A produção agrícola com baixo uso de insumos químicos, hoje conhecida como agricultura regenerativa, começou a entrar no vocabulário das grandes empresas do agronegócio e de seus financiadores após o estouro da pandemia, mas já era um conceito conhecido da agricultura orgânica.
Esse aumento do interesse sobre “a agricultura que cuida do solo”, que agora já integra inclusive metas corporativas, vem aguçando a busca por novos conhecimentos e tecnologias que ajudem os produtores a realizar a transição de seus sistemas produtivos, algo que ainda está disperso na academia e no mercado.
Para conectar os conhecimentos e tecnologias que estão sendo desenvolvidos, testá-los e fomentar sua disseminação, o empresário Luis Barbieri criou o Instituto Folio. Nascido de dentro de sua empresa, a Raiar Orgânicos, o instituto agora ganha autonomia, recursos para apoiar tanto seus projetos, uma equipe dedicada — inclusive com a entrada de Anita Martins como diretora de operações —, e uma estrutura de governança que guiará os próximos passos da organização.
A proposta é “unir as mãos” de quem produz conhecimento, como pesquisadores e empresas, e quem o aplica no campo, os produtores. “Hoje os produtores estão testando tecnologias, mas isolados, e os pesquisadores estão testando inovações, mas não chegam nos produtores”, observa.
Governança
O instituto já tem um conselho consultivo com nomes tanto da academia quanto de diferentes segmentos do setor privado, o que promete diversidade de contribuições para orientar o instituto.
O colegiado, que se reunirá pela primeira vez neste semestre, é composto por Felipe Alves, fundador e presidente do conselho da Morro Verde Fertilizantes, Marcus Menoita, CEO da Raiar Orgânicos, Paulo Borges, produtor rural e um dos fundadores do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (Gaas), Marcelo Behar, consultor-sênior do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e ex-vice-presidente de sustentabilidade da Natura, Ludmila Rattis, pesquisadora do Woodwell Climate Research Center e Plínio Ribeiro, CEO da Biofílica Ambipar. Também já há um comitê fiscal e um comitê científico.
Antes organizada como “rede”, a formalização do Instituto Folio nasceu da necessidade de dar transparência às iniciativas que começaram a receber doações. Até o momento, a Folio recebeu R$ 1 milhão do Instituto Ibirapitanga e R$ 3 milhões da Fundação Itaúsa.
Projetos
Os recursos já estão apoiando um projeto que com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em uma fazenda de 400 hectares produtivos em Buri (SP), onde são testadas diversas tecnologias e técnicas de manejo sustentáveis de grãos.
O projeto entrará agora em uma etapa de elaboração de um “Plano de Transição Tropical” para os próximos cinco anos, com a ambição de “criar o conhecimento da transição”, diz Barbieri. O foco da “fazenda-laboratório” é testar novos conhecimentos na produção de grãos, por serem a base da produção agropecuária global, defende. “Não dá para pensar numa transição da agricultura brasileira que não parta desse lugar [produção de grãos]. O foco da Folio é pensar nisso”, afirma.
O instituto já nasce também com um projeto em execução de produção de bioinsumos em pequena em parceria com o campus de Avaré do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Além disso, a Folio, até então como “rede”, já vinha produzindo uma lista de insumos para a produção regenerativa/orgânica de grãos, e que continuará sendo atualizada com regularidade, e um guia de produção de insumos biológicos on-farm.
Sob a nova configuração, o Instituto Folio deve agora tocar um projeto relacionado ao uso de máquinas para a redução do uso de herbicidas, mas Barbieri prefere ainda não dar mais detalhes. “Hoje tem um ecossistema rico de bioinsumos para substituir inseticidas e fungicidas, mas a agricultura tropical é principalmente dependente de herbicidas. Um dos focos é como fomentar soluções para a questão do herbicida”, adiantou.
Eixos de atuação
Com os projetos e a experiência da Folio acumulados nos últimos anos, a organização entende que chegou a um “diagnóstico” dos principais gargalos para a transição à agricultura regenerativa e orgânica. Com isso, o novo instituto deve atuar agora em torno de três eixos: construção de novas tecnologias, geração de dados e troca de conhecimentos.
Segundo Barbieri, se é preciso desenvolver mais tecnologias, também falta articular os pesquisadores que estão nas universidades desenvolvendo conhecimento com os demais agentes interessados. E, para dar escala às soluções, é preciso gerar dados “para mais gente avançar”, defende.
O instituto nasce com um só associado – a própria Raiar –, mas a ambição é atrair mais agentes da cadeia. A ideia é que o instituto seja um ambiente “paracompetitivo”, diz o empresário.
Transição, uma jornada
O diretor-executivo do Instituto Folio ressalta que os esforços para criar e disseminar o conhecimento devem apoiar o produtor rural a fazer uma “transição”, que não necessariamente vá torná-lo um produtor 100% orgânico, mas que permita ele evoluir em uma escala “de 0 a 100”.
“Cada um, a partir do conhecimento e da realidade que experimenta, avança à sua maneira. Nosso papel é gerar conhecimento, ter dado e tecnologias para quem quiser avançar mais, avançar”, defende.