A depressão é uma doença comumente associada à perda de energia, ao isolamento e à dificuldade de cumprir tarefas do dia a dia. No entanto, nem sempre o sofrimento psíquico se manifesta dessa forma nas pessoas.
Existem casos em que o paciente mantém a rotina de trabalho, os compromissos sociais e até o bom desempenho profissional, mesmo convivendo com a tristeza que não passa, o esgotamento e a sensação de vazio. Esse quadro é o que os especialistas chamam de depressão funcional.
“Na depressão funcional, o que muda não é a doença, é a forma como ela se apresenta. Na prática hospitalar, a gente vê muito paciente que sofre intensamente por dentro, mas mantém a engrenagem rodando por senso de responsabilidade, medo de parar ou simplesmente porque aprendeu a funcionar no automático”, explica o psiquiatra Gustavo Yamin Fernandes, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo.
O quadro de depressão funcional não é um diagnóstico formal dos manuais de medicina, mas uma forma clínica e específica da manifestação da doença. A classificação pode ser ainda mais nociva ao paciente, já que a pessoa tende a minimizar os próprios sintomas por ainda “dar conta” das obrigações.
O que caracteriza a depressão funcional?
A principal marca da depressão funcional é que a pessoa não para. Ela continua trabalhando, cumprindo compromissos e mantendo a rotina do dia a dia. Entretanto, o paciente faz tudo isso com um custo emocional altíssimo.
Depois de cumprir as tarefas, ao chegar em casa, há sintomas de exaustão, esgotamento e sensação de estar vivendo só no modo automático. Além disso, não só na depressão funcional, como em todos os outros tipos, um sinal comum é a anedonia — a perda de interesse pelo que antes dava prazer.
Nesses casos, atividades que eram leves começam a ser um peso e são muito frequentes os sentimentos de culpa, cobrança excessiva sobre si mesmo e dificuldade de sentir alegria de forma genuína, mesmo em momentos que antes seriam agradáveis.
Principais sintomas da depressão funcional
Os sintomas podem ser divididos em emocionais e cognitivos e em físicos e comportamentais. A intensidade depende de cada quadro e também do histórico de doenças do paciente. Confira os principais sintomas emocionais e cognitivos:
- Tristeza persistente e sensação de vazio;
- Perda de interesse por atividades antes prazerosas;
- Irritabilidade, ansiedade e mudanças de humor;
- Autocrítica excessiva, culpa e sensação de inutilidade;
- Dificuldade de concentração, memória e tomada de decisões.
As principais manifestações físicas e comportamentais:
- Cansaço constante que não melhora com descanso;
- Alterações no sono, como insônia ou sono excessivo;
- Mudanças no apetite e no corpo, como emagrecimento excessivo ou ganho de peso;
- Dores e mal-estares sem causa aparente;
- Manutenção da rotina com esforço para esconder o sofrimento.
Por que a depressão funcional passa despercebida?
A depressão funcional costuma passar despercebida porque existe uma valorização social na ideia de desempenho e produtividade. Em geral, quem cumpre metas e mantém uma postura socialmente adequada não é visto como alguém em sofrimento psíquico.
Além disso, muitas pessoas deixam de procurar ajuda por acreditarem que a própria dor não “é grave o suficiente”. Esse processo de invalidação adia o diagnóstico e normaliza um estado de adoecimento que pode ser bem mais difícil de tratar depois.

Diferença entre depressão funcional e burnout
Embora os dois quadros possam coexistir, eles não são a mesma coisa. O burnout se relaciona de forma mais direta com o contexto de trabalho e pode aliviar quando há afastamento das atividades laborais.
Já a depressão funcional não se limita ao ambiente profissional. O desânimo, o cansaço emocional e a sensação de vazio se mantêm em fins de semana, férias e momentos de lazer.
Riscos de adiar o cuidado
Quando o paciente com depressão não receba o tratamento adequado, com o tempo as chances de recaídas, afastamentos do trabalho e agravamento dos sintomas emocionais se tornam mais frequentes em comparação aos pacientes que se tratam, segundo a psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras.
“O risco de adiar é um colapso inevitável. Por isso, quando o corpo finalmente para, o quadro costuma ser muito mais grave e resistente ao tratamento. Além disso, há o risco aumentado de abuso de substâncias (álcool e medicamentos, por exemplo) como forma de automedicação para suportar o dia a dia, além do surgimento de doenças psicossomáticas”, ressalta Flávia.
Caminhos de tratamento e recuperação
O cuidado com a depressão funcional deve ser feito com acompanhamento psicológico e, em alguns casos, uso de medicação. Algumas abordagens terapêuticas podem auxiliar na redução da autocrítica, no reconhecimento das próprias emoções e na retomada das escolhas sobre a própria vida.
Além disso, o principal objetivo do tratamento não é sobre manter a produtividade, mas fazer com que o paciente entenda que não tem problema parar um pouco e, principalmente, não existe fraqueza em pedir ajuda.







