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Genética pode influenciar idade do diagnóstico de autismo, diz estudo

Metrópoles por Metrópoles
16/01/2026
em Saúde
Tempo de leitura: 6 minutos
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O transtorno do espectro autista (TEA) pode não seguir uma única trajetória de desenvolvimento. Há pelo menos dois caminhos distintos: um que se manifesta já na primeira infância e outro que só começa a se diferenciar na adolescência. Cada um deles está ligado a um conjunto próprio de variantes genéticas comuns, segundo um estudo publicado na Nature em outubro.

Liderada por Xinhe Zhan, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, a pesquisa acompanhou crianças e adolescentes por vários anos e encontrou indícios de que esses dois caminhos — o que emerge mais cedo e o que se torna evidente mais tarde — também se refletem na genética.

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Os pesquisadores observaram que parte das variantes comuns se agrupa em um fator ligado a sinais já na primeira infância, enquanto outro grupo de variantes se associa a dificuldades que vão surgindo ou se intensificando na adolescência, com maior relação ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e a outras condições de saúde mental.Play Video

Isso revela como genética e desenvolvimento moldam a manifestação do TEA. “Ajuda a explicar por que muitos casos só são reconhecidos na adolescência ou na vida adulta e reforça a necessidade de estratégias individualizadas de diagnóstico e cuidado, capazes de captar sinais que passam despercebidos na infância”, afirma a bióloga Andréa Laurato Sertié, pesquisadora do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP).

O estudo também questiona o chamado “modelo unitário”, segundo o qual o autismo seria um conjunto único de características, e o momento do diagnóstico refletiria apenas a gravidade dos sintomas. Nessa interpretação mais simplificada, crianças diagnosticadas cedo teriam sinais mais intensos desde o início, enquanto quadros considerados mais leves só se tornariam evidentes com o aumento das demandas sociais na adolescência.

Embora o artigo descreva a trajetória associada ao diagnóstico tardio como marcada por menos dificuldades na primeira infância, a hipótese central é de que ela não representa apenas uma versão mais branda do mesmo quadro, mas um percurso de desenvolvimento diferente, associado a perfis poligênicos distintos.

Nas coortes analisadas, os níveis médios de dificuldade foram semelhantes entre os grupos. A divergência apareceu ao longo do desenvolvimento: apenas os pacientes diagnosticados mais tarde apresentaram piora progressiva das dificuldades, que se intensificaram na adolescência e se tornaram clinicamente mais evidentes nesse período.

Esse padrão sustenta o chamado “modelo desenvolvimental”, que entende o momento do diagnóstico como uma característica qualitativa do autismo, ligada a trajetórias distintas ao longo da vida e a mecanismos genéticos específicos — e não apenas ao grau de “gravidade” inicial dos sintomas.

“O estudo mostra que a genética influencia não só o risco de autismo, mas também quando e como os sinais se manifestam. Isso ajuda a entender a diversidade clínica e por que muitos casos só são identificados na vida adulta”, analisa Sertié, que pesquisa os mecanismos celulares ligados a transtornos do neurodesenvolvimento.

Foto colorida de criança com pulseira símbolo do autismo segurando mão de adulto - Metrópoles
Os sintomas leves do autismo podem ser confundidos, por exemplo, com timidez e falta de afetividade, dificultando o diagnóstico

Condição heterogênea

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que envolve dificuldades persistentes na comunicação e na interação social, além de padrões de comportamento restritos e repetitivos. Esses sinais surgem na primeira infância, mas não evoluem da mesma forma em todas as pessoas.

“É uma condição heterogênea, tanto nas manifestações clínicas quanto nas origens biológicas. Essa diversidade faz o autismo ser compreendido hoje não como uma única entidade, mas como um espectro resultante de múltiplas vias causais possíveis”, explica a especialista.

A prevalência global estimada é de cerca de um em 127 pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde. Em países com vigilância mais estruturada, como os Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) registra um caso a cada 31 crianças de 8 anos.

