Perder um cônjuge é uma das experiências mais difíceis da vida, mas os efeitos desse luto podem variar bastante entre homens e mulheres.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, e da Universidade de Chiba, no Japão, indica que homens viúvos apresentam riscos maiores para diversos problemas de saúde, incluindo demência e mortalidade.
O trabalho, publicado no Journal of Affective Disorders em 12 de fevereiro, mostrou que, entre idosos, a morte do parceiro está associada a piora mais intensa e duradoura na saúde dos homens, enquanto as mulheres parecem lidar melhor com a perda ao longo do tempo.
Segundo o epidemiologista Koichiro Shiba, autor sênior do estudo, os efeitos do luto conjugal vão além do sofrimento emocional.
“Perder um cônjuge é um evento traumático que pode afetar muito mais do que apenas o luto. Descobrimos que os homens viúvos foram mais afetados em quase todos os aspectos, enquanto as mulheres demonstraram um grau surpreendente de resiliência”, afirma, em comunicado.
Diferenças na saúde após a perda
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram dados de quase 26 mil idosos participantes de um grande estudo sobre envelhecimento no Japão. Entre eles, 1.076 haviam perdido o cônjuge durante o período de acompanhamento.
Os cientistas avaliaram 37 indicadores relacionados à saúde física, mental e ao bem-estar, acompanhando os participantes em três momentos diferentes ao longo de seis anos.
Em comparação com homens que continuavam casados, aqueles que ficaram viúvos apresentaram maior risco de desenvolver demência, além de aumento na mortalidade, maior dificuldade para realizar atividades do dia a dia e piora em indicadores de saúde mental, como depressão e redução da felicidade.
Também houve queda no apoio social relatado por esses homens, mesmo quando eles passaram a participar mais de atividades sociais após a morte da esposa.
Entre as mulheres, os efeitos da viuvez foram diferentes. Embora muitas tenham relatado uma redução inicial na felicidade após a perda do marido, os pesquisadores não observaram aumento significativo em sintomas depressivos ou em outros problemas de saúde.
Em vários casos, a satisfação com a vida chegou a melhorar nos anos seguintes.
Possíveis explicações culturais
Os pesquisadores acreditam que diferenças nos papéis sociais e nas redes de apoio podem ajudar a explicar esse contraste entre homens e mulheres.
Segundo Shiba, em muitas culturas a vida dos homens costuma estar mais ligada ao trabalho e eles tendem a depender mais das esposas para apoio emocional e organização do cotidiano.
“Como resultado, os homens podem ter menos oportunidades de desenvolver redes sociais próprias e acabam se sentindo mais isolados após a perda”, explica.
A pesquisa também observou mudanças nos hábitos após o luto. Homens viúvos relataram aumento no consumo de álcool, enquanto mulheres viúvas se tornaram um pouco mais sedentárias.
Outro fator levantado pelos autores é que, em muitos contextos culturais, as mulheres assumem o papel de principais cuidadoras dos maridos. Para algumas delas, a perda do cônjuge pode significar também o fim de um período prolongado de cuidados intensivos.
“No Japão, as mulheres têm muito mais probabilidade de serem as principais cuidadoras de seus cônjuges. Para algumas, o luto pode representar, em parte, um alívio desse fardo, o que pode ajudar a explicar a melhora no bem-estar observada ao longo do tempo”, diz Shiba.
Apoio no período de luto
Apesar das diferenças observadas entre os sexos, os pesquisadores destacam que o período logo após a perda do parceiro merece atenção especial, principalmente no caso dos homens.
“O primeiro ano após o luto parece ser um período de risco particularmente elevado para os homens. Por isso, apoio ativo da família, amigos e profissionais de saúde pode ser fundamental”, afirma Shiba.
Segundo ele, também é importante observar sinais de solidão ou comportamentos que podem surgir como forma de lidar com o sofrimento, como o aumento do consumo de álcool.
Os autores ressaltam que novas pesquisas ainda são necessárias para entender melhor como fatores como qualidade do relacionamento, intensidade dos cuidados prestados e condições de saúde anteriores podem influenciar os efeitos da perda do cônjuge ao longo do tempo.







