O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), encerrou o primeiro ano do segundo mandato à frente do Congresso Nacional com a relação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estremecida, mas com base e posições fortalecidas.
Indo do PL ao PT, o senador amapaense se elegeu com um apoio quase unânime na Casa, em votação realizada no início de fevereiro de 2025. Recebeu apoio de 73 dos 81 integrantes do Senado– a terceira maior votação da história. Ele era o candidato do antecessor, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Ao Planalto, prometeu manter a governabilidade, enquanto à oposição aliada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), se comprometeu a não vetar assuntos desde que fossem consensuados, dentre eles, a anistia aos presos pelo 8 de Janeiro.Play Video
De perfil brincalhão e conciliador, Alcolumbre conduziu a pauta das cerca de 80 sessões deliberativas realizadas em 2025, quase sempre certo do resultado da votação. Articulador nato e fiel ao cumprimento de acordos, ele garantiu resultados favoráveis até em pleitos difíceis, como mudanças na Lei da Ficha Limpa e o aumento de deputados — mesmo que isso implique ele descer da cadeira de presidente para votar a favor do tema.
“Foi um ano em que foi preciso ter muita serenidade no Senado para conciliar uma agenda de muitos embates e tensionamentos entre os poderes e dar sequência às pautas que interessam ao povo, como a agenda econômica”, disse Efraim Filho, líder do União Brasil.
Vitórias: o Licenciamento Ambiental, derrubada do IOF e a Dosimetria
Isso permitiu que Alcolumbre e aliados tenham vitórias importantes e fortaleçam a posição do Legislativo como um todo. Algo que ficou evidente na aprovação da Lei do Licenciamento Ambiental — alvo de críticas do governo e ambientalistas. Fora do Senado, Alcolumbre também teve uma vitória importante, que foi a liberação de pesquisas para a exploração de petróleo na Foz do Amazonas.
Outra demonstração de força se deu na derrubada do decreto presidencial que estipulava o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), algo que não era registrado desde 1992.
O presidente do Senado também foi o principal fiador da tramitação acelerada do projeto da Dosimetria. Em meio à disputa de força com o Executivo, Alcolumbre garantiu a votação e apoiou o projeto de lei que reduzia penas e adiantava a progressão de regime para condenados pelo 8 de Janeiro e a trama golpista, como Bolsonaro.
Quem é Davi Alcolumbre
- Davi Samuel Alcolumbre Tobelem tem 48 anos e nasceu em Macapá (AP);
- Iniciou a carreria política em 2001, sendo eleito vereador da capital amapaense;
- Se elegeu como deputado federal durante três mandatos consecutivos, de 2003 a 2015;
- Foi eleito pela primeira vez ao Senado em 2014 e está no seu segundo mandato;
- Em 2019, foi eleito presidente do Senado, cargo que excerceu até 2021;
- Foi o primeiro presidente judeu do Congresso Nacional;
- Tentou um segundo mandato, mas foi vetado pelo STF por se tratar de uma reeleição dentro da mesma legislatura;
- Emplacou seu candidato, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) como sucessor.
Relação com Lula: do céu ao inferno
Antes dos confrontos na reta final de 2025, o presidente do Senado manteve uma relação próxima com os líderes do governo e com o próprio Lula. Esteve ao lado do petista em três viagens oficiais ao longo de 2025: ao Japão e Vietnã; Roma para o enterro do Papa Francisco; e para a China e a Rússia, todas a convite do presidente.
O senador amapaense deu vitórias importantes para o Palácio do Planalto em 2025, como a aprovação em pouco mais de um mês da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Alcolumbre, ao mesmo tempo, ampliou o poder de indicações dentro do governo fugindo, inclusive, do rompimento do União Brasil com Lula.
Apesar da imposição e consequente expulsão de Celso Sabino, então ministro do Turismo, do União Brasil por desobedecer a diretiva nacional, Alcolumbre manteve as indicações intactas: a do ministro do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes e das Comunicações, Siqueira Filho.
O consenso e a harmonia dão lugar ao embate direto quando Davi Alcolumbre é contrariado. A relação se manteve harmônica até o final de novembro, quando Lula decidiu indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF, na vaga deixada pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso.
A decisão irritou Alcolumbre profundamente. Aliados ouvidos pela reportagem disseram que o senador se sentiu desmerecido por Lula. Senadores avaliam que era “o momento ideal” para que o petista fizesse esse aceno ao Senado, já que a vaga deixada por Barroso não estava prevista e poderia servir para “encaixar” um aliado da Casa onde o governo tem uma base mais leal.
O descontentamento sobrou para Messias, que enfrenta a resistência de senadores, e para o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que passou a ser ignorado por Alcolumbre em retaliação a Lula.
No entanto, foi Lula que causou um dos raros recuos de Alcolumbre em 2025. Ante a negativa ao nome do AGU, o Planalto decidiu segurar o envio da documentação para iniciar a tramitação, obrigando o presidente do Senado a remarcar a sabatina para 2026.
A votação do projeto de lei da Dosimetria no Senado Federal trouxe um novo desgaste à relação entre ambos, dada à insistência de Alcolumbre em votar o projeto que pode beneficiar Bolsonaro antes do início do recesso, a contra-gosto do Planalto, que estudava maneiras de adiar a votação.
Para aliados, ainda não está claro em que pé a relação entre Alcolumbre e Lula deverá começar em 2026. Os mais otimistas consideram que o verão trará um clima ameno à relação, enquanto outros dizem que o rompimento deixará sequelas.
