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Petróleo em alta encarece diesel e gasolina; veja como guerra pesa no bolso do brasileiro

Conflito no Oriente Médio pode ainda desencadear uma valorização do dólar. Especialistas se preocupam com uma nova pressão sobre a inflação que estava sob controle.

G1 por G1
19/03/2026
em Economia
Tempo de leitura: 7 minutos
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A escalada da guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz já prejudicam o bolso do brasileiro. O centro do problema está no preço do barril de petróleo, que chegou a US$ 115 nesta quinta-feira (19), reforçando o aumento de preços de combustíveis e energia.

Em uma semana, o preço médio do litro do diesel nos postos de combustíveis do país subiu mais de 11%, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Passou de R$ 6,08 para R$ 6,80.

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O diesel é um combustível fundamental para a logística da economia brasileira. Quando o preço sobe, o impacto vai dos caminhoneiros ao valor dos alimentos, de produtos industriais e de serviços.

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, essa pressão sobre a inflação brasileira pode começar a aparecer em cerca de um mês, a depender da intensidade do conflito e de quanto pode durar o fechamento do Estreito de Ormuz.

O economista Fábio Romão, sócio da Logos Economia, afirma que os aumentos indiretos causados pela alta do diesel podem elevar a inflação em 0,11 ponto percentual em 2026.

“O primeiro impacto, mais imediato, será o aumento do próprio diesel, já neste mês. Entre os efeitos indiretos, o aumento será espraiado ao longo dos próximos seis meses”, diz Romão.

Outro fator que pressiona os preços é o dólar, que chegou à casa dos R$ 5,26, uma alta de 2,5% desde o início do conflito. Em momentos de tensão geopolítica, investidores tendem a buscar proteção em ativos considerados mais seguros, como a moeda americana. Isso aumenta a demanda pelo dólar e faz a cotação subir.

Um dólar mais caro encarece produtos importados e também aqueles que, embora produzidos no Brasil, têm preços definidos no mercado internacional — como combustíveis e diversas commodities. Além disso, muitos insumos usados pela indústria são cotados em dólar.

Com a alta da moeda, esses custos das empresas sobem e acabam sendo repassados ao consumidor final, pressionando ainda mais a inflação.

Petróleo, indústria e agro

Desde o ataque dos EUA e de Israel ao Irã, o salto no preço do petróleo no mercado internacional foi o efeito mais marcante. Em relação ao fim de 2025, quando a commodity fechou cotada a US$ 60, o valor quase dobrou.

“Quanto mais o conflito se prolongar e comprometer o fluxo de petróleo pelo mundo, maior será a tendência de alta nos preços do barril”, afirma André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

O petróleo é matéria-prima de combustíveis — como gasolina, diesel, querosene de aviação e gás de cozinha — e de diversos insumos, como plásticos, borracha, fertilizantes e medicamentos. Isso gera um efeito em cadeia, pressionando os custos de produção e a logística da indústria e do agronegócio.

Uma alta no preço do diesel, por exemplo, tende a elevar o custo do frete rodoviário, o que pode resultar em aumento nos preços de produtos transportados por estradas. “Além disso, a gasolina é um dos itens mais relevantes para a inflação, representando 5% do IPCA”, afirma o especialista.

Além do transporte, o agronegócio sofre com o custo de funcionamento das máquinas agrícolas e com o encarecimento dos fertilizantes químicos — que também são parte relevante das importações brasileiras vindas do Irã.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que adubos e fertilizantes químicos responderam por 93,5% do total importado pelo Brasil do país do Oriente Médio em janeiro deste ano.

Há impacto também na produção de energia elétrica, especialmente nas termelétricas. Elas geram energia a partir de combustíveis e costumam ser acionadas em períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam mais baixos.

“A indústria brasileira está inserida em cadeias globais, e qualquer instabilidade em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz repercute nos fretes, nos seguros e na energia”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Flávio Roscoe.

Por outro lado, o aumento nos preços do petróleo costuma favorecer a balança comercial do Brasil, já que o país é um grande exportador da commodity e seu valor influencia diretamente o resultado financeiro das petrolíferas.

“Isso já pode pressionar por um ajuste no preço da gasolina. Se houver anúncio, é provável que o valor acompanhe a tendência do petróleo e permaneça elevado enquanto a commodity continuar em alta”, afirma André Braz.

Pressão no dólar e nos juros

  • 🔎 A moeda americana é uma das mais negociadas do mundo e pode ser comprada e vendida com facilidade, sem grandes distorções de preço. Por isso, em momentos como esse, investidores costumam vender aplicações mais arriscadas, como ações na bolsa, e migrar para opções mais seguras, como o dólar.

“O dólar normalmente se valoriza em momentos de incerteza e cautela internacional, o que pode aumentar a pressão inflacionária causada por insumos importados”, explica Lilian Linhares, da Rio Negro Family Office.

Embora o impacto do dólar dependa de um período mais prolongado de valorização da moeda, a especialista diz que esse é um fator ao qual o BC deve estar atento ao definir a política de juros no país.

“A projeção para a inflação no médio prazo continua alinhada à meta, o que permite que o Banco Central conduza a política monetária nesse cenário de incerteza, com cautela e atenção a eventuais choques de oferta”, afirma.

Nesta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu reduzir a taxa básica de juros de 15% para 14,75% ao ano. Foi o primeiro corte desde maio de 2024.

Por outro lado, o BC deixou de indicar novos cortes nas próximas reuniões por conta da guerra no Oriente Médio. O conflito foi citado quatro vezes no comunicado como fonte de incerteza para as decisões futuras.

“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, disse o Copom.

O BC reforçou que a guerra no Oriente Médio afeta a cadeia global de suprimentos e os preços de commodities, o que influencia a inflação no Brasil. Por isso, o comitê decidiu aguardar novos desdobramentos para avaliar quanto tempo o conflito vai durar e quais serão seus efeitos sobre a economia.

“Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio”, diz o comunicado.

Juros mais altos também têm impacto direto no dia a dia da economia. Quando as taxas sobem, pegar crédito fica mais caro — seja no cartão, no financiamento ou no empréstimo. Com isso, famílias e empresas tendem a consumir e investir menos.

Esse movimento esfria a atividade econômica e reduz o ritmo de crescimento, justamente como forma de conter a inflação.

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