O cenário de alta do endividamento no campo e a demora para o início de um movimento de queda da Selic mais efetivo vão tornar a elaboração do Plano Safra 2026/27 ainda mais difícil para as equipes técnicas envolvidas no tema em Brasília. Os esforços serão, segundo fontes ouvidas pelo Valor, para ao menos manter o montante total de recursos perto dos R$ 600 bilhões do Plano Safra atual, mas a expectativa é de que os juros também ficarão em patamar elevado. O total considera linhas tradicionais e títulos, como as Cédulas de Produto Rural (CPRs),
A avaliação é de que o aperto fiscal permanecerá e não haverá “folga” na construção da política de crédito rural para a próxima temporada, que começa em julho. A equipe técnica que elabora o Plano Safra imaginava que a Selic já teria caído mais a esta altura do campeonato. Com o corte de 0,25 ponto porcentual da semana passada e as incertezas com a guerra no Oriente Médio, o custo de captação se manterá alto e os juros deverão ficar em um patamar elevado. As sinalizações ainda não são claras para um eventual corte nas taxas finais, que variaram de 2% a 14% ao ano no ciclo atual.
O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, afirmou que os juros permanecerão elevados e que o cenário é “desafiador”. A guerra é um componente extra de imprevisibilidade e que deverá reforçar o foco do Plano Safra para o custeio, por conta dos reflexos do conflito nos custos da produção.
“Vai ser um Plano Safra ainda mais desafiador. O cenário é muito nebuloso e não é bom. As recuperações judiciais comprometeram muito o ambiente do crédito desde o ano passado. É a tempestade perfeita”, afirmou ao Valor. “Será um ano de reajuste no setor para uma grande retomada depois”, completou.
Segundo ele, o corte da Selic em março, para 14,75%, e a previsão de ritmo lento em novas reduções nos próximos meses não darão espaço para juros mais baixos no crédito rural em 2026/27. “A taxa de juros vai ser tão alta quanto agora. Com a Selic em 15% ou em 14%, o efeito na ponta é o mesmo. Não dá para pensar nada muito diferente desse patamar”, afirmou.
Para o secretário, um impacto significativo só seria sentido se a taxa básica estivesse mais perto de 10%. Em julho de 2025, quando este Plano foi lançado, os juros já estavam em 15% ao ano. Com muitas dúvidas no ar, Campos defende uma “reavaliação” do Plano Safra no fim do ano, na metade da execução da política. Segundo ele, se houver queda mais acentuada na Selic, o plano poderia ser “recalibrado” no meio do caminho.
Cálculos internos do Ministério da Agricultura indicam que a demanda potencial para custeio na safra 2026/27 chegará perto de R$ 865 bilhões, mais que o dobro de seis anos atrás, quando eram R$ 418 bilhões. A conta considera os custos de produção, que aumentaram desde a pandemia e ainda não recuaram, e a perspectiva de área plantada. Desse montante, cerca de 30% deverá ser fomentado via Plano Safra e o restante é custeado a mercado ou com recursos próprios dos produtores. Para investimentos, a previsão é de necessidade superior a R$ 200 bilhões.
Ainda não houve definição do orçamento que estará disponível para equalização dos juros a partir de julho. São quase R$ 19 bilhões reservados na Lei Orçamentária Anual (LOA) para a subvenção ao crédito rural, mas a maior parte está comprometida com o pagamento da equalização de operações de safras passadas, que ficam ainda mais caras por conta da alta nos juros atuais, o que aumenta a diferença para as taxas contratadas em anos anteriores.
Em cenário de maior restrição, o governo poderá usar novamente uma manobra, criada em 2025, que dividiu a aplicação orçamentária do Plano Safra por semestre, um em cada ano civil. Sem esse arranjo, o Tesouro Nacional teria que reservar um valor maior em caixa para o ano inicial, mesmo que não fosse inteiramente utilizado naquele período.
Essa regra foi criada às vésperas do lançamento do Plano Safra 2025/26 e abriu espaço para uma redução mais acentuada de juros para a agricultura familiar, já que a demanda orçamentária foi organizada em semestres. Agora, a meta do governo é dar mais previsibilidade aos bancos e cooperativas financeiras para se adaptarem ao mecanismo. O “leilão” de recursos equalizáveis, em que as instituições apresentam suas propostas para operacionalizar os valores que recebem a subvenção direta da União, deve ser anunciado em abril.
Depois de um aumento geral das exigibilidades em 2025, o governo deve optar por manter os níveis de direcionamentos dos recursos obrigatórios (31,5%), da poupança rural (70%) e das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), de 60%, neste ano. Pode haver alterações pontuais nas subexigibilidades, dizem fontes. O Banco Central ainda não informou o saldo disponível nessas carteiras.
