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Home Saúde

Por que é aceitável usar órgãos de porcos em pessoas, mas não o oposto

Metrópoles por Metrópoles
12/12/2025
em Saúde
Tempo de leitura: 6 minutos
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Foto:Crystaleyestudio/ Getty Images

Foto:Crystaleyestudio/ Getty Images

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*O artigo foi escrito pela professora de Filosofia Monika Piotrowska, da Universidade do Estado de Nova Iorque em Albany, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.

Em um dia de novembro de 2025, em uma sala de cirurgia em Maryland (EUA), médicos fizeram história na medicina ao transplantar um rim de porco geneticamente modificado em um paciente vivo. O rim foi projetado para imitar o tecido humano e cultivado em um porco como alternativa à espera por um doador de órgão humano que talvez nunca aparecesse. Durante décadas, essa ideia permaneceu no campo da ficção científica. Agora, ela está literalmente em aplicação.

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O paciente é um dos seis que participam do primeiro ensaio clínico de transplantes de rins de porcos para humanos. O objetivo: verificar se rins de porcos editados geneticamente podem substituir com segurança rins humanos que estão parando de funcionar.

Há uma década, os cientistas buscavam uma solução diferente. Em vez de editar os genes dos porcos para tornar seus órgãos compatíveis com os humanos, eles tentaram cultivar órgãos humanos — feitos inteiramente de células humanas — dentro de porcos. Mas, em 2015, os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) suspenderam o financiamento desse trabalho para avaliar seus riscos éticos. A suspensão permanece até hoje.

Como bioeticista e filósofa que passou anos estudando a ética do uso de órgãos cultivados em animais — incluindo a participação em um grupo de trabalho nacional financiado pelo NIH que avalia a supervisão de pesquisas sobre quimeras humano-animais —, fiquei perplexa com a decisão.

A proibição partiu do princípio de que o perigo era tornar os porcos demasiado humanos. No entanto, os reguladores parecem agora confortáveis em tornar os humanos um pouco mais porcos.

Por que razão é considerado ético colocar órgãos de porco em humanos, mas não cultivar órgãos humanos em porcos?

Urgência impulsiona o xenotransplante

É fácil ignorar o desespero que impulsiona esses experimentos. Mais de 100 mil americanos aguardam transplantes de órgãos. A demanda supera a oferta, e milhares morrem a cada ano antes que um órgão se torne disponível.

Durante décadas, cientistas buscaram ajuda em outras espécies — desde corações de babuínos na década de 1960 até porcos geneticamente modificados atualmente. O desafio sempre foi o sistema imune. O corpo trata as células que não reconhece como parte de si mesmo como invasoras. Como resultado, ele as destrói.

Um caso recente ressalta esse problema. Um homem em New Hampshire recebeu um rim de porco geneticamente modificado em janeiro de 2025. Nove meses depois, ele teve que ser removido porque sua função estava diminuindo.

Embora esse sucesso parcial tenha dado esperança aos cientistas, também serviu como um lembrete de que a rejeição continua sendo um problema central para o transplante de órgãos entre espécies, também conhecido como xenotransplante.

Os pesquisadores estão tentando contornar a rejeição do transplante criando um órgão que o corpo humano possa tolerar, inserindo alguns genes humanos e excluindo alguns genes de porcos.

Ainda assim, os receptores desses órgãos suínos com genes editados precisam de medicamentos potentes para suprimir a atuação do sistema imune durante e muito tempo após o procedimento de transplante, e mesmo isso pode não impedir a rejeição. Mesmo os transplantes entre seres humanos requerem imunossupressores para o resto da vida.

É por isso que outra abordagem – cultivar órgãos a partir das próprias células do paciente – parecia promissora. Isso envolvia desativar os genes que permitem que os embriões de porco formem um rim e injetar células-tronco humanas no embrião para preencher o espaço onde ficaria o rim. Como resultado, o embrião de porco desenvolveria um rim geneticamente compatível com um futuro paciente, eliminando teoricamente o risco de rejeição.

