O aval dado pela União Europeia para a assinatura do acordo com o Mercosul gerou revolta entre os agricultores europeus, que protestaram nesta semana nas ruas de diversas capitais do continente.
A Copa Cogeca, entidade que reúne agricultores e cooperativas agrícolas do bloco, prometeu manter a mobilização. Uma reunião foi marcada para a próxima segunda-feira (12/1) para planejar os próximos passos.
Na avaliação da entidade, o acordo é “falho” e foi aprovado após meses de “manobras e pressões sem precedentes, que confirmam a complexidade e a natureza controversa” do tratado. Para a Copa Cogeca, os termos deixarão “marcas a longo prazo” na agricultura europeia mesmo com a aprovação de salvaguardas adicionais para proteção dos produtores do bloco.
“Apesar dos últimos ajustes às medidas de salvaguarda adicionais, as organizações agrícolas e cooperativas agrícolas europeias permanecem unânimes e unidas na denúncia de um acordo que continua fundamentalmente desequilibrado e falho em sua essência”, diz comunicado divulgado nesta sexta-feira (9/1).
A entidade criticou a decisão do Conselho Europeu de aplicar a implementação provisória do acordo comercial e classificou a medida como “extremamente preocupante”. De acordo com a Copa Cogeca, isso “mina a confiança na governança europeia, nos processos democráticos e no escrutínio parlamentar em um momento em que a credibilidade institucional já está fragilizada”.
Para a entidade, a decisão também revela “nervosismo” e a possibilidade de haver uma maioria contrária ao acordo no bloco.
A entidade é fruto da união de duas organizações: a Copa (Comitê das Organizações Profissionais Agrícolas) e a Cogeca (Confederação Geral das Cooperativas Agrícolas da UE).
Nas redes sociais, algumas pessoas têm defendido a saída da França da UE. Em uma das postagens, um francês questiona se “para tirar a França da União Europeia, você concorda com o Frexit?”. A mensagem faz alusão ao Brexit, episódio que marcou a saída do Reino Unido do bloco europeu em 2020.
Os franceses foram a principal voz contra o acordo com o Mercosul no na UE. Nesta sexta-feira, Hungria, Irlanda e Polônia também votaram contra a assinatura, mas acabaram derrotadas.
Preocupação com a concorrência
Também em nota, a União dos Agricultores e Sindicatos Agrícolas, com sede em Madri, afirma que o acordo não garante uma proteção efetiva aos agricultores europeus.
Sobre as salvaguardas adotadas pelo bloco europeu, a nota afirma que, “sem reciprocidade real e compromissos claros”, elas não passam de uma promessa vazia.
“Embora Bruxelas tenha adotado mecanismos internos de salvaguarda, os países do Mercosul não confirmaram publicamente a aceitação dessas cláusulas, nem como elas serão aplicadas na prática”, prossegue o texto.
A organização cita ainda que o acordo “permite a entrada de produtos que não atendem aos mesmos requisitos de saúde, meio ambiente e bem-estar animal impostos aos produtores europeus”, o que na visão da entidade configura concorrência desleal.
A organização francesa Jeunes Agriculteurs (Jovens Agricultores) informou em nota que vai manter a mobilização “para impedir a entrada na União Europeia de produtos que não atendam aos nossos padrões de saúde, requisitos ambientais e sistema social”.
Uma mobilização foi convocada para 20 de janeiro em Estrasburgo “para lembrar aos eurodeputados as consequências desastrosas deste acordo e a necessidade de se opor a ele”.
Na Itália, país que votou favorável ao acordo, a Confederazione Generale dell’Agricoltura Italiana (Confagricoltura) afirmou que “a principal preocupação diz respeito ao princípio da reciprocidade, essencial para garantir um comércio internacional justo e transparente”.
A organização chama a atenção para o que considera o risco de uma assimetria: “Enquanto as empresas agrícolas italianas e europeias são obrigadas a cumprir padrões extremamente elevados em termos de sustentabilidade ambiental, segurança alimentar e direitos dos trabalhadores, as mesmas regras não se aplicam às importações dos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai)”, diz a entidade, em nota.