2025 do Senado em números
- 425 matérias apreciadas, sendo 337 aprovadas, duas rejeitadas e 86 prejudicadas;
- dessas, 161 são de autoria do Senado, 138 da Câmara, 26 da Presidência e 12 do Judiciário;
- 198 sessões realizadas, das quais 76 foram deliberativas;
- 37 indicações aprovadas para órgãos reguladores, embaixadas e instâncias do Judiciário.
Motta, as emendas e o congresso
Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), começaram os respectivos mandatos com uma proximidade grande entre as cúpulas. A união fica mais evidenciada quando comparada à relação tensa entre Rodrigo Pacheco e Arthur Lira (PP-AL).
Logo no começo, Alcolumbre e Motta acordaram retomar o rito de tramitação das medidas provisórias, interrompido na pandemia e mantido por Lira.
O andamento das pautas seguiu com certo alinhamento por alguns meses. Por exemplo, Motta pautou a derrubada do decreto do IOF por saber que Alcolumbre também derrubaria a proposta.
Senadores avaliam que Alcolumbre, por ser um político mais experiente, dava uma base de apoio e “um ombro amigo” para o deputado paraibano.
Porém, ao longo do tempo, ocorreu um afastamento que aliados do senador amapaense consideram “natural”, mas foi escancarado depois que Motta endossou e aprovou a PEC da Blindagem, esperando que Alcolumbre desse sequência à aprovação da proposta. Não foi o caso.
Já no Senado, o projeto que ampliava mecanismos de proteção de parlamentares contra investigações foi arquivada por Alcolumbre após a CCJ rejeitar a proposta por considerá-la inconstitucional. A derrota irritou os líderes da Câmara e especialmente Motta, que teria se sentido traído.
Enquanto Motta enfrenta uma profunda crise de credibilidade entre deputados, Alcolumbre segue a sua agenda e tem seus aliados mais perto do que nunca. O senador amapaense é um forte defensor das emendas parlamentares e do poder do Legislativo sobre o Orçamento.
Alcolumbre saiu em defesa do Congresso e criticou a “criminalização das emendas” em meio à ofensiva do ministro Flávio Dino, do STF, contra o uso irregular de recursos. O magistrado encabeça os inquéritos sobre o chamado Orçamento Secreto e tem sido alvo de incômodo entre parlamentares.
“Muitas vezes as críticas em relação ao orçamento são genéricas, criticando as despesas promovidas pelo Congresso. A criminalização do orçamento do Estado brasileiro ou do Congresso Nacional é a criminalização da democracia, da política e das instituições. Estamos passando por um momento delicado da história em que nós temos que defender as instituições, a democracia e o Estado”, disse Alcolumbre em agosto.
Em 2025, a Comissão Mista de Orçamento (CMO) aprovou uma Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 com um calendário que obriga o governo a pagar ao menos 65% das emendas até julho- pouco antes do início oficial da corrida eleitoral. Depois, foi aprovado o Orçamento em si, com superávit de R$ 34,5 bilhões e R$ 61 bilhões em emendas parlamentares.
Alcolumbre acompanhou as tratativas de perto e seguiu um cronograma rígido, construído com o presidente da CMO, Efraim Filho, para viabilizar a aprovação nas últimas semanas do ano, evitando a todo custo deixar as votações para 2026, com aconteceu com o Orçamento deste ano.
E a oposição?
Apesar do perfil de diálogo e de relativa estabilidade, a autoridade de Alcolumbre foi posta à prova quando aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro ocuparam o plenário do Senado em protesto pela prisão domiciliar imposta pelo ministro Alexandre de Moraes. Em agosto, bolsonaristas como Magno Malta (PL-ES) se acorrentaram à cadeira de presidente do Senado e fizeram vigílias dia-e-noite para permanecer no local.
Alcolumbre, primeiro, emitiu uma nota criticando a ação e a chamando de “alheia aos princípios democráticos”. Depois, reuniu líderes partidários de todos os espectros políticos em uma reunião na Residência Oficial do Senado, onde foram feitas reclamações abertas ao líder Rogério Marinho (PL-RN).
As reivindicações dos bolsonaristas eram três: pautar a anistia, o fim das decisões monocráticas e a anistia “geral e irrestrita” para os presos do 8 de Janeiro.
Depois, em uma reunião só com representantes da oposição, Alcolumbre foi firme: deveriam desocupar o local até a manhã seguinte. O espaço foi liberado no prazo, após a oposição reunir 41 assinaturas a favor do impeachment de Alexandre de Moraes.
Alcolumbre, apesar de presionado, nunca deu andamento aos pedidos de cassação contra ministros do Supremo, em especial contra Alexandre de Moraes. Na época da ocupação do plenário, chegou a dizer que não pautaria um impeachment “nem se tiver 81 assinaturas”.
Ao mesmo tempo, se viu contestado, como os demais senadores, pela decisão do ministro do Supremo, Gilmar Mendes, para que denúncias por crimes de responsabilidade contra ministros só fossem feitos pela Procuradoria Geral da República (PGR) e não mais por qualquer cidadão, nos termos da atual legislação.
Na prática, isso tira do Senado o poder de dar início ao processo de cassação contra magistrados. Gilmar cita o crescente uso dos pedidos de cassação em retaliação e intimidação por decisões da Corte.
Em resposta, Alcolumbre articulou o andamento do projeto de lei que atualiza a Lei do Impeachment e também acelerou a tramitação do Marco Temporal nas vésperas do julgamento, relatado por Gilmar.
Gilmar acabou recuando na decisão sobre o impeachment de ministros, em mais uma vitória para Alcolumbre, que por falta de consenso, deixou as mudanças para 2026.







