Manter uma rotina de leitura, escrita e aprendizado de idiomas ao longo da vida pode ser uma das estratégias mais eficazes para preservar a saúde do cérebro e diminuir o risco de Alzheimer na velhice. É o que indica um novo estudo conduzido pelo Rush University Medical Center, nos Estados Unidos, e publicado na revista Neurology em 11 de fevereiro.
De acordo com os pesquisadores, pessoas com maior nível de “enriquecimento cognitivo” — ou seja, maior exposição a atividades intelectualmente estimulantes desde a infância — apresentaram 38% menos risco de desenvolver doença de Alzheimer e 36% menos risco de comprometimento cognitivo leve.
Além disso, os dados sugerem que o envolvimento contínuo com a leitura e outras práticas relacionadas à linguagem pode retardar o Alzheimer em até cinco anos e o comprometimento cognitivo leve em até sete anos.
A hipótese é que esse estímulo contínuo fortalece conexões neurais e contribui para a formação de uma “reserva cognitiva” que deixa o cérebro mais resistente às alterações associadas ao envelhecimento.
“Nossos resultados sugerem que a saúde cognitiva na terceira idade é fortemente influenciada pela exposição ao longo da vida a ambientes intelectualmente estimulantes”, afirmou a neuropsicóloga Andrea Zammit, uma das autoras do estudo.
Como o estudo foi feito
A pesquisa, no total, acompanhou 1.939 participantes, com idade média de 80 anos no início do estudo, por quase oito anos. Os voluntários responderam a questionários sobre seus hábitos intelectuais em três fases da vida: aos 12 anos, aos 40 anos e na idade atual.
Com base nessas respostas, os pesquisadores criaram uma escala de enriquecimento cognitivo — um tipo de pontuação que mede o quanto cada pessoa esteve exposta, ao longo da vida, a atividades que estimulam o cérebro. Os pesquisadores então compararam os resultados cognitivos entre aqueles com pontuações mais altas e mais baixas.
Para calcular essa pontuação, foram considerados fatores como frequência de leitura de livros, hábito de escrever, aprendizado de línguas estrangeiras, uso de dicionários e participação em ambientes culturais, como bibliotecas e museus. Nesse contexto, quanto maior a regularidade e a duração dessas práticas, maior a pontuação do participante na escala.
Outro ponto analisado foi o nível socioeconômico (NSE), que inclui indicadores como escolaridade, renda e acesso a recursos educacionais. Isso foi feito para investigar se o menor risco de demência poderia ser explicado só por melhores condições financeiras ou maior acesso à educação formal.
O resultado das comparações demonstrou que o efeito protetor do enriquecimento cognitivo continuou significativo, indicando que esse benefício vai além da condição econômica.
Além disso, entre os participantes que faleceram durante o acompanhamento, houve análise do tecido cerebral. Os resultados indicaram que aqueles com maior estímulo intelectual na infância apresentavam sinais de maior resistência ao acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, sugerindo um possível efeito biológico da chamada “reserva cognitiva”.
O que os resultados significam
Apesar dos resultados promissores, os cientistas ressaltam que a pesquisa aponta uma associação forte, mas não comprova causa e efeito. Ou seja, não é possível afirmar que ler livros, por si só, impedirá o desenvolvimento da doença.
Outros fatores também influenciam o risco do Alzheimer, como qualidade do sono, prática de atividade física, alimentação e condições de saúde pré-existentes. Além disso, parte das informações coletadas dependeu só da memória dos próprios participantes sobre hábitos mantidos décadas antes.
Ainda assim, o estudo reforça algo que os especialistas de saúde já defendem há vários anos: manter o cérebro ativo ao longo da vida pode ser um dos caminhos mais acessíveis para preservar a cognição na velhice e reduzir o risco de Alzheimer.
Além disso, os autores defendem que políticas públicas voltadas ao estímulo do aprendizado ao longo da vida — como ampliação de bibliotecas e programas educacionais — podem ter um impacto importante na redução da incidência de demência.