Embora simples em conceito, a execução é tecnicamente complexa, pois as células humanas e suínas se desenvolvem em velocidades diferentes. Mesmo assim, cinco anos antes da proibição do NIH, pesquisadores já haviam feito algo semelhante ao cultivar um pâncreas de camundongo dentro de um rato.

O crescimento de órgãos entre espécies diferentes não era uma fantasia — era uma prova de conceito funcional.

Ética do cultivo de órgãos

As preocupações que motivaram a proibição do NIH em 2015 de inserir células-tronco humanas em embriões animais não vieram de receios sobre o fracasso científico, mas sim de confusão moral.

Os formuladores de políticas temiam que as células humanas pudessem se espalhar pelo corpo do animal — até mesmo em seu cérebro — e, ao fazer isso, confundir a linha divisória entre humanos e animais. O NIH alertou para possíveis “alterações no estado cognitivo do animal”.

O Animal Legal Defense Fund, uma organização de defesa dos animais, argumentou que, se tais quimeras ganhassem consciência semelhante à humana, elas deveriam ser tratadas como sujeitos de pesquisa humanos.

A preocupação centra-se na possibilidade de que o status moral de um animal — ou seja, o grau em que os interesses de uma entidade são moralmente importantes e o nível de proteção a que tem direito — possa mudar. Um status moral mais elevado requer um tratamento melhor, pois implica uma maior vulnerabilidade a formas mais graves de danos.

Pense no dano causado ao cutucar um animal que é senciente em comparação com o dano causado ao cutucar um animal que é autoconsciente. Um animal senciente – ou seja, capaz de experimentar sensações como dor ou prazer – sentiria a dor e tentaria evitá-la.

Em contrapartida, um animal autoconsciente — ou seja, capaz de refletir sobre essas experiências — não apenas sentiria a dor, mas compreenderia que é ele próprio o sujeito dessa dor. O último tipo de dano é mais profundo, envolvendo não apenas a sensação, mas também a consciência.

Assim, a preocupação do NIH é que, se células humanas migrarem para o cérebro de um animal, elas possam introduzir novas formas de experiência e sofrimento, elevando assim seu status moral.

A falha lógica da proibição do NIH

Mas o raciocínio por trás da proibição do NIH é falho. Se certas capacidades cognitivas, como a autoconsciência, conferissem um status moral mais elevado, então os reguladores deveriam estar igualmente preocupados com a inserção de células de golfinhos ou primatas em porcos, assim como estão com a inserção de células humanas. Mas não estão.

Na prática, o círculo moral dos seres cujos interesses são importantes é traçado não em torno da autoconsciência, mas em torno do pertencimento da espécie. Os reguladores protegem todos os seres humanos de pesquisas prejudiciais porque são humanos, não por causa de suas capacidades cognitivas específicas, como de sentir dor, usar a linguagem ou se envolver em raciocínios abstratos.

Na verdade, muitas pessoas não têm tais capacidades. A preocupação moral decorre dessa relação, não de ter uma forma particular de consciência. Nenhum objetivo de pesquisa pode justificar a violação dos interesses mais básicos dos seres humanos.

Se um embrião de porco infundido com células humanas realmente se tornasse algo próximo o suficiente para ser considerado um membro da espécie humana, então as regulamentações de pesquisa atuais determinariam que ele deveria receber o mesmo respeito que um ser humano. Mas a mera presença de células humanas não torna os porcos humanos.

Os porcos criados para transplantes renais já carregam genes humanos, mas não são chamados de “seres meio humanos”. Quando uma pessoa doa um rim, o receptor não se torna parte da família do doador. No entanto, as políticas de pesquisa atuais tratam um porco com um rim humano como se isso fosse possível.

Pode haver boas razões para se opor ao uso de animais como fábricas de órgãos vivos, incluindo preocupações com o bem-estar. Mas a justificativa por trás da proibição do NIH de que células humanas poderiam tornar os porcos muito humanos se baseia em um equívoco sobre o que dá aos seres — e aos seres humanos em particular — status moral.

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