O filhote de macaco-prego que comoveu servidores e visitantes da Floresta Nacional de Pacotuba, no Espírito Santo, ao “chorar” e permanecer ao lado do corpo da mãe atropelada, inicia agora uma nova e delicada etapa na vida.
Sem a mãe, que morreu ao tentar atravessar a Rodovia João Domingos Zago, na terça-feira (13/1), o macaquinho dependerá integralmente de cuidados humanos antes de, talvez, retornar à natureza.
De acordo com Aline Mota, agente temporária ambiental da Flona de Pacotuba, que estava presente no momento do resgate do animal e fez o registro da cena da mãe com o filhote, não há prazo definido para a reabilitação do macaquinho, que ainda não recebeu nome.Play Video
“O filhote será totalmente dependente do ser humano por um tempo por estar em fase de amamentação”, explica a bióloga . “É um processo demorado, mas provavelmente ele conseguirá retornar para a natureza depois da reabilitação.”
Apesar da expectativa positiva, a ausência da mãe representa um desafio significativo para o desenvolvimento do animal. Em primatas, as fêmeas são responsáveis por ensinar comportamentos essenciais para a vida em grupo, como formas de comunicação, interação social e noções emocionais.
Também é com a mãe que o filhote aprende habilidades fundamentais de sobrevivência, como reconhecer predadores, buscar alimento e até utilizar ferramentas, como por exemplo pedras para abrir frutos.
“Essas habilidades podem ser comprometidas em primatas criados por seres humanos”, afirma Aline. Por isso, não há certeza que o animal poderá ser reintroduzido à natureza.
Ainda assim, a especialista destaca que o trabalho realizado pelo Centro de Reintrodução de Animais Selvagens (Cereias), em Aracruz (ES), é referência. A instituição, para onde o macaquinho deve ser encaminhado, atua para estimular comportamentos naturais, promovendo a formação de grupos sociais entre os animais resgatados. “Isso aumenta as chances de soltura conjunta e bem-sucedida.”
Estado de saúde do macaquinho
Após ser encontrado por Aline, o filhote foi resgatado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Dois veterinários deram suporte inicial à equipe: Paulo Andrade, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), campus Alegre, e Vitória Pavesi, que atua em consultório na mesma cidade. Confira o relato deles:
Em recuperação sob acompanhamento do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), o animal será encaminhado ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) e, posteriormente, deve seguir para o Cereias.
Atropelamento de animais silvestres
O caso reacende o alerta sobre atropelamentos de animais silvestres, um problema recorrente em rodovias que cortam áreas de preservação ambiental.
No mesmo dia da morte da macaco-prego fêmea, outros animais foram atropelados na região, incluindo uma cobra-cipó de mais de dois metros e uma cadela doméstica abandonada, que estava sob cuidados para castração e adoção.
“Infelizmente ela morreu atropelada antes, a poucos metros de dois quebra-molas, onde as pessoas já deveriam estar em velocidade reduzida”, lamenta Aline.
A especialista defende que, para que haja redução nesse tipo de caso, é preciso que exista fiscalização e infraestrutura adequada, como passagens de fauna, corredores ecológicos, sinalização reforçada e redutores de velocidade. “Os animais só querem viver em seu habitat natural, mas as ações humanas acabam colocando essas vidas em risco”, alerta.







