leite na minha região. O solo do sítio melhorou 100% e eu mudei muitos conceitos. Por exemplo, eu não fazia silagem porque achava que aumentava o custo, mas, quando a gente planta a comida, reduz o gasto e mantém as vacas produzindo bem mesmo no inverno.”

O produtor diz que a renda melhorou bastante desde a entrada no programa e só lamenta que a produção de leite em duas ordenhas diárias não deixa tempo para outras atividades nem para férias. Ele trabalha no sítio com a mulher, Ivone, o cunhado Antônio Santiago e a mulher dele, Vanda.

Quarenta produtores

Simony Marta Bernardo Lugão, pesquisadora do IDR-Paraná na área de produção animal e coordenadora do Projeto Intensificação Sustentável da Pecuária Leiteira, diz que o projeto atendeu 40 produtores nas três microbacias do Paraná diretamente ligadas ao reservatório da Itaipu. Foram mobilizados mais de 50 técnicos em visitas mensais, impactando diretamente mais de mil produtores por meio de dias de campo e capacitações.

Segundo ela, a pecuária se encaixa no programa da Itaipu de preservação de água para gerar energia com qualidade porque a atividade mantém grande área de pastagens no Estado e apenas 25% não são degradadas, problema que compromete o solo, a infiltração de água e a sustentabilidade da atividade.

“O Paraná é o segundo maior produtor de leite do Brasil e 79% são produtores familiares que entregam menos de 500 litros por dia, ou apenas 19% do volume total do Estado. Para ter renda com leite, o maior custo é a alimentação, que representa 75% dos gastos. Um manejo adequado das pastagens aumenta a comida para as vacas e também produz alimento para o inverno, quando o pasto não cresce.”

O projeto, diz, focou em manter as pastagens produtivas, não deixar degradar o solo, melhorar a nutrição das vacas, a qualidade do leite, a sanidade dos animais e a gestão da propriedade.

Segundo a coordenadora, nos quatro anos do projeto, a Itaipu bancou a gasolina para deslocamentos dos técnicos e equipamentos, num investimento aproximado de R$ 970 mil. A contrapartida do IDR foi equivalente.

“O produtor precisa de assistência técnica permanente porque não tem tempo para estudar esses gargalos. Com a reforma e recuperação das pastagens, saímos de 1 animal por hectare para 5 ou 6. A produção subiu de 4 mil litros/hectare ano para 12 mil litros/hectare.”

Além das visitas mensais aos pequenos pecuaristas, o IDR criou a cooperativa Coopermais, que dá assistência aos produtores e garante parcerias com laticínios e o Sebrae.

Ademar Rodrigues Sobrinho e sua esposa Ivone Rodrigues: renda melhorou bastante desde a entrada no programa — Foto: IDR-PR/Divulgação
Ademar Rodrigues Sobrinho e sua esposa Ivone Rodrigues: renda melhorou bastante desde a entrada no programa — Foto: IDR-PR/Divulgação

O programa Aisa

O Aisa concluiu sua primeira fase no final de 2025 com 17 projetos para auxiliar agricultores familiares a produzir mais, com mais rentabilidade econômica. O programa nasceu com o objetivo de conservar e garantir água de qualidade e segurança hídrica na área incremental do reservatório da Itaipu, que é de aproximadamente 147.000 km² e abrange 228 municípios no Paraná e no Mato Grosso do Sul.

Segundo o diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri, a qualidade da água e a segurança hídrica são essenciais não apenas para a continuidade da agricultura e da produção de alimentos, fibras e bioenergia, mas também para a geração da energia hidrelétrica que abastecerá Brasil e Paraguai nas próximas décadas.

Hudson Lissoni Leonardo, engenheiro sênior da Itaipu, idealizador e coordenador-geral do Aisa, afirmou que os resultados demonstram que ciência aplicada e governança territorial são determinantes para conciliar produtividade e sustentabilidade.

Além da pecuária leiteira, outros projetos desenvolvidos no Aisa como o mapeamento integrado solo-vegetação; diversificação de soja e manejo; mapeamento digital de solos; modelagem hidrológica; fertilidade do solo e uso de dejetos de animais; manejo conservacionista em áreas de grãos; monitoramento agrometeorológico; sistema de plantio direto de hortaliças; desenvolvimento da fruticultura; piscicultura sustentável em viveiros escavados e saneamento rural e saúde ambiental.

Hudson diz que neste ano o Aisa inicia uma segunda fase com o desafio de transformar o conhecimento científico já validado em um cenário de adoção ampla e massiva no campo com ênfase em ações de comunicação e transferência de tecnologias, mais dias de campo, treinamentos, assistência técnica e extensão rural.

“A tecnologia existe, muitos agricultores e técnicos já conhecem. O desafio agora é fazer com que ela seja utilizada por centenas de milhares de agricultores.”

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