No Brasil, o Censo 2022 identificou pela primeira vez 2,4 milhões de pessoas que declararam ser autistas, o que equivale a 1,2% da população. As taxas mais altas entre crianças e mais baixas entre adultos sugerem maior detecção nas novas gerações e possível subdiagnóstico ao longo da vida.

As causas ainda são estudadas pela ciência, mas já se sabe que envolvem tanto variantes genéticas específicas, encontradas em cerca de um terço dos casos, quanto o efeito combinado de centenas de variantes comuns. Esses fatores se integram a condições pré-natais e perinatais — como inflamação materna, prematuridade extrema e idade parental avançada —, modulando o risco individual.

“Do ponto de vista neurobiológico, a medicina e a neurociência atuais compreendem o autismo como decorrente de alterações no neurodesenvolvimento e na conectividade cerebral, particularmente em circuitos relacionados a socialização, comunicação, processamento sensorial e flexibilidade comportamental”, resume Andréa Sertié.

Diagnóstico e suas limitações

Apesar dos avanços, o diagnóstico do autismo ainda depende exclusivamente da observação clínica e do relato comportamental — não há exames laboratoriais que confirmem ou prevejam o transtorno. Essa limitação contribui para diagnósticos tardios, sobretudo em pessoas cujos sinais são discretos na infância ou que apresentam desenvolvimento inicial típico em linguagem, sociabilidade ou desempenho escolar.

A variabilidade das manifestações clínicas e a sobreposição com outros transtornos do neurodesenvolvimento, como TDAH, ansiedade e dificuldades de linguagem, também dificultam avaliações precoces.

“Com a chegada da adolescência e da vida adulta, surgem demandas sociais e emocionais mais complexas, como maior autonomia, relações afetivas, organização da rotina e exigências no ambiente de trabalho. Essas novas situações tornam as dificuldades mais evidentes, levando muitas pessoas a buscar avaliação pela primeira vez”, explica a pesquisadora do Einstein.

Em muitos casos, especialmente de mulheres, a pessoa desenvolve estratégias de camuflagem social ao longo da vida, o que contribui para avaliações mais tardias.

Os achados do estudo ajudam a entender esse fenômeno. Ao mostrar que combinações de variantes genéticas influenciam o momento em que as dificuldades começam a aparecer, os autores indicam que o diagnóstico tardio não se explica apenas por sinais discretos na infância ou por falhas de detecção, mas por trajetórias de desenvolvimento distintas.

Mesmo após analisar fatores como presença de TDAH, outros transtornos psiquiátricos e diferenças entre homens e mulheres, as distinções genéticas permaneceram.

Os pesquisadores agora pretendem investigar como esses fatores poligênicos se conectam a mecanismos biológicos específicos — como conectividade neural e desenvolvimento sináptico — e avaliar se outros subtipos podem ser identificados. A expectativa é de que esse conhecimento permita classificações mais precisas dentro do espectro e ajude a orientar intervenções individualizadas ao longo da vida.

Para Sertié, reconhecer que alguns indivíduos apresentam dificuldades precoces enquanto outros manifestam sinais mais tardios evidencia a necessidade de abordagens diferenciadas no diagnóstico e no cuidado. Crianças identificadas cedo tendem a se beneficiar de estratégias focadas em linguagem, habilidades sociais e apoio ao desenvolvimento.

Nos diagnósticos tardios, o acompanhamento precisa considerar desafios emocionais, comportamentais e de adaptação às demandas crescentes da vida adulta.

Reconhecer formas tardias também reforça a importância do monitoramento contínuo ao longo da infância e adolescência, mesmo quando os sinais iniciais são discretos. “Esses achados reforçam a necessidade de estratégias diagnósticas e de cuidado personalizadas, que integrem informações sobre trajetórias de desenvolvimento individuais, perfis socioemocionais e fatores genéticos, garantindo intervenções mais precisas e eficazes durante toda a vida”, conclui Sertié.

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