Detentor do segundo maior rebanho bovino do país e Estado mais avançado em rastreabilidade, o Pará ainda possui frigoríficos com alto nível de exposição ao risco de compra de gado de áreas de desmatamento ilegal. Estudo do projeto Radar Verde, das organizações O Mundo que Queremos e Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), obtido pelo Valor mostra que há indústrias no Estado em que esse risco varia de 99 mil hectares a mais de 2 milhões de hectares.
“Para chegar a esses números, a gente considera todo o caminho possível que esses frigoríficos podem fazer para comprar gado”, explicou Camila Trigueiro, pesquisadora do Imazon e do Radar Verde. O estudo leva em conta embargos ambientais, áreas já desmatadas e áreas com risco de desmatamento na zona de compra de gado.
“Quanto maior o Grau de Exposição ao Risco de Desmatamento indicado para ele [frigorífico], maiores são as chances dele adquirir gado vindo de uma área que possa ter um embargo ambiental ou que possa ter um desmatamento ilegal”, explicou Trigueiro.
A planta mais exposta é uma unidade da Mafrinorte em Castanhal (PA), onde o risco chega a 2,85 milhões de hectares. Procurada, a companhia não respondeu a um pedido de comentários.
A JBS foi considerada a companhia com o melhor desempenho porque apresentou mais informações públicas sobre sua política socioambiental e sobre os critérios de compra de gado comparado às outras empresas, de acordo com as informações do Radar Verde. A JBS ainda conta com auditoria independente sobre as compras de suas unidades no Pará.
“Embora a JBS tenha tido um resultado melhor comparado às outras empresas, entre os frigoríficos que operam aqui no Pará, ela ainda não apresenta o controle dos seus fornecedores indiretos”, pontuou a pesquisadora. Procurada, a JBS não respondeu a um pedido de comentários.
O levantamento analisou 39 plantas frigoríficas de diferentes empresas no Pará, cuja capacidade de abate é de 15.467 cabeças ao dia. Do total, apenas 13 unidades demonstram algum nível de controle sobre seus fornecedores diretos de gado e nenhum tem monitoramento comprovado dos fornecedores indiretos.
Cerca de 61% dos frigoríficos avaliados eram signatários do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, um acordo entre o Ministério Público Federal (MPF) e frigoríficos da Amazônia para combater o desmatamento ilegal e outras irregularidades socioambientais na cadeia.
Segundo o Radar Verde, os signatários do TAC no Pará estão na fronteira do sudeste do Estado, onde a expansão da pecuária historicamente impulsionou o desmatamento. “Contudo, é possível ver que a adesão ao TAC não garante desempenho elevado na avaliação Radar Verde — há frigoríficos com TAC e nota baixa na avaliação, indicando limitações na transparência da empresa e divulgação pública de seus compromissos contra o desmatamento”, detalhou o estudo.
Na avaliação da pesquisadora do Imazon, a análise do Radar Verde pode ajudar o Estado a identificar quais áreas apresentam mais risco e onde é mais urgente implementar o programa de rastreabilidade, com identificação individual dos animais.
Segundo a pesquisadora, o Pará tem cerca de 360 mil animais identificados individualmente. Em dezembro, o Estado adiou seu plano de rastreabilidade por cinco anos, e agora a identificação individual será obrigatória a partir de 2030.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) disse em nota que entende que o Radar Verde tem o “louvável” objetivo de auxiliar consumidores, mas apresentou críticas. “Há oportunidades de melhoria na metodologia estabelecida, que hoje pode mais confundir do que ajudar o consumidor”, avaliou.
Segundo a Abiec, o estudo não considerou políticas das empresas relacionadas ao rigor na aquisição de matéria-prima. Por isso, mesmo indústrias com alta aprovação em auditorias do TAC podem aparecer de forma negativa nas análises do Radar Verde.
“É exigido pela iniciativa [do Radar Verde] que as indústrias tenham rastreabilidade completa de sua cadeia de fornecimento, ao mesmo tempo em que não há transparência nos dados públicos de trânsito animal para que se tenha esse controle”, acrescentou.