Mesmo assim, vai haver o aumento programado da exigibilidade dos depósitos à vista para as cooperativas de crédito, que passará de 6% para 13%. No Plano Safra atual, quase R$ 6,5 bilhões são oriundos desse direcionamento.
Como a área plantada deverá crescer e os custos aumentaram, a demanda por crédito em 2026/26 será maior. Deve haver busca por um novo “valor recorde”, disse uma fonte em Brasília. Ela lembrou, porém, que isso depende da definição dos juros. “Quanto mais encargo financeiro, menor é o custo para o Tesouro e maior é a possibilidade de ter um montante maior de recurso para o Plano Safra”, resumiu.
A avaliação na Esplanada é que o governo soube criar alternativas para o financiamento do setor, principalmente com a expansão dos títulos privados e da versatilidade dada às CPRs. Com o aperto nas contas e menos espaço para aumentar os subsídios ao crédito, a expectativa é de que esse cenário se intensifique na nova safra.
A previsão para financiamentos via recursos direcionados em CPRs era de R$ 189 bilhões na safra 2025/26 e já chegou a R$ 163,4 bilhões entre julho de 2025 e fevereiro de 2026. Há dúvidas no setor se todo esse valor tem sido aplicado em custeio, como é contabilizado pelo Ministério da Agricultura, ou se serve de capital de giro para diferentes atividades. Uma fonte graduada em Brasília disse que não se pode “afrouxar controles” do título e é preciso cuidado para o uso “excessivo” ou “indevido” do instrumento.
Governo espera que inadimplência caia ao longo do ano no campo
Apesar do aperto no campo em função do endividamento, o governo não vai incluir nenhuma obrigatoriedade de aplicação de recursos aos bancos no próximo Plano Safra, segundo fontes em Brasília. A avaliação é que a decisão de não conceder empréstimos ou exigir mais garantias contratuais, como a alienação fiduciária, é uma competência das instituições financeiras a partir da avaliação de risco da operação. O tema “preocupa”, mas a análise é que os índices de inadimplência vão cair ao longo do ano.
Para produtores sem problemas de crédito, garantias e risco, as linhas vão rodar normalmente, como tem ocorrido neste ano, afirmou uma fonte familiarizada com o assunto. A regra de provisionamento de perdas esperadas do Banco Central ainda deve afetar alguns bancos, mas não há o que se alterar no Manual de Crédito Rural (MCR) para aliviar essa situação, ponderou.
Uma das metas do governo será regulamentar a lei que permitiu o uso de até R$ 500 milhões do Fundo Garantidor de Operações (FGO) para cobrir ações do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Serão avaliadas onde e como esses recursos poderão ser usados.
Na análise dos técnicos em Brasília, esse pode ser um mecanismo importante de inclusão de novos produtores no acesso ao crédito rural e de reinserção de quem está inadimplente ou com dificuldades financeiras. A medida deverá ter destaque no Plano Safra 2026/27.
O próximo plano também deverá manter esforços do governo federal para direcionar o crédito rural para ações sustentáveis, mesmo com o efeito ainda incipiente do desconto de 0,5 ponto porcentual nos juros do custeio para quem tem Cadastro Ambiental Rural (CAR) analisado ou participa de programas de boas práticas.
Uma proposta em avaliação agora é a concessão de taxas mais atrativas para quem tem excedente de Reserva Legal na propriedade. Ainda estão em discussão o tamanho dessa área e as formas de verificação. Em abril, entrará em vigor a regra que obriga as instituições financeiras a consultar dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) para concessão de crédito rural.
As instituições deverão verificar a ocorrência de desmatamento em imóveis rurais após 31 de julho de 2019 e condicionar a liberação dos recursos à regularização ambiental ou à comprovação de que a supressão da vegetação foi legal.
O cenário mais complexo no campo se refletiu no questionário enviado pelo Ministério da Agricultura para as entidades do setor agropecuário, que colaboram com propostas para o Plano Safra.
A Pasta focou nos problemas vivenciados pelos produtores no campo, como o endividamento e a restrição de acesso ao crédito, de acordo com relatos feitos à reportagem. Há pedidos de apontamentos sobre as dificuldades de acesso ao crédito nos bancos e um mapeamento das burocracias nos financiamentos.
Mesmo assim, fontes do governo avaliam que há pouco espaço para avançar em novas medidas e propostas mais amplas de renegociação de dívidas. No Congresso Nacional, há novas movimentações e tentativas de emplacar uma securitização.






